C  A  S  T  E  L  O      D  A 

Uma boa lição - Parte III (final)

Mal saí do castigo, ainda com os joelhos ardendo, tive de por um avental branco e amarelo. Tia Célia teve uma nova conversa comigo antes de me dar as tarefas. Disse que eu tivera um comportamento exemplar, tanto à noite como no castigo, de manhã. Mas que isso apenas provava que ela estava no caminho correto, e portanto eu deveria estar preparado para agüentar a continuação. De modo calmo e pausado - abandonando por instantes o papel de tia brava, pois era mais como um papel que ela "representava" - contou que falara novamente com meus pais, e estava a par de como eu era indisciplinado - até preguiçoso - em casa, além das minhas manias para comer, e já combinara com eles como eu iria ficar (pouco depois eu entenderia o que isto significava). Por fim, perguntou se eu achava que era capaz de melhorar sozinho, sem disciplina, e como eu achava que ela deveria agir. Era parte do nosso "jogo".

Respondi que não, não era capaz de me autodisciplinar, e precisava da ajuda dela. Eu estava envergonhado, mas magnetizado. Pedi que continuasse como quisesse.

 - Bem - começou ela - nesse caso, vamos fazer algumas mudanças. Além de enjoado para comer, sua mãe contou como você nunca a ajuda. E, infelizmente, é preciso fazer algo de que você se lembre sempre. Lembra-se do que lhe disse sobre a empregada?

 - Sim. Ela está de folga e a senhora vai me por para ajudá-la. Mas eu não sei fazer serviço de casa...

 - HA! HA! HA! É o que vamos ver. Parece que até ontem você também não sabia comer queijo... e acabou de comer um inteiro, e muito bem... Você aprende rápido, e eu sou boa professora... não acha?

Entendi como ela jogava. Ao invés de simplesmente me bater ou algo assim, ela se empenhava em me convencer da necessidade de ser castigado, e aceitar sua disciplina assim como aceitava sua afeição. Em nenhum momento ela me forçava realmente; antes, convencia-me a aceitar seu comando. Embora ela não fosse uma dominadora típica, sem dúvida ela conhecia a fundo como fazê-lo. Certamente ela se entusiasmava em exercer seu papel em me corrigir, mas (e acho que ela sabia) eu também sentia-me estimulado. E, assim, só pude concordar e perguntar o que ela queria.

 - Você concorda que é muito mimado? Que precisa aprender a ser mais humilde? Que um homem não deve ser assim?

- Sim, tia, eu concordo. Eu quero melhorar - respondi, sabendo que assinava minha pena, mas que seria merecida. Eu sabia que era culpado por meu comportamento, minha desatenção com as pessoas. 

Tia Célia então explicou que, conforme o combinado, eu seria seu ajudante até o final da semana, e portanto até lá eu teria de ser tratado como se fosse um empregado, e que ela seria dura comigo. Durante os próximos dias, eu estava proibido de ligar para os meus pais, e, durante o horário de trabalho - isto é, das 7 até as 6 da tarde, eu teria de usar o avental ou outra roupa para trabalho doméstico  e estaria proibido de tratá-la por "tia" - deveria chamá-la de dona Célia. Ela explicou que não me daria tarefas pesadas, mas eu iria ajudá-la na limpeza da casa, na cozinha, na queijaria, e que marcaria um tempo certo para cada tarefa. Se eu estourasse o tempo, ou não fizesse o serviço direito, teria um "encontro" em seguida com a palmatória ou a vara de marmelo.

 - Quanto à comida - continuou - nem preciso falar. A partir de hoje você come O QUE e QUANTO eu mandar. Afinal - disse pegando a palmatória com a mão direita e estalando-a de leve na esquerda - nós dois já sabemos como abrir sua boca, não é mesmo?

E assim foi. Acabada nossa conversa, tive de arrumar meu quarto, o dela, o de meus primos, e ajudá-la na cozinha. E durante aquela semana precisei ir aprendendo a me comportar, fazer o serviço da casa (sempre de avental, que eu mesmo tinha de lavar depois), e - num toque de ironia - a fazer os mesmos queijos que não gostava de comer. Naturalmente, não escapei de alguns bons bolos de palmatória, além de umas duas ou três sessões com a vara de marmelo, que ardia como um chicote - talvez mais. À noite, sempre conversávamos sobre meu comportamento durante o dia, e só uma delas precisou acabar novamente com a escova de banho "cantando" em meu traseiro, só que bem mais severamente que da outra vez.

Terminada a semana, não precisei mais ficar como ajudante nem usar o avental o dia todo. E, até o fim das férias, fui um modelo de comportamento e obediência, mas não a ponto de escapar completamente de um ou outro castigo - sempre severo. Infelizmente, não aprendi todas as lições: até hoje mantenho hábitos alimentares um tanto irregulares, e não gosto muito de frutas - e nem de queijo. Mas é claro que todas as vezes que voltei lá nunca mais recusei comer nada...

Sim, voltei lá várias vezes depois disso - e, por incrível que pareça, quase nunca fui castigado. Acho que ela me treinou bem. Na verdade, somos muito amigos até hoje, embora nos vejamos muito pouco. Não acho que ela saiba sobre minhas fantasias fetichistas (e o eventual papel que teve para eu descobri-las, o que de fato só aconteceu muitos anos depois), mas não estranharia se ela desconfiasse. Aliás, acho que eu não ficaria muito surpreso se descobrisse que meu tio às vezes precisava sentar devagar... para aprender a não desobedecer sua Rainha.
 

FIM

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