O Guarani
José de Alencar Resenha
 
Análise do Livro
 
Anglo - Bragança Paulista

Aline Mian Soares
Carolina Valgañón
Karina Fernandes Ferreiro
Natalia Arantes
Nataly Horner Hoe de Castro

Feito em 30 de março de 2000

    O Guarani é um romance épico, que pode ser tanto classificado como indianista quanto histórico. Inicialmente foi publicado sob formas de folhetins no Diário do Rio de Janeiro , em 1857. A aceitação popular foi tão grande que muitas pessoas, excitadas ficavam à esquina, esperando pelo vendedor de jornais Os estudantes Paulistas acompanhavam também as aventuras de Peri e Ceci.

Resumo
Personagens
Narrador
Estilo Literário
Espaço, tempo e linguagem
Autor
Bibliografia

A) Resumo do enredo

    O livro é dividido em quatro partes: "Os Aventureiros", "Peri", "Os Aimorés" e "A Catástrofe".

    O autor inicia descrevendo o cenário situado na Serra dos Órgãos, às margens do Rio Paquequer, e apresenta os personagens, com D. Antônio já estabelecido no Brasil D. Antônio está receoso de um ataque dos aimorés, pois seu filho D. Diogo matou acidentalmente a mais bela índia desta terrível tribo.

    Os aventureiros chegam de uma expedição ao Rio de Janeiro, onde foram buscar suprimentos. Álvaro, ansioso por rever Cecília, retorna alguns dias antes do previsto, o que atiça o ciúme de Loredano. Para demonstrar seu amor por Cecília, Álvaro lhe dá um bracelete de pérolas, que ela recusa, deixando o rapaz muito triste. Isabel sofre silenciosamente ao ver as demonstrações de afeto entre Álvaro e Cecília.

    À noite, Cecília se sente aliviada ao ver que Peri está em sua cabana novamente, pois ele tinha ficado dias ausente (o que nunca fazia). O motivo disso lhe foi dito por Álvaro: Peri havia ido buscar uma onça para satisfazer à mais uma capricho seu. Nesta mesma noite, Álvaro, insistente, deposita o bracelete sobre a janela de Ceci, após arriscar sua vida sobre o precipício que ficava abaixo da janela de Ceci. Loredano, vendo tudo às escondidas, derruba o bracelete janela abaixo, que é mais tarde recuperado por Peri, num gesto de coragem e heroísmo.

    No dia seguinte, ao acompanhar Cecília e Isabel no banho de rio, Peri descobre o eminente ataque dos Aimorés e a trama de Loredano e seus comparsas contra D. Antônio e sua família . Peri se incumbe de eliminar os "inimigos brancos" e avisa ao fidalgo sobre o ataque dos índios. Sabendo disso, D. Antônio começa os preparativos para a batalha. No mesmo dia, Isabel, num momento de fraqueza , revela à Cecília o seu amor por Álvaro. Cecília, comovida com essa revelação, vê que o sentimento que Isabel nutre por Álvaro é muito maior que o seu, e para que ela se sinta melhor, dá o bracelete à Isabel, sem que ela soubesse que o bracelete havia sido presente de Álvaro. Durante um passeio, Cecília deixa Isabel e Álvaro à sós, e Álvaro, ao ver o bracelete em Isabel, pede uma explicação. Isabel, envergonhada, se vê obrigada a revelar o seu amor, deixando-o desconcertado e fazendo com que ele começasse a se sentir atraído pela moça.

    Loredano, decide não esperar mais. E achando oportuno o momento, planeja raptar Ceci e depois, incendiar a casa. Porém, Peri consegue impedi-lo à tempo. Revoltado por seu plano ter fracassado, Loredano incita uma rebelião entre os aventureiros, que estavam revoltados com a morte de dois de seus companheiros (comparsas de Loredano mortos por Peri). Nisso, os Aimorés atacam, e a casa fica sitiada. Dando um armistício à rebelião, os aventureiros decidem combater contra os Aimorés, para garantirem a própria sobrevivência.

