Damion
Leves passos se fizeram ouvir. A porta de madeira
barrocamente adornada abriu e voltou a fechar-
se num movimento só. Ele ficou-se. Suores frios
escorreram-se-lhe da face e outra vez o limpou com o
lenço, totalmente ensopado com húmidades de medo
diluído.
“Pai dos Céus, que macabros tempos se uniram contra
Vós. E eu que um simples soldado teu sou.
Tanta responsabilidade... e não me dás um sinal, por
mais simples que seja...”
Abriu a pequena portinhola e deixou descair uma cabeça
pesarosa. Como que detia todo o peso da
humanidade sobre si.
- Perdoai-me padre porque eu pequei...
Os suores jorraram novamente e os olhos em ardência
cerraram-se continuamente, rezou.
- Diz os teus pecados meu filho – proferiu
finalmente à espera duma resposta dos infernos.
- Padre eu... eu nem sei por onde começar...
E o padre suspirou de alivio. Não era a agonia por que
esperava. Para seu momentâneo conforto
tudo à sua volta se recompôs, no entanto ainda sentia
no ar carregado aquela sensação que tanto o
apavorava.
- Pelo principio meu filho, começa pelo principio –
lutou.
E a confissão desenrolou-se na sua menos natural
maneira, dentro do que a tensão agora
decrescente o permitiu.
Enquanto palavras carregadas eram proferidas em jeito de
arrependimento, desviou subtilmente a
pequena cortina aveludada côr de vinho e descobriu na
longa fiada de bancos da catedral umas pernas
ajoelhadas pertencentes a um corpo em suposta
penitência. Não conseguia vêr mais.
Acabou as preces pela alma que se redimia e um nó
asfixiante materializou-se em sua garganta.
- Vai... – disse à ovelha em confissão não antes
de lhe encomendar as orações a cobrar. Ouviu-se
novamente a porta fina a abrir e fechar e a lâmpada
verde no topo do confessionário ganhou vida, talvez
chamando por todos os pecados do mundo.
Cerrou a portinhola.
“Pai! Protege-me desta negridão que me cobre. Não
sabes? Não sabes quem sou? À tanto tempo te
sirvo, com todo o meu espirito, com todo o meu corpo. Que
mal eu fiz? Não mereço... e se merecer, acaba
de vez com esta agonia. Meu Deus.”
Passos. Porta. Silêncio.
Hesitou abrir a portinhola desta vez mas algo o fez
continuar, algo de escuro e de muito sujo.
Vontades que o controlavam não sabia como.
- Perdoai-me padre porque eu pequei... – pediu uma
voz quase muda.
O cónego orou e pediu pela audição do Senhor em
murmúrios monocórdicos.
- Q... Quais os teus pecados meu filho? – disse
finalmente.
A voz subiu de tom.
- Padre, matei novamente.
Os olhos do pastor abriram-se em órbitas avermelhadas,
de sangue que parecia querer rebentar.
Voltou. Era ele.
- Outra vez... – levou ambas as mãos em concha à
cara.
- Outra vez padre.
- Meu Deus.
- Já sabe que não lhe serve de nada interpelar por ele.
- Damion...
- Sim padre?
A escuridão que normalmente surgia do outro lado da
pequena janela ainda mais carvão parecia se
ter tornado. Havia a sensação de querer avançar sobre
ele e encobri-lo, penetrá-lo com medos nunca antes
experimentados.
- Sim padre? – insistiu o indivíduo a que o padre
se referia como Damion.
- Mas porquê meu filho?
- É ele.
- A besta? – o nome saiu a medo.
- A besta.
- Então de nada adiantou a nossa última conversa. De
nada...
- Ele é forte, tão forte.
Algo de muito gelado percorreu a espinha do padre que o
fez encolher em sinal de insignificância.
Caiu da cadeira quase chorando, o medo moendo. E a
cadeira voou num pontapé, embatendo
violentamente na parede inferior do confessionário. A
posição fetal completara-se agora no chão, cabeça na
esquina, a face empurrando a madeira que teimava em não
ceder. Mantendo-o prisioneiro do que nem
conseguia perceber.
- Deus! – clamou.
- É escusado padre.
Mas uma pequena força emergiu do seu mais profundo
intimo. Recompôs-se em esforço e
endireitou a cadeira. Sentou-se num esgar de sofrimento
envolto pela maldade pura.
- Damion?
- Sim padre?
- Porquê eu? Sempre eu.
- Porquê outro?
- Não faz sentido.
- Só o conheço a si. Nestas curtas horas em que ele
não me guia, não me controla, só o tenho a si.
Não é ele quem escolhe mas sim eu, que sou, como você
sabe, um homem solitário.
O gelo veio outra vez. Há muito que sentia aquilo,
aquando das breves visitas de Damion.
