Lá o sol se esconde no mar, ao contrário do resto do país. O pôr-do-sol é um programa que não se esquece, nem se pode adiar. À noite, pode-se dançar no Forró, ouvir rock ou reggae em outros bares, ou deitar numa duna e ficar olhando as estrelas. E são milhares delas que guardam o sono dos pescadores, ou o romance dos turistas. Isso é Jericoacoara.
Perdida no meio das dunas, a 317 km de Fortaleza, é considerada uma das mais belas praias do mundo. Representa a beleza da natureza se sobrepondo a mão do homem: por causa de suas montanhas de areia, só se chega a Jeri em veículos de tração nas quatro rodas, geralmente uma “jardineira”, tomada em Gijoca, mais próxima civilização, a uma hora de viagem. Também por causa das dunas, as casas da vila correm o risco de desaparecer soterradas em algum tempo (quem conhece a vontade do vento?). É uma possibilidade remota, mas que faz o turismo ficar estacionado nas pequenas e simples pousadas da vila, além das casas de pescadores que podem servir de pernoite.
Há bem pouco tempo, a luz elétrica chegou
na vila. Antes, o máximo de iluminação eram os lampiões
ou, em casos extremos, geradores, que faziam funcionar as geladeiras e,
em algumas pousadas, a televisão. Mas é nessa escuridão
que a lua se faz mais vaidosa e se mostra mais bela (chega a ser mais clara
que a luz artificial), inspirando os apaixonados.
Eles vêm de todos os
lugares
As pessoas conhecem Jeri e ficam. Ficam apaixonadas
e voltam para o conforto de suas casas com um brilho diferente nos olhos.
Outras simplesmente ficam. São muitas as pessoas que largaram tudo
e mudaram-se para Jericoacoara, para aproveitar a tranqüilidade que
a vila pode oferecer. Mas todos pegam no pesado e trabalham bastante.
Um exemplo é Carla Russo, cearense que
já morou em vários lugares do país e agora pousou
em Jeri. Alta e bonita, Carla possui um restaurante na “avenida” principal
da “cidade”.
A goiana Jaqueline emprestou seu sotaque à
vila, indo lá morar sozinha. “Eu vim por mim, só por mim”,
orgulha-se Jaque. Já não está mais sozinha, arrumou
um “cônjuge”. Mas ela admite um pouco de saudade dos seus amigos
do mundo real. “Toda vez olho a jardineira chegando, e fico olhando pra
ver se aterriza algum conhecido”, diz. Mas nem de longe pensa em arrependimento.
Os moradores nativos também têm
muitas histórias para contar. Ana Célia, nos seus dez anos
de idade, conta que tem medo de andar sozinha na escuridão, revelando
que há um lobisomem à solta. Alguém já viu?
“Já, um rapaz daquela casa já foi perseguido por um”, conta,
assustada, acompanhada pelo sorriso da mãe, que diz, não
muito convencida, que isso não existe.
Mas o que a menina gosta mesmo é de ver
televisão. A única acessível para os nativos é
compartilhada por muitas pessoas, que não perdem a hora da novela.
Mal sabem eles que a novela de suas vidas, mesmo com toda a simplicidade
de mar e sol, é muito mais bonita que a da televisão. As
histórias de lobisomem, passadas de boca a boca, são muito
mais interessantes.
| Como chegar |
Dois ônibus de linha saem todo dia de Fortaleza,
um pela manhã e outro à noite. O mais indicado é ir
à noite, pois de dia o calor é quase insuportável,
além do “pinga-pinga” em quase todo o trajeto, e das pessoas em
pé no meio do ônibus, cujo destino é a cidade de Gijoca.
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