DEFENSORES DA TORRE

Era uma vez um reino que fazia fronteira com as temidas Terras Selvagens. O rei, com medo de um ataque dos Orcs que viviam naquelas terras, ordenou que fosse construída uma grande linha de torres. Muitas tropas guarneceram as torres para defender sua terra natal.

No entanto, anos se passaram sem sequer um Orc aparecer. Manter todos aqueles soldados prontos para a batalha era muito caro para o tesouro real. Conforme o tempo passou o exército da fronteira foi reduzido até restarem apenas um par de soldados por torre. Mas esses poucos soldados foram selecionados dentre dúzias de heróis. Na torre mais longínqua estavam os dois melhores homens de todo o exército. O primeiro era um habilidoso arqueiro que, com dois arcos mágicos, valia por três soldados. O outro era um guerreiro extremamente forte, capaz de vestir a armadura mais pesada e uma espada de duas mãos que matava qualquer um que chegasse perto com apenas um golpe.

Ambos sabiam dos riscos daquele trabalho e o medo deles virou realidade quando viram do topo da torre uma gigantesca infantaria Orc marchando em sua dieção. Sem a menor chance de lutar do lado de fora contra tamanha quantidade de inimigos e tendo honra suficiente para cumprir suas ordens, eles resolveram manter a posição e defender a torre, não importasse o tamanho do exército inimigo.

O Arqueiro posicionou seus dois arcos mágicos nas seteiras do topo. Estes arcos tinham a habilidade de disparar flechas mágicas contra os inimigos de seu dono. De suas costas ele pegou um arco composto e preparou uma flecha contra o primeiro Orc estúpido que entrasse em sua linha de visão. O Guerreiro carregou todas as pedras soltas e outras coisas pesadas que pudesse encontrar para o segundo andar da torre. Ele planejava despejar esses objetos nas cabeças dos que conseguissem entrar. Depois, ele desembainhou a espada e permaneceu parado, com uma respiração pesada, de frente para a única entrada.

Nos minutos seguintes os Orcs estavam perto. Eles estavam confiantes de que facilmente entrariam e acabariam com qualquer resistência. O Arqueiro preparou com esmero seu primeiro tiro. Disparou uma flecha certeira na cabeça do inimgo mais próximo. O Orc caiu morto. Com uma palavra mágica ele ordenou aos seus arcos que atacassem qualquer um dentro do alcance. Logo, os inimigos estavam receosos de se aproximarem com uma chuva mortal derrubando a todos. Afinal, eles pensavam que só tivessem dois defensores na torre, e essa dúvida foi suficiente para criar uma discussão dentre eles.

Depois de pensarem por longos minutos, os Orcs concordaram que atacar por diversas direções seria a melhor maneira de se aproximar. Essa simples estratégia os encorajou a prosseguir com o combate. Mais uma vez Arqueiro e suas armas encantadas começaram a disparar flechas mortais na multidão. Era impossível pará-los. Eles eram muitos para três arcos, mesmo atirando freneticamente.

Mas a infantaria não estava sozinha. Um Orc mago estava no meio deles. Vendo seus companheiros caírem ao seu redor, ele decidiu lançar uma bola de fogo para queimar os arcos, mesmo que esta não atingisse os supostos arqueiros. Todos envolta do mago puderam ouvir palavras arcanas sendo ditas e viram uma imensa bola de fogo sendo criada em sua mão direita. Então, balançando todo o corpo, ele lançou o feitiço contra as seteiras. O Arqueiro foi jogado para trás no impacto da bola de fogo contra o muro de pedra. Ao se levantar, todo o seu tronco estava chamuscado e seus dois arcos pegando fogo no chão. Não havia nada mais que ele pudesse fazer a não ser descer as escadas e defender a entrada.

