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Never stop dreaming... ever!

 
O Anjo


Esta noite desencantei todas as serpentes dormentes dos meus sentidos e parti ao encontro do mais profundo negrume.

Esquina a esquina remexendo nas paredes os seus líquido acastanhados, sinto o meu corpo enegrecer e ganhar formas sinuosas, plásticas, evanescentes. Um gato salta, repente, à minha frente e num cuspido miado transgride o espaço vazio desaparecendo numa coluna de fumo.

Qual Abraão, invisto na noite, na cega noite, a minha fé. Deus ordenou-me: "que o sangue do holocausto me chegue nectarizando de devoção este Tempo, e acalme a minha ira".

Procuro a vítima, o cordeiro branco sem mácula perdido nestas terras onde Lot procura maridos para as filhas. Tenho de o encontrar para o reenviar a Canãa Divina, aos verdes pastos prometidos. Depois disso, então, escorrerei lânguido nos espaços do mistério cruzando as mãos sobre o peito, e um longo sono abismará o meu corpo.

Um salmo sussurrante de mar aberto ao mistério com punhados de sal consagrado e braçadas de níveas maresias vem deambulando nas ruas desertas. Tudo encolhe, fetalmente, a cidade encolhe-se e parece quase caber na ponta de um dedo.

Como se fosse gota de sangue, súbito, surgindo, uma mulher de vestido justo e curto, tacão a tacão, em desvios dançantes de anca, desce a avenida. Escorro-me à parede e acaricio a face azulada da longa faca, prenhe de reflexos e intricados brilhos lunares. Espero o sinal de Deus, a sua límpida e terrível marca, um autocarro azul desce rápido a avenida ferrando na noite espirais de fumo e ruído. Ela pára, olha o azul pontilhado de luzes, abana a cabeça e prossegue o seu passo lento. O autocarro abranda, curva para o silêncio e desaparece. O sinal de Deus é claro. Esta é a vitima.

Abafo o grito com uma mão e com a outra, de olhos fechados respirando a sublime oração que Maeterlink nos ensinou, espeto a longa faca onde o coração batia e agora em desbatimento acalma. Um tufo de sangue desponta da lâmina, e espalha-se no vestido. Calmo, deixo o corpo bambo, como corda solta, cair no frio do passeio. Olho-a nos esbugalhados olhos crispando uma lágrima, um diamante puríssimo rebentando da íris flamejante. Sinal de Deus aceitando o seu cordeiro.

Ajoelho-me e coloco a faca sobre o meu peito. Esta é a noite em que regressarei ao Jardim do Bem.

 

José Carlos Sendim

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