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Never stop dreaming... ever!

 
Latin Lover


Abres a porta, um hálito de coxas roliças e peitos descobertos belisca a
atmosfera rarefeita de ar e luz e desdobra na tua pele o inteiro mapa dos
sentidos. Dentro, um ritmo cubano aquece a fricção dos corpos e lubrifica
no sangue a luz voluptuosa do álcool.
Ficas um momento na porta entreaberta, sussurrante de emoção, pronto, cada
vez mais pronto a dissolveres-te naquela atmosfera tomada de dengue.
Entras e breve uma lustrosa morena, polpuda de seios e carne, bule o corpo
ao alcance das mãos, a noite inflama-se, estrelas rompem voluptuosas o véu
da noite e caem estrondosas no negro poço do desejo, e as águas ainda há
pouco sombrias cobrem-se de mil brilhos, e vagueiam para os ares labirintos
mágicos e fragrantes. Encostas o teu corpo no sublime deslize móvel
daquelas ancas e sentes balir por dentro do seu corpo a textura sensual de
uma cabra tolhida de cio. Acendem-se bátegas de suor no ronronar latejante
do corpo.
Quando sais já no lado dos montes voluma-se o sol rezingando no céu
reverberações de vermelho. A morena polpuda encolhe-se debaixo de ti, como
que presa de uma teia que deixou crescer em fios de escuridão e  medo. Em
algumas janelas dos prédios vizinhos  recendem mistérios nas ténues luzes
acesas.
De repente um estranho sonho fossa uma galeria escura e húmida nos teus
olhos. Longe, muito longe, num espectral deserto, a morena frente a ti
ajoelha-se dócil e humilde, pousas a mão nos seus ombros e calmamente
dizes:
-  É aqui, Laura, o nosso lugar. Aqui nesta terra anémica, onde a esperança
de vida escoou nas areias e desapareceu descarnada do fruto e da sua
semente. Aqui, serenamente, o corpo sob a pele irá desaparecendo, sugado
gota a gota pelo incandescer do sol.
Dentro do teu carro a morena abandona-se e num manso êxtase fecha os olhos
e deixa os lábios a velejarem num sorriso fresco de fruto aberto ao meio. O
rádio flirta distraído  o ambiente de tepidez, o ar macio e transparente.
Um a um os prédios, uma a uma  as casas da cidade vão ficando deslumbradas
na distância, envoltas numa misteriosa garganta que repente num sobressalto
as engole por inteiro.
Tu guias e olhas voluptuoso a carne bruta dos seus seios embutir nos teus
músculos uma tumultuosa imensidão de sangue. Rumam direcção ao mar, ao
estalido deambulante das correntes de sal. O carro esventra leve uma duna e
pára incendiado pela aurora.
Murmura nos corpos a torrente cristalina das águas, os braços fazem-se
abraços, as bocas gotejam rosas em fogo, a roupa desalinha-se e rompe-se do
corpo caindo solta nos bancos. Um barco regressa da faina, ao entrar no
porto lança um uivo de fera crispada. As espumas deslizam para a praia,
tecem húmidas rendas e eclipsam-se em frescura. Os corpos deslizam dentro
do carro como se estivessem no interior crisálida de um ventre, tudo neles
é respiração de si mesmos.
Quem são estes corpos tresmalhados que nas ruínas de si mesmos procuram
enraizar os alicerces do outro? Não trocaram toda a noite uma só palavra,
no entanto estão fechados já um no outro, estranha enxertia de sangue, que
flor trará?
O sol desnuda finalmente todas as coisas e os primeiros banhistas
escandalizados retiram os filhos da beira do jipe onde um casal nu ostenta
um carnal sorriso. Depois alguém repara que aquela beatitude não é normal.
A polícia veio. Os bombeiros seguiram-se. A autópsia: inconclusiva.
Estranha morte.
No relatório da polícia consta que na humidade dos vidros ainda se podiam
ler estas frases escritas com letras diferentes:
É aqui Laura...
Sim!


José Carlos Sendim

Ei! Mande ume-mail !
  Ena tantos!

 Believe the lie, keep watching the skies...  

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