    Numa tentativa de salvar sua senhora, que se sentia muito triste, Peri envenena as pipas de água e vinho que abasteciam os aventureiros revoltados, e parte sozinho para a margem do rio, onde os Aimorés estão acampados, com a intenção de para enfrentá-los, mesmo com as súplicas de Ceci para que ficasse. Se lançando numa luta suicida contra os Aimorés, Peri mata muitos oponentes e se deixa aprisionar pelo cacique, para ser morto e devorado pela tribo. No entanto, Álvaro e alguns aventureiros fiéis à D. Antônio aparecem no momento da execução, resgatando-o. A salvo na casa, Peri revela seu plano: ingerira um veneno indígena, e, quando fosse devorado pelos selvagens, mataria todos os aimorés, num gesto de abnegação à vida por Ceci, o que choca à todos.

    Em meio à esses acontecimentos, a verdadeira identidade de Loredano é descoberta, e seus aliados, indignados com essa heresia, se voltam contra ele e julgando-o, o condenam à morte na fogueira.

    Álvaro, durante esse período, aproxima-se e se apaixona-se cada vez mais por Isabel, provocando nele um conflito que o atormentava, entre sua paixão por ela e seu compromisso por Cecília, símbolo da beleza européia. Ao tentar buscar ajuda e mantimentos, ele é ferido pelos índios e todos acreditam que esteja morto. Isabel, ao vê-lo nesse estado, vence seu repúdio por Peri, e pede a ele para levar Álvaro para o seus quarto, e fecha o todo. Numa tentativa de suicídio, Isabel acende velas, para se matar sufocada. Quando está quase morrendo, Álvaro acorda, mas já é tarde demais: ele prefere morrer junto à sua amada. Assim, ambos morrem asfixiados, nos braços um do outro.

    D. Antônio, já sem recursos para resistir, numa tentativa desesperada para salvar Cecília, dá sonífero à ela, e batiza Peri. E assim, o índio cristão, num ato de bravura, atravessa o abismo por uma árvore que ele já tinha cortado, e carregando Ceci adormecida até uma canoa no rio, partem. Peri vê apenas a casa explodindo: D. Antônio, em um derradeiro ato de heroísmo, explode o paiol de pólvora que mantinha em sua fortificação, sacrificando a todos, mas matando também os Aimorés.

    Já longe de casa, Ceci desperta e é informada por Peri, que conduz a canoa, sobre os últimos acontecimentos. Passado o choque, Ceci decide ficar ao lado de seu herói, ao invés de ser levada para junto de seus parentes no Rio de Janeiro.

    Porém, uma terrível tempestade faz transborda o rio, inundando tudo. Para se salvarem, Peri, com Ceci nos ombros, sobe em uma alta palmeira. No entanto, a água sobe cada vez mais, e se inspirando no mito de Tamandaré ( equivalente ao Noé bíblico), Peri se enrosca nos cipós e com uma força sobre-humana, arranca a palmeira do solo, que flutua na correnteza em direção ao horizonte. Assim termina a narração:

    "Ela embebeu os olhos nos olhos de seu amigo, e lânguida reclinou a loura fronte.

    O hálito ardente de Peri bafejou-lhe a face. Fez-se no semblante da virgem um ninho da castos rubores e límpidos sorrisos: os lábios se abriram como as asas purpúreas de um beijo soltando o vôo.

    A palmeira, arrastada pela torrente impetuosa fugia...

    E sumiu-se no horizonte."

    Alencar deixa a sugestão de que o casal, quando baixasse as águas, são e salvos, formariam o povo brasileiro.

    A ação do livro leva à consumação do encontro de duas raças sob o signo da nobreza e do cristianismo: Peri é batizado para que possa salvar Cecília . A lenda de Tamandaré - o Noé indígena, como ressalta Alencar - pode ser tomada como o signo da fecundação da terra.

