À Luz de Luna

Eu me sentia cheio, como se algo quisesse saltar de dentro de mim. A casa estava silenciosa, a rua também. Meu corpo doía, e eu sabia o que iria acontecer. Tinha acontecido antes, a lua me chamava, o frio do inverno dava lugar a um estranho calor, um calor que vinha de dentro de mim... um calor de Fúria.

Já tinha ouvido falar sobre eles. Na televisão. Não imaginava que isso fosse verdade, e só queria viver a minha vida tranqüilamente, vendo televisão à noite, dormindo tarde e trabalhando o dia todo. Mas não podia mais. Algo de bizarro e irreal aconteceu comigo, e dali em diante minha vida mudou completamente. Para que, eu não sei. Mas quase nada do que eu era restou em mim. Eu me descobri novamente, nasci para a lua, troquei meu nome, adotei uma luta. Tudo antes era só uma fachada. Agora eu sou forte, não só no meu corpo, mas no meu coração. E isso é o que importa.

Meu nome é Fábio. Esqueça o sobrenome. Eu sou um Lobisomem.

 

Os fatos mais marcantes começaram numa noite de inverno. Eu estava vendo televisão e de repente senti uma forte dor de barriga. Como eu morava sozinho, não havia ninguém por perto. Fiquei me contorcendo por um bom tempo no sofá, achando que era apendicite ou diarréia, e que provavelmente morreria ali mesmo. Mas a dor não cessou. Já era tarde, e devo ter acordado alguém quando gritei pela primeira vez. Fechava os olhos, e na minha frente eu sentia presenças estranhas, ventos frios, via cores brilhantes. Imagens de épocas esquecidas, de guerras, de dor, felicidade e abundância. Vi a minha vida e tive vergonha de ser uma pessoa indiferente.

Foi quando eu olhei para a rua e vi a lua cheia, vigorosa, me chamando. Gritei novamente, mas dessa vez pareceu um uivo. Muito alto, senti orgulho. Senti calor. Senti que tudo que eu era acabava ali.

Aí a primeira transformação começou. Começaram a nascer pelos em todo meu corpo, os dentes cresceram, todas aquelas coisas que você sabe que acontecem quando uma pessoa vira um lobisomem. Só que havia algo de diferente: eu cresci muito mais que eu achava que cresceria um lobisomem: batia a cabeça no teto, minha maça muscular cresceu muito, e o meu rosto era o rosto de um lobo. Era o lado selvagem, o incontrolável, puro, o instinto, o destino.

Depois disso, não me lembrei de nada. Acordei na minha cama, vestido, com pijama e tudo. Respirei aliviado: foi só um sonho. Olhei em volta e tudo estava normal, tudo no lugar, nenhum pêlo no carpete e nenhum corpo de uma garota virgem devorada na sala. Tomei café e toquei minha vida para frente.

Só que durante o dia, eu fiquei completamente distraído. Na gráfica onde eu trabalhava, errei o serviço umas três vezes seguidas. Fui xingado, mas não conseguia esquecer o sonho. Pensava sobre a minha vida, sobre o que eu faria depois. Eu já estava com quase trinta anos e não tinha feito nada de útil. Tinha os meus amigos, é claro, jogava futebol ou ia no bar com eles de vez em quando. Visitava a minha família, uma vez a cada século, é verdade, mas eu visitava. Mas nada mais do que isso.

Passaram-se mais duas semanas, e os sonhos continuavam. Cheguei a um ponto onde fiquei face a face com a loucura, sem saber o que era verdade ou sonho. Me olhava no espelho várias vezes durante o dia pra verse não tinha me transformado, e nada. Respondia perguntas idiotas com rosnados, e ficava cada vez mais quieto. Até que um dia, resolvi ir embora, saí da gráfica e fui pra casa. Chegando lá, dormi como uma criança.

Meu sonho foi cercado de anjos, monstros e os maiores delírios que já tive. Me vi salvando o mundo, me matando, sorrindo, tendo uma vida normal e outras mil que eu não entendi, tudo ao mesmo tempo. As coisas corriam naturais, como se fossem verdade. Acordei assustado, suado.

