Tudo fazia para se expor e vivia o horror de tentar dar forma a um mito, na presença de um bilhão de olhos sem brilho, secos, impiedosos. Ao deixar o avião, avançaou decidido para o gradeamento de proteção contrariando os conselhos dos agentes, e tocou as mãos. Mãos próximas e prestes a responder ao convite dele para o admirarem adoração ou armas. A constante e inexprimível consciência interior de que o seu corpo era em cada segundo público um alvo. Indiferente à ameaça homicida das feras. Novos nervos sensitivos a florir no jardim das vértebras da nuca. Dizia-se que, ao olhar para as pessoas, lhes punha o crânio a nu. Naturalmente. Porque os bem-intencionados sorrisos ao admirador escondem frequentemente a morte por detrás dos dentes felinos. Nem paranóia nem indiferença pela sepultura mas uma sensual e delicada consciência da violência num presente eterno.
Ciclopes. As pessoas, parecidas com os lagartos primitivos, tem no interior do crânio uma jóia. Chama-se “glândula pineal” e situa-se no interior do cérebro, na juntura dos dois hemifésrios do cérebelo. Em certos indivíduos este terceiro olho rudimentar é ainda sensível à luz.
O olho resiste a análises isoladas. Há que ter em mente o fato de os olhos serem, atualmente, dois globos moles boiando dentro de ossos.
As impressões olham-me.
Pergunte-se a qualquer pessoa qual o sentido que gostaria de preservar
se perdesse todos os outros. A grande maioria diria a vista, abdicando
de um milhão de olhos interiores em favor dos dois que tem na cara.
Sendo cegos, continuaríamos vivos e poderíamos talvez descobrir
a sabedoria, quando, sem tato, nos tornaríamos em cepos.
O olho é uma boca ávida
que se ceva com o mundo.
Arquiteto de mundos de imagem
em luta com o real.
Há dois planetas gêmeos
no crânio.
O olho é deus. E mundo
porque tem o seu próprio equador.
Arranque-se no escuro um olho a um bicho e coloque-se diante de um objeto claro e transparente, uma janela voltada para o sol. O contorno dessa imagem é gravado na retina, visível a olho nu. Este olho arrancado é uma câmara primitiva e a púrpura da retina age como emulsão.
Kuhne1, depois de ter obtido resultados importantes com coelhos, conseguiu a cabeça dum jovem guilhotinado. Foi-lhe extraído o olho que foi aberto na linho do equador. A operação realizou-se numa sala especial vermelha e amarela. A retina do olho esquerdo apresenta uma imagem nítida mas ambígua, impossível de definir. E ele passou o resto da vida à procura do que tal podia significar, da natureza exata do objeto, se objeto havia.
As janelas são olhos da casa. Olhem para o exterior da prisão do corpo enquanto outros olham para o interior. Nunca o tráfego é um sentido único “Ver” implica sempre a possibilidade de violação da intimidade, porque, enquanto os olhos nos revelam a imensidade do mundo exterior, ficam patentes para os outros os nossos infindos espaços internos.
Que destino é o dos olhos durante o sono? Movem-se constantemente, como espectadores num teatro.
Durante os estados anormais as pupilas dilatam-se. Drogas, loucura, embriaguez, paralisia, exaustão, hipnose, vertigem, excitação sexual forte. O olho à descoberta do seu oceano depois de se ter extinguido.
Enkidu2 era um selvagem, um animal de entre os animais. Um dia uma mulher mostrou-lhe a nudez, à beira de um lago, e ele reagiu. E seguiu nesse mesmo dia atrás dela, conformando-se com os artifícios da civilização.
A escolha do par começa por um apelo visual. Não intervêm o olfato, o ritmo ou a pele. É errado crer que o olhar pode acariciar uma mulher. Uma mulher é feita de luz ou é feita de pele? A imagem dela nunca se torna real no olho, é sim gravada nas pontas dos dedos.
Na Ars Magna, o Grande Trabalho, o alquimista cria o mundo dentro da retorta.
Os olhos são o sexo da percepção e também eles instauraram a sua tirânia. Usurparam a autoridade dos outros sentidos. O corpo torna-se num caule delgado e desajeitado que serve de apoio aos olhos e respactivas órbitas.
Com que direito se denominam os olhos “janelas da alma” e chaves da mais profunda comunhão humana, ficando o tato reduzido a vagos contatos carnais.
O corpo não é a casa, é o interior da casa.
Os cegos copulam de olhos na pele.
O olho é “luz em repouso”.
(Criaremos nós luz no olho? A luz será nossa ou virá do mundo?)
Na mitologia egípcia o olho é símbolo de Osíris, Ísis e Hórus e do deus solar Rá.
Ptah deu os homens à luz pela boca, os deuses pelos olhos.
O Templo-cidade de Brak (3000 A.C.). Descobertos milhares de rostos humanos de alabastro preto e branco, sem narizes, sem bocas, sem orelhas, mas com olhos gravados e cuidadosamente pintados. Denominado o Templo do Olho, casa onde se guardavam esta oferendas à divindade.
Édipo “Realidade” dos seus seios nus. O corpo. “Olhaste para coisas que nunca devias ter olhado”. Olhos arrancados com um broche tirado das vestes da defunda Jocasta.
Castigar os olhos. Seios engelhados duma velha. É levado de aldeia em aldeia por um moço. E por todo o lado se ansiava pela palavra dele.
Tirésias, de quem se diz que se fez passar por mulher durante sete anos, encontrou casualmente Atena a banhar-se na floresta. Foi ela que cegou os olhos importunos.
Saulo e Tarso na Estrada de Damasco. A cegueira transfigurou-o em São Paulo.
Porque será a cegueira coisa santa?
A alquimia oferece ao homem uma forma original de heroísmo. Mani3 afirmava que o homem fora pelo Ser Supremo da luz criado para ser um auxiliar que, pela sua vida e esforços, reunisse os átomos de luz dispersos e portanto debilitados, assim os tornando a enaltecer. Porque a luz brilhou nas trevas e deteriorou-se e corre grave risco de ser inteiramente consumida.
O homem pode participar na salvação da luz.
O processo, a forma é sacrificada pela luz. Em plena luz, a luz é sacrificada pela forma.
Código da luz. O olho está doente. Arranca-o. O médico suprime o olho para salvar o corpo. Para tanto, é necessário seccionar o nervo ótico que liga o olho ao cérebro. Antes da prática da anestesia, contam que a incisão do escalpelo produzia luz em vez de produzir dor.
Progressivamente, os objetos são construídos no exterior do corpo.
O olho surge da luz, pela luz. Os órgãos e as superfícies
indistintas vão evoluindo para a sua única forma. O peixe
é moldado pela água, a ave pelo ar, o verme pela terra. O
olho é criação do fogo.
2 Enkidu, herói lendário, que aparece como companheiro da personagem de Gilgamesh, na epopeia de Gilgamesh, escrita 2000 anos antes de Cristo, na Suméria, região hoje dita Iraque.
3 Mani, fundador no século III, no Irão,
da religião maniqueia, interpretação dualista do mundo,
que divide entre o Bem e o Mal. Pregava o ascetismo e espalhou esta crença
por toda a Pérsia.
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Última
Atualização 05/01/2000
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