
Temos que atravessar águas amargas, antes de chegar à doçura. - dizia Lester Silvius, acariciando um copo repleto de um líquido opaco, parecido com vinho.
Bem, o meu nome completo é Keila Vlata Knightley-Bauhütte&Seelenvogelanden Youngblood, Nomes crespos como uma chuva de primavera. Nomes que lembram cavaleiros puros, castelos longínquos, almas e pássaros. É mais fácil mesmo me chamar de Keila Youngblood. Alguns de meus amigos me chamam de Keilinha (!?). Sou salada de gens raciais. Um de meus antepassados, Dirceu 'Fractus' McDaemon, foi um baronete alsaciano que, por duas vezes, caçou perdizes portuguesas (Alectoris rufa) com o próprio Kaiser. Minha tataravó, Gladys Cherryberry, era filha de um confeiteiro belga de Village Washtoob e casou-se aos 15 anos com Euclídio Corvin-Corax, o célebre inventor do mirmecotombógrafo.
Não importa. Quando tudo isto começou, pode ser que os já-mortos estivessem vagando ao meu redor, mas os vivos estavam ausentes. Eu estava sozinha....
Tenho poucos amigos verdadeiros, e prefiro me relacionar com poucas pessoas. Nada de mais nisto.
Sempre fui uma garota reservada. Muitos dizem que sou tímida, ou bem fechada ao 'meu mundo'. Que sou um tanto misteriosa, cheia de segredos (talvez eu tenha meus motivos). Tenho alguns defeitos: impaciência, desconfiança e sou um tanto possessiva. Mas também tenho algumas qualidades: honestidade, amizade e fidelidade (creio que, ao me escolher, meu mestre se inpirou nesta última qualidade, essencial para nossa raça).
Enfim, sou um pouco contrária a opinião geral das pessoas. Não gosto de futebol, nem de carnaval, e nem de cerveja gelada. Detesto gente fútil. Não sou adepta de sol, detesto praias. Não tenho pretensão de ser rica, e nem famosa. Meu ideal de vida é ser feliz, atingindo meus objetivos pessoais e profissionais. Estou no segundo ano de Administração de Empresas. Quando entrei na faculdade de Administração, após trancar matrícula em um curso de química voltado para produção, foi como cair de pára-quedas: Eu não sabia que curso queria fazer. Mas foi um golpe de sorte, pois hoje gosto muito do que estou estudando, apesar de pensar em um dia cursar Direito (vocês se admirariam com a quantidade de sugadores que há entre os advogados).
Ser 'administrador' é tomar "chá" todos os dias. Temos que reunir conhecimentos, habilidades e atitude dentro de uma organização. 'Administrar' é um planejamento traçado para atingir objetivos, usando-se de conhecimentos de direção e controle. Aliás, todos esses conceitos, aprendidos em sala de aula, estão me inspirando para o meu grande plano de administrar este novo mundo a que pertenço. Pode não parecer, mas os mestres existentes não tem base para comandar, não tem liderança, são chefes antigos. Digamos que ainda aplicam a teoria centífica de Taylor, dando ênfase às tarefas e não se preocupando com o bem-estar dos seus servos. Pretendo dar um jeito nessa bagunça toda, ou ajudar alguém a se colocar corretamente nessa posição, elaborando estratégias, e atráves de um diagnóstico organizacioanl, colocá-las em prática. E também acabar com o by pass. Depois de formada pretendo reunir colegas de sala (não-mortos como eu) para ajudar nessa administração deste Novo Mundo. Mas isto é outra estória.
Enfim: nada demais comigo. Foram as coisas estranhas que aconteceram comigo. 'Tarde da noite passada, ou na noite seguinte. aconteceram umas coisas estranhas comigo'.
Eu sei: Isto parece o começo de uma velha cantiga da Mamãe Ganso: 'Batendo à porta / Quero sair / Mas não sei se posso / Porque tenho pavor / Do homem Tommyknocker'. Parece que Tommyknockers eram ogres que viviam em túneis, fantasmas que infestavam cavernas, ou então, espíritos de mineiros mortos por inanição. Não sei o que é pior.
Mas estou divagando e mal comecei! É a minha cabeça. Os meus sentidos estão muito mais aguçados, é claro. Mas as minhas idéias... às vezes penso numas coisas indevidas, coisas proibidas. Coisas que poderiam ser classificadas como novos tipos de crueldade. Deixa pra lá.
Que assim seja. As circunstâncias, as coisas que me envolveram. Como se, de repente, e contra minha vontade, eles tivessem me envolvido com um casaco velho e poeirento - e eu não conseguisse mais despi-lo. Não que eu seja uma pessoa extraordinária. Não sou. Na verdade, eu não me considero uma garota criativa. E nem poderia ser muito diferente, devido à minha tenra idade e, sobretudo, à época em que vivemos. 'A Literatura está morta; o Cinema está doente', diria Dédalo Vandalbrain. 'Aussatz Zeitgeist', diria meu tio-avô Mycrosoft Holmes: Tempos leprosos. (Lembrem-se que estes fatos aconteceram a cerca de 400 anos, no ano em que um camponês de El Graniones trouxe um lagarto que gritava como se fosse uma mulher).
Bem, as alucinações começaram e tornaram-se cada vez mais frequentes. A primeira delas aconteceu, creio, no primeiro ano da faculdade, na véspera do Dia de Todos os Santos. Eu voltava de uma festa de halloween (ou simplesmente mais uma noite de esbórnia). A lua cheia era como uma lanterna gigante iluminando o meu caminho. Olhei em direção a minha casa. Ergui os olhos para andar de cima e detive-me, aturdida. Meu coração deu um pulo. Do lado de dentro da vidraça do meu quarto, no segundo andar, alguma coisa olhava para mim.
'Meu Deus!', exclamei em voz alta.
Assustadoramente nítida, via-se a cabeça de um porco. Eu tinha certeza de que podia ver os dois horríveis olhinhos vermelhos e arregalados olhando para mim.
Não sou uma garota medrosa. Corri para dentro de casa e subi a escadaria. Quando segurei a maçaneta da porta do meu quarto, banhada pela luz baça do luar, que entrava por uma janela do patamar do andar de cima, foi que, pela primeira vez, tive um indizível mal estar que - hoje sei - foi uma espécie de mau pressentimento. Sim, fui atingida fui atingida por tal premonição de horror e desgraça que tive que parar, com uma súbita impressão de frio. Olhei em volta, espantada, não entendendo as sensações que tomavam conta de mim. Os meus braços e costas estavam totalmente arrepiados.
'O que está havendo?', perguntei-me, confusa e assustada. Agora, o coração disparava, o couro cabeludo parecia gélido e subitamente pequeno demais para cobrir o crânio; podia sentir a onda repentina de adrenalina avançando por trás dos olhos. Os olhos realmente se arregalam quando o medo é extremo, eu sabia; não apenas se dilatam, mas se tornam salientes (pois a pressão sanguínea sobe e a pressão hisdrostática dos fluidos cranianos aumenta). `Que diabos é isso? - pensei - 'Fantasmas? Meus Deus, parece que, nesta escadaria, alguma coisa relamente roçou em mim, quase me atravessou; uma coisa que eu quase vi'. Prometo que falarei sobre isto no próximo capítulo.