    B) Personagens

    Os personagens, extremamente idealizados (característica típica do Romantismo), dividem-se em dois grupos bem definidos no ponto de vista moral: os bons e os maus.

    Entre os bons, destacam-se:

    --Dom Antônio de Mariz: Fidalgo português que participou da fundação do Rio de Janeiro e possui uma vida dedicada à coroa portuguesa, razão pela qual mudou-se para o Brasil, onde construiu uma espécie de fortaleza nas Serras dos Órgãos tendo a seu serviço aventureiros que desbravavam as mata brasileiras, após o domínio espanhol em Portugal. Senhor estimado e respeitado por todos que estavam ao seus redor, definia-se como "chefe rigoroso para seus homens, porém um amigo leal para seus companheiros (...) senhor da casa e o pai de toda a família...", a qual ele considerava também os aventureiros como parte dela. Era um homem que valorizava acima de tudo, a honra, a lealdade e a religião.

    --Dona Lauriana: Esposa do fidalgo, é uma católica fervorosa e fanática, razão pela qual não gosta de Peri, considerando-o um gentio. Apesar de um tanto egoísta, tem um bom coração.

    --Cecília: Filha de D. Antônio, é uma menina meiga, alegre, graciosa, pura, infantil, inocente e mimada. Tem cabelos loiros e anelados, pele alva e olhos azuis. É uma personagem com um alto grau de idealização: segundo o autor, era a deusa que iluminava aquele pequeno mundo em que viviam; possuidora de uma beleza inigualável que encanta todos ao seu redor, especialmente três homens: Peri, Álvaro e Loredano, que ao longo da trama cometem grandes heroísmos pelo seu amor. Tinha afeições por Álvaro, mas nunca soube da paixão de Loredano.

    Muitas vezes, é chamada de "Ceci" pelo índio, que significa "doer, magoar"; isso porque num primeiro contato entre os dois, ela repelia Peri, devido à influência do fervor religioso de sua mãe. Aos poucos, esse preconceito é atenuado pelo pai fazendo com que se aproxime de Peri e tenha grande consideração por ele, mas sempre tentando convertê-lo ao catolicismo.

    Ela é a protagonista da história, junto a Peri, e representa as raízes portuguesas da nação brasileira.

    --Isabel: Filha ilegítima de D. Antônio com uma índia, que vive na casa como sua sobrinha. É a melhor amiga de Cecília e sente uma paixão arrebatadora por Álvaro. É um grande exemplo do Romantismo, pois essa personagem possui o heroísmo amoroso, desprovido de qualquer egoísmo, pois abre mão do objeto amado (Álvaro) em nome da felicidade dele e de Ceci. Ela representa a beleza brasileira.

    Devido à sua cor mestiça, suas origens indígenas e um passado um tanto obscuro, ela se sente desprezada pela família, refugiando-se em seu amor por Álvaro.

    Ao mesmo tempo que se sente desprezada pelos brancos, nutre um ódio por Peri, pois ele mostra essa origem indígena de que ela tem vergonha e tenta esconder, pois na verdade, ela gostaria de ser branca.

    --Álvaro: Jovem fidalgo e chefe dos aventureiros de D. Antônio, que o considerava como filho. Assim como este, tinha a honra e a lealdade como princípios fundamentais. Amava Cecília, e via-se obrigado, como um compromisso de honra, mantê-la como seu primeiro e último amor, sendo leal à ele, principalmente porque D. Antônio confiara lhe a mão de Cecília.

