A IMORTALIDADE

O FIM.....



Agora a Keila n�o tem olhos de verdade.
       E as serpentes que antes segurava.
                    Devoram suas m�os.

As recorda��es despeda�am meu cora��o e fazem minha boca ficar seca.
A Nova Vida de Uma N�o-Morta. Eu gostava de cores vivas, em especial o vermelho. Agora, s� me visto de negro. Minha vida fora calma e comum. Mas agora estou alcan�ando a Beleza. N�o uma beleza angelical, mas uma beleza fria, desligada. Uma beleza macabra. Tenho olheiras permanentes e sou mais p�lida. Isto � um eufemismo - a quem desejo enganar? Minha pele � agora branca como uma l�pide sob a lua. Com o progresso da minha decomposi��o, no pr�ximo ver�o poderei exibir uma bela tonalidade acinzentada de massa de vidraceiro. Meus olhos s�o ba�os, como passas enfiadas num p�o, os olhos de uma sibila cega. Mas, quando saio para ca�ar, tornam-se vermelhos, animalescos. 'A animalidade da noite surge em asas tenebrosas', sentencia Lester. Meus novos dentes est�o nascendo bem, � o que tamb�m diz o meu Mestre. Devo ter paci�ncia.
E, �s vezes, meu c�rebro fica cheio de grasnidos de grandes corvos negros. Nestas horas, eu fico cheia de uma fome alucinada...
Mudando de assunto, recentemente, eu comecei a dar aulas. Como o cinema e a m�sica, os livros � outra destas coisas que ainda me fazem sentir viva.
Sempre me interessei por Pol�tica, devido � curiosidade de entender suas peculiaridades, e na escola uma das mat�rias que mais gostava era Hist�ria. Depois que entrei na faculdade, tive a grata surpresa de me deparar com uma mat�ria de Hist�ria Pol�tica, do qual gostei muito e tornei-me monitora.
Como j� pregava o renascimento: O homem � fruto de suas a��es e n�o de predestina��o. Ser�? A Hist�ria Pol�tica de uma na��o � o que faz ela entender o presente e o que fazer para melhorar o futuro - e eliminar a mis�ria, desemprego, doen�as incur�veis, terrorismo. E os regimes totalit�rios, conservadorismos, fascismos e nazismos, que sempre trazem conseq��ncias insidiosas. Um �nico humano sozinho - Hitler, por exemplo - � capaz de causar maior mal do que todos n�s juntos.
Aqui, no distante Brazil, temos um exemplo claro das conseq��ncias de um alicerce prec�rio para a constru��o de uma P�tria auto-suficiente. Com a independ�ncia, a Rep�blica mal constitu�da foi dominada por uma elite coronelista; depois, subiu ao poder Get�lio Vargas, com seu paternalismo populista e falacioso; enfim, um ditador, quase igual aos generais p�s-1964, que tamb�m inseriu um uma total repress�o social, cultural e educacional no pa�s. A partir dos anos 80, tem estado na moda o desnudamento, pela m�dia, das corrup��es do poder. A internet, o neoliberalismo e a globaliza��o s�o quest�es atuais. D�vida Externa, meio-ambiente, fome, ONGs, lei suprema, burguesia, transforma��es s�cio-econ�micas, novas for�as no poder, choques entre a direita e esquerda, neoimperialismo e limita��es de poder. Os pol�ticos em geral s�o verdadeiros artistas da falsidade, e dependendo das circunst�ncias que desconfio serem de certa forma casuais, recebem aplausos imerecidos um belo saldo de vaias merecidas. Tenho total avers�o a pol�ticos como Maluf e uma certa simpatia pelo Lula, apesar do seu governo p�fio, at� o momento. Enfim, tenho uma "simpatia" por partidos que tem uma ideologia socialista. A bandeira comunista j� tem uma das cores que mais adoro que � o vermelho... voc� podem imaginar porqu�. Mas, ao que tudo indica, o futuro ser� negro.
N�o, isto � um tanto frio, mesmo para uma n�o-morta.
