Breves
histórias de coveiros: "Makievum Makievaas"
Deitado num galho de oliveira,
Crisóstomo observava atentamente o desenrolar do funeral
a uns seguros cinquenta metros de distância. Agarrava-se
à arvore como um gato deixando transparecer que não era
a primeira vez que o fazia.
O rapaz travesso e curioso não era pelo funeral que ali
estava matreiramente a espiar, mas sim pelo que iria
acontecer a seguir.
Era um final de tarde obscuro de Outono e as folhas do
arvoredo circunscrito ao cemitério amontoavam-se em
padrões diversos pelo chão. O frio não era muito, mas
a brisa atirava a folhagem fina da arvore constantemente
para a frente do angulo de visão do rapaz. Ele,
resmungando consigo mesmo, lá ia fazendo os possíveis
por desocupar as vistas.
Crisóstomo não era um miúdo como os demais. Soprara 15
velas no seu último aniversário e na escola ia um ano
à frente dos da sua idade. Enquanto os outros colegas
preferiam passar o tempo a jogar e a brincar, ele era
mais do género de se inclinar para as coisas estranhas e
intrigava-lhe tudo o que de misterioso fosse. Aliás,
até já tinha dito aos pais que "quando fosse pra
faculdade gostaria de ser cientista ou investigador para
estudar qualquer coisa ainda desconhecida". Eles
claro, como ainda era muito novo não faziam muito caso
do que dizia, porém, achavam estranho ele não brincar
com os demais e já tinham começado a achar anormal o
seu comportamento, assim como por exemplo Crisóstomo se
dirigir todos os dias ao cemitério fazer não sei o
quê. Enfim, os pais impotentes, só podiam encolher os
ombros.
A cerimónia finalizara. As pessoas desgostosas lá se
foram melancolicamente afastando. Esticou-se ainda mais
no galho e arregalou totalmente os olhos, lá estava ele,
o coveiro.
Personagem estranha e solitária, nunca falava com
ninguém exceptuando quando respondia uns esporádicos
sim ou não numa pronúncia francesa enrolada das ilhas
do pacifico. Era uma das coisas que maravilhavam
Crisóstomo, via naquele homem enorme de quase dois
metros com vestes sempre negras e pele a condizer um
verdadeiro poço de mistérios, atiçando ainda mais o
seu fogo de curiosidade. No entanto, era a maneira como o
coveiro acabava os seus trabalhos que ainda mais
confusão no cérebro lhe fazia.
Todas as vezes que tapava uma cova e se encontrava
sozinho no cemitério, já de noite, assistia-se a um
ritual que só o furtivo Crisóstomo e o próprio coveiro
conheciam. O homem punha de lado a pá, dava um salto
até ao carro e trazia nos braços uma série de frascos,
um livro grosso e meia dúzia de pequenos sacos, era pelo
menos o que ele julgava discernir àquela distância. Os
procedimentos que se seguiam também não os identificava
com nada que tivesse visto até à data, mas concerteza
que eram de natureza obscura, no mínimo.
Ajoelhado no chão e em frente à cova recém coberta, o
ténebre homem abriu o livro e colocou-o ao seu lado.
Começou por trocar o conteúdo dos frascos uns atrás
dos outros. Intervalando, abria os braços, lia umas
linhas do livro, olhava para cima e bradava algo numa
qualquer linguagem desconhecida:
- Makievum Makievaas! Makievum Makievaas! - Fazia ecoar
as palavras por todo o cemitério.
Finalizava a reza regando a terra com as misturas feitas
anteriormente. Seguidamente, tirava dos sacos certos
objectos e espalhava-os pela terra mole de forma, isso
conseguia vêr, a desenhar uma cruz. Mas uma cruz ao
contrário.
Claro que, como exímio explorador, Crisóstomo já tinha
investigado o significado daquele sinal e das palavras
proferidas. Na biblioteca da vila tinha gasto horas e
horas procurando algo que fizesse alusão àquela
invulgar disposição da cruz. Revistou enciclopédias
sobre a idade média e volumes sobre feitiçarias
demoníacas, tinha sido difícil mas a procura dera os
seus frutos. Num antigo livro sobre práticas ocultas
descobrira o seu real significado: era o símbolo do
anti-cristo. Quanto às palavras, não encontrara nada
que lhes fizesse alusão.