    --Peri: O outro protagonista do romance, simboliza as nossas raízes indígenas. Guerreiro chefe da tribo Goitacá, da nação Guarani, que apesar de sua aparência selvagem, mais se parece com os cavalheiros medievais, principalmente quanto à moral, idealizado nos modelos do Romantismo Europeu. Como herói, ele é o protótipo das perfeições, tais como a força, a beleza e a juventude, além da valentia. Ele abandona sua tribo após salvar Cecília, pois via nela a personificação da Virgem Maria, que aparecia constantemente em seus sonhos, após ver sua imagem numa igreja destruída. Devido à essa "santificação" de Cecília, ele a servia como escravo, protegendo-a e satisfazendo seus menores desejos. Sua dedicação por ela sobrepuja tudo. Ao abandonar a vida selvagem para viver com os brancos, lhe são transmitidos os fundamentos da cultura civilizada, caracterizando-o com um homem superior. É o símbolo da beleza e força indígena: "a pele cor de cobre, brilhava com reflexos dourados; cabelos pretos, tez lisa, os olhos grandes com os cantos erguidos para a fronte; boca forte e bem modelada, guarnecida de dentes alvos." Firme, flexível, forte, alto, corajoso, inteligente. Possui todas as qualidades imagináveis em um homem. Se em Cecília sua beleza e pureza são da mais alta idealização, em Peri é sua valentia, coragem e força.

    Na idealização negativa, encontram-se os aventureiros, que se caracterizam como gente grosseira, dada a ambição e a luxúria, todos submetidos à uma rígida disciplina militar imposta por D. Antônio. Embora todos apresentem um perfil semelhante, são divididos entre os que tomam o partido de D. Antônio, e os que seguem o arquivilão italiano Loredano, ex-frei Ângelo de Lucca, que durante o sacerdócio roubou de um moribundo um mapa de uma incrível mina de prata, e se apresentou à D. Antônio como um aventureiro, aguardando a melhor oportunidade para obter o tesouro. Durante esse tempo, ele se apaixona por Cecília, e esse desejo carnal somado à sua ambição o leva a planejar matar toda a família e os homens fiéis à Dom Antônio, poupando apenas a menina, que ele levaria consigo em busca das minas de prata.

    Ele e Álvaro odeiam-se mutuamente: Álvaro, devido ao seu coração nobre, repudia o italiano, pois vê nele um homem baixo e sem caráter, principalmente porque fica sabendo através de Peri de toda sua trama contra D. Antônio. Já Loredano o odeia pois sabe que ele ama Cecília, e a menina lhe dá atenção.

    Seus caracteres negativos são potencializados, compondo a figura mais diabólica da trama.

    Ainda nos personagens "do mal" está a tribo dos Aimorés. Eles são reduzidos à condição subumana de vida instintiva, que mais se assemelham com homens primitivos tendo eles "fisionomias sinistras, nas quais a braveza, a ignorância e os instintos tinham quase de todo apagado o cunho da raça humana", tal qual descreve o autor. O ideal romântico em Peri como herói não se aplica aos Aimorés, o que explica a caracterização diferenciada, embora contradigam a idealização indianista.

    C) Narrador

    O relato é feito em 3a. pessoa por um narrador onisciente, capaz de ver e saber tudo o que se passa no ambiente da narrativa, desde as cenas visíveis até os sentimentos e pensamentos mais profundos dos diversos personagens, incluindo o passado deles, dando uma alinearidade à narrativa, que acaba ajudando na compreensão da história, ficando mais fácil compreender os personagens e suas ações.

    D) Estilo literário

    O Guarani é um romance romântico, classificação feita através do reconhecimento e análise das características românticas abaixo:

    Patriotismo e nacionalismo: claramente histórico e indianista. O Guarani é histórico porque enquadrou-se no projeto de caracterizar a nossa história, pela reconstituição de fatos que marcaram a construção da nacionalidade brasileira, numa tentativa nacionalista e patriótica, principalmente devido à então recente independência do Brasil. Prova disso é o cunho histórico de alguns personagens, como Dom Antônio e sua família, que foram baseados em pessoas reais. De exemplo temos o indianismo que é facilmente detectável no livro, a começar pelo título. O nosso Romantismo foi buscar no índio o elemento definidor da particularidade brasileira, a marca nativista própria de nossa nacionalidade; mas o índio não se prestava a esse papel, era preciso idealizá-lo: as raças indígenas são exaltadas na sua cultura e costumes, línguas e valores, que podem ser vistos nas atitudes de Peri.

