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Never stop dreaming... ever!

 
Terras de ninguém

"Tudo se passa noutro qualquer lugar, planeta, sistema. Outro Universo que em tudo se parece com o nosso, um reflexo numa realidade paralela. Bem, talvez só se pareça...ou nem seja tão paralela assim".



Capitulo I

Era uma fria manhã de Inverno, as nuvens ameaçavam cair tal estavam carregadas. Todas as casas e estruturas da cidade capital Fabort pareciam encolhidas devido à neve que se amontoava nas suas bases e telhados oblongos.

Ao longe no horizonte, erguia-se um sol pálido espreitando entre névoas espessas que envolviam as montanhas circundantes da cidade.

Estava-se no pico mais alto desse Inverno, o sexto desde a passagem do século, como o tempo corria. Ainda parecia que tinha sido ontem as comemorações da grande viragem.

A temperatura chegava aos três graus negativos o que para aquela época do ano nem era muito frio. Um gato-lebre escavava um montículo de neve num dos 4 patamares mais altos do edifício central da Administração, procurando algum roedor talvez. Nesta altura do ano eram muitos os que se refugiavam nas turbinas de aquecimento do antigo e gigantesco edifício.

Os habitantes esses, seguiam os seus destinos tropeçando entre si num emaranhado humano e não humano. Os seus movimentos quase automáticos, os resmungos usuais, bocejos... marcavam a rotina de sempre nas suas vidas.

Fabort era famosa pelas suas ruas principais largas, talvez demasiado. Tinham sido projectadas assim devido às loucas corridas de crontossauros que se faziam desde o principio do regime de Shimoth Ptolomeus Cornélium III, o Paquiderme, como lhe chamavam os súbditos. As partes restantes eram um emaranhado de vias e ruelas que se entrecruzavam como teias, principalmente na parte norte onde viviam os menos habilitados e mais pobres. No sul as habitações eram de propriedade maioritariamente militar e estendiam-se até ao centro, estúpidamente ordenados, ligando-se à parte administrativa num corredor cinzento escuro. Na parte central os edifícios jaziam compactos por toda a sua área, não eram demasiados altos, à excepção do enorme edifício central da Administração, esse dominava tanto em área como em altura, contrastando horrorosamente com as outras estruturas redondas e mais pequenas.

A grande massa de ferro e ligas de titânio tinha sido erguida com suor e sangue de escravo-criminosos na época dos pais do ditador, assim como as suas estruturas irmãs da Administração nos planetas dos outros sistemas. Havia um em cada um dos cinco sistemas civilizados, todos construidos nas cidades capitais dos planetas mais habitados. Além de Fabort no sistema principal, havia a cidade gêmea Fabort II no sistema 2, Proto no sistema 3, Cidade da Energia no 4 e Borbbe, a Cidade Bélica no 5.

O objectivo do seu porte e magnitude era o de gerar terror entre os súbditos, o que seriam então muito mais maleáveis de controlar e menos susceptíveis de gerar tumultos ou revoltas. Agravando a situação, todas os dias três esquadrões de sondas automáticas eram vomitadas das suas entranhas patrulhando a cidade constantemente 36 horas por dia. Rua a rua, casa por casa. O seu zumbido ameaçador era entrecortado por súbitos alarmes "avisando" os utentes menos felizes que iam transgredindo as leis e ordens do regime. Todas as sondas voltavam ao seu ponto de partida despejando o conteúdo das suas memórias na base de dados central ou Coração como os seus técnicos gostavam de lhe chamar. As infelizes almas sancionadas pelas sondas eram então catalogadas e armazenadas com os dados respectivos. O Coração mantinha todos os registos dos habitantes actualizados ao dia. Esses registos e conforme os avisos já aplicados, continham níveis de perigosidade e ameaça ao regime. Cada utente podia passar a 5 níveis diferentes de ameaça, sendo catalogado, marcado e submetido a uma sanção física cada vez que ultrapassasse cada nível. Uma vez atingido o último e derradeiro aviso, o indivíduo era automaticamente colocado numa sessão de tortura e consequente exterminação, pura e simples.

O interior destas grandes construções era desconhecido, pelo menos para o mais comum dos mortais. O seu nível de segurança excedia o de qualquer outra parte interdita. Eram inúmeros os dispositivos de defesa, muitos deles eram mesmo desconhecidos pelos engenheiros e técnicos. Tinham sido maioritáriamente desenhados ainda nos períodos do pai e avô de Shimoth, quando os velhos viviam com a paranóia permanente de assassinato. Não que a ameaça fosse irreal, mas quase improvável. No entanto muitos defendiam a teoria que Shimoth escondia algo de mais importante nas suas entranhas. Rumores surgiam entre os que se atreviam a adivinhar o seu conteúdo. Falava-se de câmaras de torturas inimagináveis. Outros especulavam sobre os enormes túneis de transporte montados na sua base, túneis que só por si e em diâmetro eram quase da envergadura do próprio edifício, ninguém sabia onde acabavam nem o seu propósito. O mito favorito entre a população de Fabort era que algures no seu interior jazia instalada uma grande bomba nuclóide com o objectivo doentio de ser a última defesa de Shimoth em caso de ameaça real e física, fazendo assim desintegrar o planeta e alterando irreversivelmente o sol do sistema, originando o nascimento quase instantâneo de uma supernova. A vida como a conhecemos seria varrida horrivelmente de todos os 5 sistemas.

Escusado seria dizer que o regime controlava tudo. Bem, tudo não, claro que havia várias brechas no sistema totalitarista instalado, onde grupos revolucionários extremistas se lançavam em cruzadas sempre inúteis de derrubar o Paquiderme do seu inatingível lugar de poder absoluto. Além do mais, patrulhar 15 milhões de habitantes oprimidos mas relutantes não era tarefa fácil, mesmo com todos os engenhos tecnológicos que o regime pudesse inventar.

Os grupos de revolta tinham uma atenção especial por parte de Shimoth, quase na totalidade constituídos por elementos nível 4 e eram catalogados e "marcados" no imenso poço de informação do Coração numa sub-base de dados especial. Todos eles controlados caprichosamente, monitorizados pelas de sondas diárias e pelas redes de super-espiões do sórdido Exército Racionalista do regime. Fixavam-se, na maioria, em ideais mais utópicos do que realistas, sendo esse a sua maior fraqueza, tornando-se com o tempo em farrapos de resistência onde nenhuma voz se erguia mais que o som surdo das próprias armas. Viviam-se fundamentalmente dias conturbados, de ódio, dias duros.
A liberdade de expressão era uma ténue lembrança na memória do povo. Rápidas intervenções e constante vigilância por parte do regime transformavam inicios de revolta em estilhaços e fumos passageiros.

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