Tomei um copo d’água no escuro da cozinha, iluminada fracamente pela gelada luz da geladeira. Olhei pela janela aberta da sala. Dava pra ver a cidade, com algumas luzes acesas, e outras tantas apagadas, pessoas dormindo em suas camas. Por que tudo aquilo? O que tinha levado o ser humano a esquecer tudo de instintivo, a suprimir tudo que não poderia ser controlado? Qual o caminho que tinha levado à domesticação do bicho-homem? Aquele que se esconde bem lá no fundo de nossos seres, e se revela quando nos abalamos e deixamos de lado as barreiras que colocamos no nosso inconsciente? A mãe que salva o filho de um perigo iminente, o homem que espanca outro quando está bravo, o amigo que se coloca na frente dos outros, tudo que nos faz perder o controle consciente e nos deixar levar por um "sono" instintivo, do qual acordamos depois que passou o perigo? Pouco importava se haviam chamado de efeito da adrenalina, ou essas baboseiras da ciência. Ninguém parou pra pensar: por quê?

Esse pensamentos me assustaram. Eu estava entendendo minha parte animal, como se ela quisesse sair de dentro de mim, como se eu estivesse me transformando também dentro da minha cabeça. Resolvi ir dormir, no dia seguinte eu falaria depois do trabalho com um amigo meu que trabalhava num hospital psiquiátrico. Eu o conhecia bem, mas fazia tempo que não lhe via. Talvez eu pudesse contar tudo para ele, talvez não fosse seguro. A essa altura, o que era seguro? Meus pensamentos me atormentaram tanto naquela noite, porque eu não costumava pensar assim, que achei tê-los ouvido em voz alta. Resolvi dormir mais rápido ainda, antes que ficasse pior.

 

- Fábio, o que exatamente você está querendo dizer com isso tudo?

- Não sei, Milton, acho que eu estou ficando louco, tendo visões, agindo como um animal, sei lá. Preciso de ajuda, talvez um Gardenal.

- Não, calma... não vamos ser tão precipitados, me conta essa história desde o início.

O Fábio sempre foi um cara legal. No colégio, foi um dos meus melhores amigos, e me conhecia há muito tempo. Era um cara sério e direito, muito racional. Era de se esperar que seguisse a carreira de psiquiatra.

Eu havia ligado para ele pela manhã, bem cedo, e ele disse que estava com um tempo livre naquela mesma hora. Eu fui lá rapidamente e ele me recebeu no seu escritório. Ele sorria, estava feliz em me ver depois de tantos anos. A última vez tinha sido na sua formatura.

Contei toda história, desde o início. Ele parecia espantado. Fez várias perguntas sem sentido, sobre minha família, minhas relações amorosas, meus atuais amigos, meu trabalho. Perguntou se eu tinha algum vício ou algo parecido, eu disse que não. Perguntou até se não era nenhuma brincadeira. Depois que eu terminei de falar, após uma hora e meia (eu estava cuidando no relógio da parede), ele ficou calado, olhando para o que tinha anotado.

Olhou para mim. Para os papéis. Foi aí que aconteceu algo inesperado, até por mim.

Milton largou sua caneta, que estava falhando, e pegou outra na gaveta. Esta última era prateada. Parecia prata verdadeira. Eu comecei a tremer e a suar. Fiquei ofegante.

- O que foi, Fábio?

Eu não respondi. Olhei aquela caneta na mão dele e fiquei mais nervoso. Eu tinha certeza que era prata. Certeza absoluta. Tentei falar algo, mas só consegui rosnar. Milton levantou, e veio em minha direção, com a caneta na mão. Eu perdi o controle e levantei da cadeira. Ele parou. Quando avançou e novo, eu o soquei e fui para o outro canto da sala. Eu me encolhi e ficava repetindo:

Só lembro depois do barulho da porta abrindo, dos enfermeiros entrando, do Milton com o nariz sangrando, e a injeção. Apaguei.

Quando acordei eu estava completamente tonto e desnorteado. Levei algum tempo até me lembrar onde estava e o que tinha acontecido. Estava com um pouco de frio.

A sala era pequena e vazia. Eu estava deitado em uma cama encostada na parede contrária à da grande porta de ferro. As paredes eram brancas e com mofo nos cantos. A sala cheirava a hospital. Me prenderam ali depois de ter atacado Milton. Pensei muito tempo lá, parado, sentado na cama. Não conseguia entender nem me lembrar do porquê do ataque. Vi que a luz estava acesa e que era noite, pela janela com grades. Lá fora, estava o pátio da clínica, com grama, árvores e alguns canteiros de flores. Eu pensei em bater na porta e chamar alguém, quando ouvi algo.

Um sussurro, como se fosse o vento. Mas não havia vento.

Uma voz fraca.

Chamando pelo meu nome.