    A tendência geral da época de valorizar o passado nacional encontrou sua afirmação na figura do índio; da soma do índio nobre com o branco cavalheiro - resquício medieval- surge o "povo heróico", a "pátria amada". Como exemplo temos: "Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um índio na flor da idade.

    (.....)

    Nesse instante erguia a cabeça e fitava os olhos numa sebe de folhas que se elevava a vinte passos de distância, e se agitava imperceptivelmente.

    Ali, por entre a folhagem, distinguiam-se as ondulações felinas de um dorso negro, brilhante, marchetado de pardo;(...) Era uma onça enorme.

    O índio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco seco, não perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e serenidade que um homem contempla uma cena agradável: apenas a fixidade do olhar revelava um pensamento de defesa."

    "-Perí, disse ele, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o coração de um cavalheiro português. Tomo-vos a todos por testemunhas, que vistes um dia D. Antônio de Mariz apertar ao peito um inimigo de sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos.

    O fidalgo abriu os braços e deu em Peri o abraço fraternal consagrado pelos estilos da antiga cavalaria, da qual já naquele tempo apenas restavam vagas tradições."

    "Partindo na véspera, no momento em que começara a sentir os primeiros efeitos do veneno terrível que tomara, Peri ia cumprir a promessa que tinha feito a Cecília. Ia procurar a vida em um contraveneno infalível, cuja existência só era conhecida pelos velhos pajés da tribo e pelas mulheres que o auxiliavam nas suas preparações medicinais"

    Heroísmo forte e marcante, como também a nobreza dos sentimentos, presente na família Mariz e em Álvaro, mas principalmente em Peri, como conseqüência do indianismo, onde essa idealização heróica é tamanha que o romance se torna fantasioso demais.

    "Então, passou-se sobre esse vasto deserto de água e céu uma cena estupenda, heróica, sobre-humana: um espetáculo grandioso, uma sublime loucura.

    Peri alucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavam pelos ramos das árvores já cobertas de água e com esforça desesperado cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até as raízes.

    Três vezes os seus músculos de aço, estorcendo-se, inclinaram a haste robusta; e três vezes o seu corpo vergou, cedendo à retração violenta da árvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia marcado.

    Luta terrível ,espantosa, louca, desvairada (...), luta de força contra imobilidade.

    Houve um momento de repouso, em que o homem, concentrando todo o seu poder, estorceu-se de novo contra a árvore; o ímpeto foi terrível; e pareceu que o corpo ia espedaçar-se nessa distensão horrível.

    Ambos, árvore e homem, embalançaram-se no seio das águas: a haste oscilou, as raízes desprenderam-se da terra..."

    Predomínio da emoção e do sentimentalismo: Alencar supervaloriza os sentimentos, exalta o amor espiritualizado, motivador de toda a trama, e a pureza dos sentimentos; essa pureza supera todos os obstáculos gerados por diferenças sociais e raciais, como no caso de Ceci e Peri. Há também vários exageros passionais, como a morte em nome da felicidade da pessoa amada, presente em várias partes da história, que são vistas mais freqüentemente nas conversas de Peri com Cecília, adquirindo um tom poético, e principalmente, num tom mais dramático, a paixão de Isabel por Álvaro, que culmina com o suicídio de ambos. Em cada caso, apesar de ambos amores serem intensos e ilimitados, possuem algumas peculiaridades: no caso de Peri, é um amor que torna o bravo guerreiro em submisso e escravo, misto de fé e paixão, enquanto em Isabel, o amor é " seu senhor despótico e absoluto", fazendo com que ele governe todos os seus impulsos. A diferença é mais facilmente notada abaixo:

    "- Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciência, se eu te pedisse aquela nuvem?...

