Latin
Lover
Abres a porta, um
hálito de coxas roliças e peitos descobertos belisca a
atmosfera rarefeita de ar e luz e desdobra na tua pele o
inteiro mapa dos
sentidos. Dentro, um ritmo cubano aquece a fricção dos
corpos e lubrifica
no sangue a luz voluptuosa do álcool.
Ficas um momento na porta entreaberta, sussurrante de
emoção, pronto, cada
vez mais pronto a dissolveres-te naquela atmosfera tomada
de dengue.
Entras e breve uma lustrosa morena, polpuda de seios e
carne, bule o corpo
ao alcance das mãos, a noite inflama-se, estrelas rompem
voluptuosas o véu
da noite e caem estrondosas no negro poço do desejo, e
as águas ainda há
pouco sombrias cobrem-se de mil brilhos, e vagueiam para
os ares labirintos
mágicos e fragrantes. Encostas o teu corpo no sublime
deslize móvel
daquelas ancas e sentes balir por dentro do seu corpo a
textura sensual de
uma cabra tolhida de cio. Acendem-se bátegas de suor no
ronronar latejante
do corpo.
Quando sais já no lado dos montes voluma-se o sol
rezingando no céu
reverberações de vermelho. A morena polpuda encolhe-se
debaixo de ti, como
que presa de uma teia que deixou crescer em fios de
escuridão e medo. Em
algumas janelas dos prédios vizinhos recendem
mistérios nas ténues luzes
acesas.
De repente um estranho sonho fossa uma galeria escura e
húmida nos teus
olhos. Longe, muito longe, num espectral deserto, a
morena frente a ti
ajoelha-se dócil e humilde, pousas a mão nos seus
ombros e calmamente
dizes:
- É aqui, Laura, o nosso lugar. Aqui nesta terra
anémica, onde a esperança
de vida escoou nas areias e desapareceu descarnada do
fruto e da sua
semente. Aqui, serenamente, o corpo sob a pele irá
desaparecendo, sugado
gota a gota pelo incandescer do sol.
Dentro do teu carro a morena abandona-se e num manso
êxtase fecha os olhos
e deixa os lábios a velejarem num sorriso fresco de
fruto aberto ao meio. O
rádio flirta distraído o ambiente de tepidez, o
ar macio e transparente.
Um a um os prédios, uma a uma as casas da cidade
vão ficando deslumbradas
na distância, envoltas numa misteriosa garganta que
repente num sobressalto
as engole por inteiro.
Tu guias e olhas voluptuoso a carne bruta dos seus seios
embutir nos teus
músculos uma tumultuosa imensidão de sangue. Rumam
direcção ao mar, ao
estalido deambulante das correntes de sal. O carro
esventra leve uma duna e
pára incendiado pela aurora.
Murmura nos corpos a torrente cristalina das águas, os
braços fazem-se
abraços, as bocas gotejam rosas em fogo, a roupa
desalinha-se e rompe-se do
corpo caindo solta nos bancos. Um barco regressa da
faina, ao entrar no
porto lança um uivo de fera crispada. As espumas
deslizam para a praia,
tecem húmidas rendas e eclipsam-se em frescura. Os
corpos deslizam dentro
do carro como se estivessem no interior crisálida de um
ventre, tudo neles
é respiração de si mesmos.
Quem são estes corpos tresmalhados que nas ruínas de si
mesmos procuram
enraizar os alicerces do outro? Não trocaram toda a
noite uma só palavra,
no entanto estão fechados já um no outro, estranha
enxertia de sangue, que
flor trará?
O sol desnuda finalmente todas as coisas e os primeiros
banhistas
escandalizados retiram os filhos da beira do jipe onde um
casal nu ostenta
um carnal sorriso. Depois alguém repara que aquela
beatitude não é normal.
A polícia veio. Os bombeiros seguiram-se. A autópsia:
inconclusiva.
Estranha morte.
No relatório da polícia consta que na humidade dos
vidros ainda se podiam
ler estas frases escritas com letras diferentes:
É aqui Laura...
Sim!
José Carlos Sendim

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