
Neste ponto da narrativa, a minha percepção do tempo começa a derreter. Quando rememoro todos aqueles anos da minha transformação, como esquecer aquela aguda dor de cabeça inicial? E as vozes palpitando dentro da minha cabeça? Uma vez eu disse (ou me mandaram dizer?) ao meus pais: 'Deixem-me me paz, deixem-me transformar-me me paz!' Coitados. Não havia como resistir às covardes, furtivas, modificações no meu corpo - e principalmente na minha mente. Minha 'vida' tornou-se uma espécie de filme de terror de classe B. Uma coisa de mal gosto, meio Monstro-Dunga, meio Mary Shelley, meio Boris Karloff. Às vezes, chego a sentir-me como se eu fosse uma personagem de uma obra como 'The Sensuous Exorcist', de Sybil Leek. No entanto, minha preferida sempre foi Anne Rice, que inovou o gênero ao mostrar a ótica do Predador, e não da vítima. Magia branca, benegris-gris. Em essência, tudo isto trata da essência recrudescente do Mal.
Mas não são as imagens hodientas, os aromas putrefatos ou os odores mefíticos que me interessam. Não, ao rememorar todos aqueles anos, o que me emociona é sempre a Música. Creio que, sem a Música, eu não teria suportado o que Lester chamava pedantemente de 'A Nona Configuração'.
Mas não qualquer música. Tem que ser 'o Rock'. Rock pra mim é o melhor estilo de música que existe, o Rock fez parte da minha vida - tanto quanto faz parte da minha morte. Enquanto eu me transformava, eu ficaria horas e horas trancada no quarto, esquecida do mundo, acompanhada apenas ao som do Nirvana. Acho que essas bandas revelam o meu lado obscuro, o qual a maioria das pessoas não conhece - e nem imagina que exista. Por outro lado, o Rock me ajudou nessa minha nova "vida". Atráves dele pude camuflar minha verdadeira condição aqui na Terra.
A pouco tempo atrás, fui em um show de rock em um estádio lotado. Foi simplesmente demais... o som da guitarra junto a bateria chegava a arrepiar o corpo, fazia-me sentir uma emoção inexplicável, talvez semelhante ao orgasmo dos vivos (assim como quando fui mordida por Lester Silvius).
Além de mexer com minha cabeça e provocar reações inusitadas no organismo, Rock pra mim é cultura, representado por um dos maiores poetas já existentes, Renato Russo, o vocalista do Legião Urbana. "Legio Urbana Omni Vincis", mofejava Lester Silvius. Sua músicas sempre me contagiaram e há muito tempo me traz lembranças. Principalmente de quando eu ainda estava viva.
Sim, adoro Rock n’ Roll. Comecei curtindo o rock satânico. Marylin Manson. Black Sabath. Necrosis. Emperor & Venon. Depois, passei para Guns n’ Roses (sou uma não-morta moderninha, ora bolas!), Foo Fighters, Charlie Brown Jr., Iron Maiden, Cpm 22, Capita Inicial, Linkin Park e até Oasis. Posso comparar essa minha paixão a uma religião. A propósito, já me indagaram se sou atéia, já que o Rock já me serviu de desculpa para fugir de igrejas e santuários. Afinal, as pessoas costumam associar essas músicas a coisas ruins, cantores alucinados que uivam, comem morcegos e cagam em cima da Bíblia.
Bem, por falar nisto, cruzes, rezas e água-benta são inúteis contra nós. Aquele papo de queimar nossos corpos em poucos segundos.... coisa de filmes (Hollywood.. bah!).
Basta pensar um pouco. A igreja é corrupta, o Vaticano está atulhado de ouro e pedrarias roubadas dos judeus e da América Pré-colombiana. E os padres..... (que pecados pode ter uma jovem aprendiz de nosferatu?). O padre Raimundo Callahan, é um rábula hipócrita que vive irritado com o jugo de um papado esclarecido. Bebe Jim Beam: Tem bom gosto, o filho da puta. Está escrevendo uma História da Igreja Católica na Nova Inglaterra e temos longas conversas sobre os poetas da nossa Idade do Ouro: Whittier, Longlellow, Russel, Holmes... Este pessoal. Sou uma não-mortinha erudita, eh, eh.