    E apontou para os brancos vapores que passavam ainda envolvidos nas sombras pálidas da noite.

    - Peri ia buscar.

    - A nuvem? perguntou a moça admirada.

    - Sim, a nuvem.

    Cecília pensou que o índio tinha perdido a cabeça; ele continuou:

    -Somente como a nuvem não é da terra e o homem não pode tocá-la, Peri morria e ia pedir ao Senhor do céu a nuvem para dar a Ceci."

    "- Meu Deus!.... exclamou ele; por que expondes assim a vossa vida, Isabel?

    - Que vale a minha vida para que a conserve? Disse a moça animando-se. Tem ela algum prazer, alguma ventura que me prenda?(...) A minha felicidade é acompanhar-vos com os olhos e o pensamento . Se esta felicidade me deve custar a vida, embora!....

    (......)

    - E compreendeis o que faz um homem desleal que tem ainda a consciência precisa para se julgar a si?

    Os olhos da moça brilharam com um fogo sinistro:

    -Oh, compreendo!... É o mesmo que faz a mulher sem esperança, e cujo amor é um insulto ou um sofrimento para quem ama!

    -Isabel!...exclamou Álvaro estremecendo.

    -Tendes razão! Só a morte pode desligar de um primeiro e santo amor aos corações com os nossos!

    - Deixai-vos dessas idéias, Isabel! Crede-me; uma única razão pode justificar semelhante loucura.(....) A desonra.

    -Há ainda outra, respondeu a moça com exaltação: outra menos egoísta, mas tão nobre quanto esta; a felicidade daqueles que se amam.

    (.....)

    - Isabel! Disse ele tomando-lhe as mãos. Se me tendes alguma afeição, não me recuseis a graça que vou pedir-vos. Repeli esses pensamentos! Eu vos suplico!

    A moça sorriu melancolicamente:

    - Vós me suplicais? .... Me pedis que conserve esta vida que recusastes?... Não é ela vossa? Aceita-a; e já não tereis que suplicar!......."

    Exalta a mulher e a natureza brasileira (acompanhando a tendência patriótica), procurando sempre o que ambas têm de belo e grandioso, e muitas vezes, comparando uma com a outra.

    "...ela sabia que essa recomendação era inútil, e que o índio faria de tudo para que nenhuma abelha sequer viesse a beijar os seus lábios vermelhos, confundindo-os com uma flor de pequiá."

    "O índio ajoelhou-se aos pés de Cecília; sem animar a levantar os olhos para ela, apresentou-lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina assustou-se, mas sorriu; um enxame de beija-flores esvoaçava dentro; alguns conseguiram escapar-se.

    Destes, um veio aninhar-se no seu seio, o outro começou a voltejar em torno de sua cabeça loura como se tomasse sua boquinha rosada por um fruto.

    A menina admirava essas avizinhas brilhantes, umas escarlates, outras azuis e verdes; mas todas de reflexos dourados, e formas mimosas e delicadas.

    Vendo-se esses íris animados acredita-se que a natureza os criou com um sorriso, para viverem do pólen e do mel, e para brilharem no ar como as flores na terra e as estrelas no céu. Quando Cecília cansou-se de admirá-los, tomou-os um por um, beijou-os, aqueceu-os no seio, e sentiu não ser uma flor bela e perfumada para que eles a beijassem também e voassem constantemente em torno dela."

    Liberdade e individualismo: A liberdade é outra característica romântica presente, que pode ser detectada, nas atitudes de Peri, filho indômito das selvas.

    "- Proíbo-te que saias desta casa!...

    O índio julgou que ia enlouquecer; quis lançar-se aos pés de sua senhora, mas recuou anelante, opresso e sufocado. Um canto, ou antes uma celeuma de selvagens soava ao longe. Peri deu um passo para a porta; D. Antônio o reteve:

    - Tua senhora, disse o fidalgo friamente, acaba de dar-te uma ordem; tu a cumprirás. Tranqüiliza-te, minha filha; Peri é meu prisioneiro.