Meu coração bateu acelerado, eu estava com medo. Ninguém ia me ouvir, era a impressão que eu tinha. Não sabia o que era aquilo, mas senti que estava querendo falar comigo. E não havia ninguém além de mim na sala.

Subitamente, num dos cantos, uma sombra se formou. Meus músculos ficaram tensos e eu quis gritar, mas não consegui. Lembrei das coisas que estavam me preocupando, e tive mais certeza de que eu estava louco.

A sombra tomou forma, e parecia extremamente real. Era uma mulher, com cabelos loiros e longos até a altura dos seios, que por sua vez estavam cobertos por uma seda fina cor de terra e quase transparente. Ela era linda. Seus olhos eram azuis e profundos, sua pele era cor de leite, muito pálida, mas linda. Suas pernas também estavam cobertas pela seda, mas muito pouco se via do seu corpo: por cima de tudo ela vestia um manto leve verde, com ornamentos dourados nas bordas e preso por um broche perto do pescoço. Ela era alta e tinha um pequeno sorriso no rosto. Sua imagem me deixou tranqüilo, e aos poucos o medo me deixou, senti uma pequena paz, como se eu a conhecesse a muito tempo. Mas eu continuava preocupado.

- Quem é você? – balbuciei.

- Alguém que te conhece muito bem. – ela respondeu, vagarosamente.

A voz dela era grossa e autoritária, mesmo que falada com suavidade. Lembrava algumas cantoras que eu conhecia.

- Fábio, eu vim te ajudar.

- Me explique quem é você. – agora eu já estava mais seguro, pois cheguei a conclusão de que eu não tinha mais nenhuma saída.

- Eu sou um Espírito- das- Lágrimas. Designado para cuidar de você desde o seu nascimento, até a hora certa.

- Que hora certa?

- Agora.

- Me explique melhor. – continuei.

- Você acha que está ficando louco, não é? Fique tranqüilo, você está bem.

- Então eu sou mesmo um lobisomem?

- Sim. Mas ainda tem muito de aprender sobre isso.

- Você vai me ensinar?

- Não, disse ela. Eu só deveria te acompanhar até a hora de sua primeira transformação, depois, eu avisaria os outros que você está pronto.

- Pra quê? Perguntei, assustado.

- Está na hora.

- Eu vou morrer?

- Não, Fábio. Teus irmão lobisomens virão te buscar para que você seja iniciado nas tradições e aprenda sobre seu povo, e aí começara a cumprir seus deveres.

- Existem mais lobisomens! – ao dizer isso, aceitei o fato de que se eu não estivesse louco, então já estaria completamente entregue aos meus delírios.

- Vou lhe explicar desde o começo - disse ela - Você é um lobisomem, um membro do povo criado pelo espírito da terra, a grande mãe, Gaia, para protegê-la da devastação que o ser humano é capaz de fazer. Assim sendo, esse povo se reúne em tribos desde o início dos tempos, e faz de tudo para preservar o planeta. Resumindo, um dos membros da sua tribo virá te buscar para te ensinar a ser um lobisomem. É tudo que eu posso e sei te dizer agora.

- Eu...eu...

Eu não tinha mais palavras e minha cabeça fervilhava. Então era isso. Estava tudo respondido.

- E agora? – disse eu- o que devo fazer?

- Espere o seu irmão chegar.

- Não posso.

- O quê? – surpreendeu-se o espírito.

- Eu vou sair daqui agora, Não me pergunte por quê, mas sinto minha força e minha alma crescendo. Busquei fora de mim o que na verdade estava comigo desde que eu nasci. Não nego mais a minha natureza, e agora tudo parece claro. Sei que não estou louco, sei que não há nada errado. Era só uma verdade que não podia ser revelada antes. E tem mais uma coisa...

- O que foi, Fábio?

- Obrigado por me proteger.

Neste instante, uma voz fora da sala gritava:

- Ei!! Com quem você está falando? – era o enfermeiro que começava a abrir a porta, provavelmente com uma seringa de tranqüilizante na mão.

Olhei para o canto da sala. Nenhum sinal do Espírito-das-Lágrimas. Eu passei por uma transformação e virei o lobisomem que agora eu sabia que era. Segurei nas grades da janela, olhando para minhas mãos grandes, peludas e com garras. Arranquei as grades e quebrei o vidro, numa velocidade incrível, logo após saindo correndo pelo quintal e me embrenhando pelas árvores do lado de fora.

 

Bernardo José de Moraes
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