Enfim: Onde está a Fé, hoje em dia?
Mas o alho, ou melhor, o ácido nicotídico presente em abundância no alho, realmente causa uma estranha alergia na nossa pele. Não só o alho; há também os ácidos fólico, pantotênico e até a inocente Piridoxina. Uma amiga de infortúnio, Janete 'Rathbum' Eastwick, uma luterana gordinha, foi encontrada boiando no Rio Chappaquiddick. Janete deixou muitas saudades. Era uma Rakshasa, uma destas poderosas nosferati e feiticeiras indianas. Geralmente aparentam um ser humano com características animais (garras, presas, olhos em fenda, etc...) ou animais com características humanas (pés, mãos, nariz chato, etc...). O lado animal é muito comumente um tigre e elas comem a carne de suas vítimas além de beber seu sangue (mas Janete estava sempre de regime, coitada). As Rakshasas podem ser destruídas por fogo extremo, luz do sol, ou exorcismo - mas os lábios de Janete estavam grosseiramente costurados e sua boca, entupida de tomilho silvestre.
Outra substância nociva para nós é a warfarina (C6H11O7CaH2O; Peso molecular: 448,20; Aspecto: Pó cristalino ou granuloso), um poderoso anticoagulante, que costuma ser misturado à vaselina. E não sei se é assim para quem está vivo, mas para nós a aspirina tem uma composição semelhante à do LSD.
A cada dia, tenho novas surpresas com minha nova condição: Aerofobia, Hidrofobia (apenas os sinais patognomônicos) por espasmos dos músculos de deglutição e respiração, já no sengundo ano da Transformação, e, recentemente, estou aprensentando os sintomas da Paralisia ascendente do tipo Landry. Talvez isto sej passageiro. Por outro lado, sinto-me mais forte e, como também já disse, com os sentidos mais aguçados. Como qualquer animal caçador. Aliás, como os cães, podemos transpirar pela língua, e o equilíbrio PH da saliva altera-se (torna-se mais ácida).
Os dentes caninos não se desenvolvem e ficam pontudos, isto é besteira. Eles simplemente caem e são substituídos por outros, digamos, mais eficientes. Uma vez eu estava me despindo para o sono, quando meus dedos subitamente se congelaram sobre os botões. Minha língua encontrou uma flaha na fileira dos últimos dentes. Havia uma dor fosca e distante naquele local e um gosto desagradável em toda a boca. O dente estava entre os lençóis da noite passada. Paralelamente, aumenta a a intensidade parafuncional dos masseteres (os músculos nos lados da mandíbula, primariamente envolvidos em mastigação, não mordição), e num certo grau, dos pterigóides laterais (pequenos músculos nas juntas da mandíbula que a fazem abrir), mas ainda permitem contato canino para tensionamento excessivo das têmpora. Alguns de nós usam um aparelho NTI-tss para reduzir a intensidade da mordição ao explorar os mecanismos dos dentes incisores e evitar o contato dos dentes caninos e molares quando a mandíbula está centralizada, ou quando está em posições excursivas. Parece complicado? Você precisava ouvir Lester dissertando.
Por outro lado, a literatura está correta quanto à nossa predileção pela noite. Nossa pele tem deficiência grave na síntese de grânulos de melanina e realmente 'queima' sob as irradiações ultravioleta do odioso Sol. E nosso fluido vital (podese-se chamar assim aquela linfa asquerosa, putrefata - quase um formol - que corre nas nossas veias?) tem uma deficiência crítica em produzir hemoglobina. Daí nossa ´fome´ por determinados compostos protéicos... como aquela coisa
Ah, deliciosa linfa, de gosto quente, acre e acobreado!
que corre nas veias de quem ainda é humano. Mas tampouco isto não é sobrenatural. Compartilhamos este tipo de fome com criaturas perfeitamente naturais, como os morcegos hematófagos (Uroderma bilobatum?) - a propósito, sou colaboradora de uma ONG, o 'Projeto Morcego Livre'. Enfim, o que eu tenho é apenas uma espécie de doença (para muitos de nós, é uma benção), não é muito diferente de uma AIDs ou qualquer outra destas DSTs obsoletas como a sifilis ou a vulgar gonorréia. Lester me contaminou...