Vou terminar estes momentos que passamos juntos falando de coisas mais agrad�veis: Curtindo com a Keila. Uma das minhas grandes amigas �: Patty, a Estranha, que acredita ter sido abduzida por al�en�genas mal�volos, como naquele conto de H. P. Lovecraft, 'A Cor que Veio do C�u'. Seu mestre, o obl�quo e ub�quo D�dalo Vandalbrain. Cerilla Torqatta, de quem falarei noutra ocasi�o - ela se considera uma esp�cie de 'Baobhan Sith' (buh-van she), ou seja, uma fada dem�nio escoc�sa (embora ela tenha nascido num planta��o de batatas na B�lgica), que aparece como uma jovem mulher e dan�ar� com o homem que achar at� que o mesmo se esgote, para depois se alimentar dele. Pode ser morta por ferro frio. Ou mesmo do lacaio de Cerilla, o repelente e submisso e trai�oeiro Balthasar Klossowskyi de Rolla, o conde Balthus. Este, por sua vez, considera-se um dru�dico Dearg-Due, seres que t�m que ser mortos sendo constru�do um monte de pedras sobre suas sepulturas.
J� tenho at� mesmo um servo, o pobre e repelente Duplyssey Goldmann, uma esp�cie de rato-homem de meia idade. Est� sempre ao meu redor, ou jazendo por ali, como algo extra�do de um pesadelo escabroso. A l�ngua encolhida a um canto, como uma coisa morta. Os intestinos quentes e cheios, o est�mago em c�imbras.
Mas tamb�m temos inimigos, como o terr�vel Zoltrix Szoltrixzollfurd�, uma ovelha negra entre os Cavaleiros Templares. Ele tem dedicado sua vida - e suas n�o desprez�veis habilidades - a exterminar nossa ra�a. � um nobre prop�sito? N�o cabe a mim avaliar. Sei apenas que sua esposa e sua filha foram estripadas por Springheel Hallyburlingame, um de nossos colegas da Europa Central, v�tima de um acesso incontrol�vel da fome que conhe�o bem. Nem todos de n�s temos a mesma classe, a fineza dos Grandes Mestres.
E assim vou vivendo. �s vezes penso que tudo isto � apenas um mau sonho. Mas, por hora, � a minha realidade.
Percebo, no entanto, que � in�til fugir do assunto. 'E quanto � minha 'fome'?', talvez voc� perguntem. Bem... por hora eu a tenho aplacado razoavelmente bem, sem causar grande preju�zo a nenhum dos meus antigos irm�os da esp�cie humana. Ora, talvez eu esteja causando um pequeno desequil�brio no ecossistema dos bosques, p�ntanos, cemit�rios e inferninhos que costumo frequentar. Dentro dos maiores bueiros da Cidade h� belos arranjos de samambaias. O que eu quero dizer � que, por enquanto, pequenos animais silvestres, como esquilos, ratos, l�mures e as suculentas marmotas. At� mesmo aves de asas quebradas, os delicados insetos e os macios e nutritivos gusanos foram uma grata surpresa para mim.
Por enquanto. Terei eu esquecido de dizer que sou de fato uma bela e fornida jovem?. Por isso, eu n�o sei que pensamentos crist�os ou evang�licos passariam pela sua cabe�a, se voc� cruzasse comigo numa destas noites insones (tampouco sei o que passaria na minha cabe�a). Afinal, eu n�o conhe�o voc� - E, pensando bem, eu n�o quero conhecer. Provavelmente nunca nos encontraremos. Mas o tempo passa de uma forma diferente para mim; esperam-me muitos destes s�culos tediosos que voc�s constr�em com tanto orgulho. Assim, talvez um dia eu encontre um de seus filhos, ou seus netos. Ou mesmo seus bisnetos. Lester acredita que compartilho da sua predile��o por criancinhas. Ah, suas tenras carnes s�o doces e o que corre em suas veias � um tanto quanto espesso - mas suave, e tem um gosto limoso, �s vezes ligeiramente perfumado.
Eu as matarei suavemente, e com Amor. Am�m!


Saint Andr�, outubro/novembro de 2003


Textos: D�dalo Vandalbrain(http://geocities.yahoo.com.br/dedalovb)/ Keila
Refer�ncias: The Gerald�s Game, A Hora do Vampiro, The Tommyknockers, O Cemit�rio e Eclipse Total, de Stephen King, Dr�cula, de Bram Stocker. Entrevista com o Vampiro, de Anne Rice. The Amityville Horror, de Jay Andon. Mujeres al borde de un ataque de Nervios, de Pedro Almodovar.


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