    Ouvindo essas palavras que destruíam todas as suas esperanças, que o impossibilitava de salvar sua senhora, o índio, retraindo-se deu um salto e caiu no meio da sala.

    - Peri é livre!...... gritou ele fora de si; Peri não obedece a ninguém mais; fará o que lhe manda o coração."

    Luta Bem X Mal. A dedicação de Peri à sua Ceci, bem como a vilania do terrível Loredano, tecem o esquema alencariano, totalmente idealizado: de um lado, os bons, os heróis integrados à natureza; de outro, os maus, os cavardes, desejosos de furtar da terra os tesouros ali escondidos. Seguindo a regra romântica, vence o bem, pois os valores de D. Antônio sobrevivem com a filha Cecília, e o mal é castigado com o suplício de Loredano na fogueira.

    "E a menina sorria em seu plácido sono enleando-se talvez nalgum sonho gracioso, nalgum dos sonhos azuis que Deus esparge como folhas de rosas sobre o leito das virgens. Era o anjo em face do demônio; era a mulher em face da serpente; a virtude em face do vício. O italiano fez um esforço supremo ...."

    E) Espaço, tempo e linguagem

    Espaço:

    O cenário principal é a casa de D. Antônio de Mariz e seus arredores, que se localiza na Serra dos Órgãos, às margens do Rio Paquequer, no interior do Rio de Janeiro, mostrando um Brasil "primitivo" e endêmico. A paisagem, pintada pela poesia, é um recanto de salvação. A casa é uma fortificação que ocupa o topo de uma montanha, à beira de um precipício. Separados da casa principal, grande, senhorial e confortável, por uma cerca, encontram-se dois armazéns, habitados pelos aventureiros. A arquitetura pode ser comparada à dos castelos medievais. Na parte mais baixa da montanha, separada por uma muralha, começa o "espaço selvagem", o sertão que é descrito com exuberância da flora, fauna e dos rios. A natureza é apresentada num espaço privilegiado, onde D. Antônio e sua família se integram à ela, vivendo numa nítida simbiose. O espaço físico pode ser relacionado com o espaço simbólico; numa distribuição vertical do espaço, que representa a superioridade dos brancos, que estão no topo de uma montanha, sobre os índios, que estão no sertão. O ponto mais alto, onde mora a família Mariz, representa a cultura branca, como sendo a exemplar, pois eles possuem a honra, coragem, lealdade, justiça, generosidade e devoção cristã. A separação entre a casa dos armazéns simboliza a diferença social e moral que existe entre os conquistadores e aventureiros.

    Tempo:

    A história se passa no início do século XVII, no ano de !604, na época do domínio espanhol sobre Portugal. A duração da idéia central é de aproximadamente dois meses, porém o autor narra "flashbacks" que ocorreram há até dois anos antes da idéia principal, como a transformação de Loredano.

    Linguagem:

    Os personagens falam o português arcaico, de Portugal. De um modo geral, todos os personagens usam uma mesma linguagem, porém, há um destaque para Peri, pois além de todas suas qualidades já apresentadas, ele possui mais essa: se expressa de acordo com a norma culta da língua portuguesa; conjuga os verbos corretamente e não comete erros de concordância, tornando sua fala elegante,. Sua linguagem está totalmente ligada ao Romantismo, onde até a linguagem do índio é exaltada, pois para um índio que aprendeu o português há cerca da um ano, ele tem um domínio perfeito da mesma. Há, porém, uma distinção entre a linguagem indígena e a branca: a indígena tem a construção gramatical mais simples, como o fato de Peri se referir a si próprio na 3a pessoa, e para suprir seu vocabulário mais limitado, ele utiliza-se de metáforas e comparações retiradas da própria natureza, que acaba por tornar sua linguagem extremamente poética.