Mas afinal o que se passava ali? Tinha de descobrir de
alguma forma, disso tinha ele a certeza, pois de
contrário dava em maluco.
Já há muitos enterros que esperava sem qualquer sorte
uma oportunidade para verificar mais de perto aqueles
objectos misteriosos. Era um rapaz com muita paciência,
no entanto esta espera tão longa deixavam-no numa
ansiedade de roer as unhas.
Tentara arranjar uns binóculos sem sucesso e nem
dinheiro para comprar uns tinha, além do mais, de noite
não veria nada. Cansado de esperar pela sorte, tinha de
forjar uma qualquer outra maneira. Depois de vários
esquemas e planos deduziu que seria mais eficaz pôr em
acção um que não fosse muito complicado.
O carro do homem. Sim, seria essa a diversão.
Desceu a árvore e saltou o muro na parte mais distante
em relação à posição do coveiro. Dirigiu-se ao
automóvel estacionado perto do enorme portão de entrada
do cemitério iluminado por dois grandes lampiões, um de
cada lado.
Estudou melhor o seu plano. Sim, seria fácil. O coveiro
nunca deixava o carro trancado, assim, Crisóstomo
agachado abriu com cuidado a porta do lado do condutor,
destravou o travão de mão e fugiu o mais rápido que
pôde. Como a rua do cemitério era um pouco inclinada
logo o veiculo se começou a mover.
Correu tudo como planeara. Escondido atrás da oliveira,
Crisóstomo ouviu o carro que embalado, embateu com
força no muro do fundo da rua. O barulho fez atrair a
atenção do coveiro interrompendo-lhe o ritual.
Levantou-se e reparou através do gradeamento do portão
a ausência do seu automóvel. Praguejou qualquer coisa
relacionado com travões e dirigiu-se para saída. Ao
passar o portão parou sobre a forte iluminação dos
lampiões, lançou um olhar desconfiado para os seus
pertences espalhados lá atrás no chão. Perscrutou
depois o cemitério inteiro, lentamente. Parou o olhar
por escassos momentos na direcção da oliveira como que
pressentindo a presença de Crisóstomo. Franziu o
sobrolho e partiu em socorro da sua viatura.
O rapaz suava em gotas geladas, encolhera-se o mais que
pôde atrás do tronco da árvore - "meu Deus"
- pensou. - "Ele olhou para aqui, mas não pode ser,
como poderia vêr através do tronco e no escuro? Ná!
Devo estar a imaginar coisas." - Dito isto e
verificando que o coveiro já tinha partido, correu na
direcção da zona do ritual.
"Engraçado" - pensou parando a meio do
caminho. - "Parece que ainda estou a ouvir aquelas
palavras a gritar." - não ligou e continuou.
Conforme se ia aproximando, as palavras proferidas
anteriormente pelo homem negro ecoavam cada vez mais alto
na sua cabeça, só que desta vez totalmente distorcidas.
Achou estranho mas continuou a caminhada. Sentia o
próprio ar mais denso e pesado, custava-lhe a respirar.
Petrificado será a palavra certa para descrever como
Crisóstomo reagiu ao vislumbrar os objectos da estranha
cerimónia. Espalhado pela terra solta da cova, via-se
uma multitude de insectos mortos. Baratas, vermes,
moscardos, centopeias e outros que não conseguia
identificar. Veio-lhe uma vontade súbita de vomitar,
controlou-se. Reparou então na cruz invertida e o seu
estômago mais revoltado ficou. Era constituída por
cabeças de galinhas e pequenos gatos mortos, à volta,
tigelas do que parecia ser mercúrio puro adornava o
conjunto.
- Meu Deus! - Exclamou tentando segurar um vómito. -
"Voodoo! Só pode ser!" - Pensou horrificado.
As vozes martelavam fortemente dentro da sua cabeça.
Sacudiu-a aflito. Não paravam. Sentia-se entorpecido,
dominado por uma força que não conseguia vêr.
Foi então que reparou incrédulo no livro ainda aberto.
O maldito pulsava e ondulava as suas páginas como se
estivessem vivas. Palavras irreconhecíveis apareciam e
desapareciam em redemoinhos. Conseguiu ler em letras
maiores o já familiar: "Makievum Makievaas".