E o suor... o suor. Lenço. A batina encharcada
pesando-lhe como um fardo mais.
- Segundo a tua última confissão... - benzeu-se perante
o sacrilégio de ter chamado aos infernos por
que passava de confissões – não mais matarias. Era
o final dessa horrenda lista de execuções.
- Menti padre. Tinha medo e menti. Foi uma tentativa
inútil de afugentar a besta, com uma réstia de
força de vontade, mas nada o detém padre.
A loucura voltou mas conteve-se. Deixou fluir a
esperança e a esperança pareceu-lhe ligeiramente
fluir.
- Mas filho, tens de ser mais forte do que nunca –
disse tentando ao mesmo tempo convencer-se a
si próprio.
- Estou cansado. Padre... desesperado.
- Deus ajuda, tem de ajudar. Rezemos.
- Não!
- Mas Damion...
- NÃO!
O confessionário vibrou com a explosão da negativa, as
tábuas saltaram e os ecos malditos
elevaram-se perdendo-se entre as cavidades sinuosas da
catedral. Pombas esvoaçaram e caíram, mortas
pelo medo cortante que as trespassou.
- Deus...
- NÃO PADRE!
O cubículo encolheu perante os olhos do padre. Tábuas
desdobraram-se em ripas furiosas
ganhando vida, gemendo sobrenaturalmente. O teto
convolveu-se e foi caindo lentamente, ondulando e
partindo na ameaça de desabar a qualquer momento.
- Damion!
O ar tornou-se irrespirável e o padre tossiu com a
poeira avassaladora. No entanto continuava a
convergência assassina e agora já não restava muito
espaço para um movimento que fosse.
Tudo parou como começara.
- Damion! – gritou novamente.
Eco. Silêncio.
- Meu filho...
Porta.
“Já nada faz sentido meu Deus. Porque me abandonas
e a esta ovelha tomada pelo Demónio?”
Afastou o que restava da cortina dentro do que lhe foi
possível. E lá estava ele, de costas. Imóvel.
Braços caídos. Cabelos negros retalhados por golpes
errantes, exasperadamente oleosos.
- Sabe padre? Agora eu sei.
- Meu rapaz... – gemeu perante o contacto impiedoso
de seu braço com as protuberâncias da
madeira.
- Agora eu sei. Ele deu-me este poder, sobre as coisas. O
intuito era rasgar, moer e matar. E essa
tarefa foi comprida numerosa e implacavelmente. Mas
padre, não compreendia porquê – virou-se deixando
a descoberto a face marcada da loucura e da possessão. -
Agora já sei.
O ar gelado voltou.
- Descobri a forma de finalmente o ultrapassar. Padre, o
único objectivo dele era gozar com Deus
sabe? Fazia-o através de mim que esquartejava e matava
como uma marioneta em suas mãos. Depois
dava-me estas horas de sanidade sabendo que recorreria a
seus serviços para confessar os meus
horrendos pecados. Agonizando-o a si e consequentemente a
Deus. Dá-lhe prazer, conseguia sentir isso,
maldita besta.
- Mas Damion...
- Não faz mal padre, agora descobri-lhe o ponto fraco. E
vou-me servir do poder que ele me
impregnou para o derrotar.
O cónego compreendeu o que aquilo significava, cerrou as
pálpebras e lamentou-se por ter
percebido, preferia não o ter feito.
- Desculpe padre, mas só assim este pesadelo poderá
acabar.
- Meu filho... – lamentou-se.
E Damion abriu a boca expelindo um bafo gelado de seu
interior. As madeiras ganharam vida
novamente e num segundo apenas abateram-se sem piedade
para o interior, Implodindo todo o seu
conteúdo no movimento. Esguichos de sangue e vísceras
voaram num pesadelo inimaginável, como
fantasmas vermelhos a querer fugir por entre as madeiras
malditas do confessionário tomado pelas trevas.
E pintaram. Pintaram as paredes da catedral de padrões
imundos dos pecados mortais ouvidos ao longo de
anos de sofrimento. Pintaram uma cara varrida pela
loucura, possessa pela besta, a besta de sempre.
Soaram os sinos na catedral e no entanto ninguém sequer
se aproximara das cordas para os tocar.
Soaram por alguém que morrera em vão. Porque mais tarde
meus caros, um outro e novo padre sentiu um
arrepio quando uma brisa gelada o atravessou. Dizia
solenemente a missa do 7º dia pelo malogrado mártir,
e qual não foi surpresa alguma, quando inocentemente
avistou na última fila dos bancos da catedral um
personagem singular, de cabelos negros retalhados ao
acaso e exasperadamente oleosos. Olhava
fixamente para o altar murmurando vezes sem fim:
“Perdoai-me padre porque eu pequei horrivelmente...”

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