    "- Não te zangas, disse o índio com doçura. Peri te ama, porque tu fazes a senhora sorrir. A cana quando está a beira d'água fica verde e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-ci. Tu és o rio; Peri é o vento que passa docemente para não abafar o murmúrio da corrente; é o vento que curva as folhas para tocarem na água"

    É uma linguagem repleta de termos bonitos, imagens e metáforas atraentes, quase sempre ligadas à natureza, e generosa na adjetivação. Em alguns momentos, sua linguagem se torna tão plástica e musical que chega a se aproximar da poesia.

    Há uma forte presença de termos indígenas nas descrições de Alencar, havendo várias citações de nomes indígenas referentes principalmente à fauna e flora brasileira.

    "A cena que desenrolava-se a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brasileira, tão rica e brilhante (....)

    Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, símbolos da ferocidade e da força, até o lindo beija-flor e o inseto dourado; quem olha este céu que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados que anunciam as grandes borrascas; quem viu, sob a verde pelúcia de relva esmaltada de flores que cobre as nossas várzeas deslizar mil répteis que levam à morte num átomo, compreende o que Álvaro sentiu".

    F) Autor

    José de Alencar nasceu em 1829, em Macejana, Ceará. Recebeu o mesmo nome do pai, José Martiniano de Alencar, fruto da união ilícita de seu pai com sua prima: Ana Josefina de Alencar. Quando tinha 13 anos, foi para São Paulo com um primo, para freqüentar o curso preparatório de Direito. Na escola preparatória discutia-se tudo: Política, Arte, Filosofia, Direito, e, sobretudo, Literatura. Era a época do Romantismo, estilo artístico importado da França. Com 17 anos, matriculou-se na Faculdade de Direito, em 1846. Os estudantes eram muito boêmios, porém, José de Alencar se manteve alheio, sempre estudando e lendo os principais romances franceses da época. Em 1854 começou a escrever um folhetim para o "Correio Mercantil". Mais tarde, em 1855, comprou o "Diário do Rio de Janeiro", junto com alguns amigos, onde escreveu a maioria de suas obras. Em 1856, Alencar criticou duramente o poema "A confederação dos Tamoios", epopéia indianista de Gonçalves de Magalhães, discordando do poeta quando este afirma ser o poema a grande epopéia brasileira, provocando a famosa polêmica sobre a Confederação dos Tamoios. A repercussão de suas críticas teria criado para Alencar a "obrigação moral" de produzir uma epopéia na qual se corrigissem as falhas que ele apontara no poema de Magalhães. Essa teria sido a motivação inicial de "O Guarani", que em 1857, através do "Diário do Rio de Janeiro", foi publicado. Foi o primeiro de um grupo de personagens incomuns que invadiram o terreno da cultura brasileira. Por ser um romance de folhetim, Alencar escrevia um capítulo diariamente, onde sua família (principalmente a esposa e as filhas) palpitavam sobre o desenrolar da história. Alencar levava em conta a repercussão do público leitor, como nas telenovelas de hoje em dia. Por isso, ao invés de levar a cabo sua idéia inicial, com um final trágico, onde Peri morreria, Alencar optou por um final feliz, para agradar o público leitor.

    Devido ao sucesso desse romance, passa a se dedicar mais intensamente à literatura, bem como à política. Alencar morreu em 1877, vítima de tuberculose.

    G) Bibliografia

ALENCAR, José. O Guarani - coleção L&PM Pocket
CHACON, Geraldo. Apostila sistema Didático MED. São Paulo: Editora Flâmula, pg. 45 - 72. ABDALA, Benjamin Jr. Tempos da Literatura Brasileira. Samia Yousef Campdell. São Paulo: Ed. Ática, pg 70 - 80.
RAMOS, José de Paula Jr. Apostila de Português e Literatura Fuvest 2000. São Paulo: Editora Anglo, pg. 46 - 57.
Site: www.unip/objetivo.br

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