O Arqueiro permaneceu no segundo andar com uma boa vista da porta. Em frente dela estava o Guerreiro, preparado para mutilar todo o exército inimigo. Finalmente, após chutar e usar pesados machados, os Orcs abriram seu caminho para o interior da torre. A entrada era suficientemente larga para duas pessoas passarem ao mesmo tempo. Mas os dois primeiros a entrar caíram mortos assim que puseram seus pés imundos no chão da torre. O Orc da esquerda, que era o maior, teve o peito perfurado pela espada do Guerreiro. Já o soldado da direita, não mais sortudo que seu companheiro, caiu para trás com uma flecha atravessada na garganta. Balançando a espada de duas mãos, o Guerreiro matou mais um soldado da segunda dupla que entrava enquanto que o Arqueiro preparava outra flecha.

Logo mais uma dupla entrava e então haviam três Orcs no primeiro andar. Ao subir a velha escada de madeira que levava para o segundo andar, o Guerreiro foi ferido no ombro esquerdo por uma lança, enquanto aparava um ataque frontal de um grande machado do outro Orc. A esta altura o Arqueiro estava pronto para atirar novamente. Ele escolheu um dos maiores inimigos e lançou sua flecha nele, mas a armadura era tão espessa que o invasor nem sentiu a estocada.

O primeiro andar estava tomado de inimigos. O Guerreiro continuava lutando no meio da escada espiralada e o Arqueiro recarregava sua arma. Não havia esperanças no coração dos defensores. Então, num ato desesperado, o Guerreiro saltou para trás e bateu com toda sua força no degrau em que estava. Seu plano havia dado certo, os Orcs caíram junto com os destroços da escada de volta no primeiro andar.

Mesmo com o ombro esquerdo sangrando, o Guerreiro começou a arremessar pedras em seus inimigos, forçando-os a sair correndo da torre. No final, mais um corpo estava estirado no chão por uma grande pedra que o atingira na cabeça.

Os defensores, tendo então tempo para recuperar o fôlego, podiam ouvir os Orcs do lado de fora planejando o próximo ataque. Nada que os invasores pudessem pensar daria certo: a torre era muito alta para escalar, suas pedras eram lisas e muito bem encaixadas para que se pudesse pensar em demolição. Mas Arqueiro e Guerreiro estavam presos do lado de dentro, esperando. Por uma janela aberta, Arqueiro viu os Orcs desaparecerem na escuridão da noite. Alguns minutos depois, podia-se escutar barulho vindo do bosque que ficava nas proximidades. Do topo, eles viram os Orcs voltarem com grandes tochas acessas. Não havia escapatória.

Num gesto rápido o Arqueiro pegou uma corda e disse a seu parceiro para descer. Era a única chance deles. O Guerreiro concordou tão rápido assim como começou a descer. Mas os Orcs não eram estúpidos, pelo menos um deles. Um pequeno soldado havia ficado escondido no escuro vigiando a torre e agora gritava dando o alerta.

Chegando ao chão furiosamente, o Guerreiro correu na direção da sentinela. A alma dele jamais descansaria em paz sabendo que havia perecido por causa de um aleta Orc! O pequeno soldado, vendo o humano babando de raiva, gritando e correndo em sua direção, ficou tão assustado que disparou na direção de onde estava o cavalo do mago. Seguido pelo Arqueiro, o Guerreiro e o desesperado Orc correram rápido o suficiente para ficar a uma distância segura do exército.

Logo, o soldado inimigo havia alcançado o cavalo. Montando num pulo ele tomou as rédeas e começou a galopar. Os humanos, sem fôlego, sabiam que eles só tinham uma chance: uma flechada certeira. Clamando por todos os nomes dos deuses do bem que ele podia se lembrar, Arqueiro preparou o tiro que salvaria a vida deles. Nesse momento eles podiam ouvir o trovão que era uma centena de Orcs correndo em sua direção. Ele relaxou o pescoço e fez sua mira certeira, direto nas costas do pequeno Orc.

Com essa cena abençoada, os defensores correram aliviados até o cavalo. Guerreiro estava tão alegre que só conseguiu rir sarcasticamente da cara do apavorado Orc, poupando sua vida. Então gargalhando e gritando coisas bem comuns numa hora dessas, Guerreiro e Arqueiro sobreviveram para contar sua aventura, galopando para bem longe daquela torre.

 

Conto escrito por Vitor Coelho. Envie sua opinião para: [email protected]

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