As letras pareciam olhar para ele invadindo-lhe a alma.
Foi a gota de água. Crisóstomo não aguentou mais e
fugiu com todas as forças que tinha, tropeçando pelo
caminho em tudo o que lhe aparecia à frente.
Já na sua árvore de refugio, tentou-se acalmar. Os ecos
tinham desaparecido assim como o ar pesado.
"Voodoo. Voodoo esquisito, mas definitivamente
voodoo." - Repetiu mentalmente. - Mas o que quererá
ele fazer com isso?
Crisóstomo sabia perfeitamente que se tratava deste tipo
de magia negra por já o ter estudado anteriormente. No
entanto, era diferente de todos os outros rituais que
tinha lido nos velhos livros ou visto na tv. Uma coisa
era certa, tinha algo a vêr com o maldito livro e o que
nele estava escrito. Quando se aproximara da cova aquelas
palavras não paravam de soar na sua cabeça. Parecia que
uma multitude de almas moribundas se uniam a gritar em
uníssono aquelas palavras maléficas. O estranho é que
parecia ser um grito de clemência, uma clemência que
nunca mais chegava. Palavras maléficas mas num grito de
escravidão.
Subitamente foi assaltado por um sentimento de angústia,
de pena. Não sabia porquê. Depois sentiu um arrepio.
Olhou para o portão, o coveiro voltara.
O homem negro atravessou a entrada soltando uns
grunhidos, talvez maldizendo a sua sorte. Aproximou-se a
passos largos e pesados, estancou junto à cova. Ficou
ali parado em transe, olhar fixado no chão, quase de
costas para onde Crisóstomo estava. O rapaz observava do
seu ramo numa tensão agravada pela situação anterior.
Ainda suando com o coração descontrolado.
De repente, o coveiro voltou a cabeça na sua exacta
direcção. Crisóstomo ficou petrificado, interrompeu a
respiração num gesto reflexo, não queria acreditar. O
homem negro olhando na sua direcção com os olhos
enormes revirados em branco desenhava um sorriso ainda
mais branco e diabólico, de proporções anormais.
Parecia que alguém ou algo lhe segredara o que
acontecera na sua ausência e lhe dissera onde ele
estava.
- Céus! Estou perdido! - Rogou baixinho.
As palavras malditas recomeçaram a ecoar na sua cabeça,
cada grito mais forte que o anterior. Tapou os ouvidos,
não resultou. Enlouquecia. O coveiro continuava na mesma
posição, agora acompanhando as palavras que surgiam do
nada com a própria boca, murmurando.
- Makievum Makievaas! Makievum Makievaas! - Aumentava
progressivamente a tom de voz. - Makievum Makievaas!
Com a cabeça latejando, Crisóstomo desceu a árvore
quase caindo. As palavras do coveiro, poderosas, abafavam
já os ecos na sua cabeça.
- Makievum Makievaas! - Proferia freneticamente com a
boca.
Começou-lhe a sair sangue pelo nariz. Tentou gritar por
socorro mas as palavras saíam-lhe abafadas, inaudíveis.
Entrou em pânico. Mas não podia, tinha de se acalmar,
concentrou-se. Só assim teria alguma hipótese. Não
conseguia se mover.
- Makievum Makievaas! - Continuava o coveiro. Parou.
Gargalhou de forma rouca.
Olhando-o fixamente, começou a falar em tom baixo e
continuamente em francês. Versos enrolados eram
vomitados rapidamente sem parar. Crisóstomo, mesmo sendo
bom aluno a francês não conseguia acompanhá-lo. Tirava
uma palavra ali e acolá mas não conseguia perceber
nada. Finalmente rematou
- "Makievum Makievaas!" - Parou novamente e
olhou para o céu de carvão.
- À tous âmes damnée! À tous âmes en peine! Je vous
commande! - Baixou os olhos para Crisóstomo - tu vas
mourir!!!
Crisóstomo sentiu o pânico invadir-lhe novamente todos
os poros do corpo. O coveiro ia matá-lo. Chamava por
almas condenadas e em sofrimento. Ia morrer e
ironicamente estava no sitio certo para isso lembrou-se.
Nunca ninguém iria encontrá-lo - "Iria enterra-lo
vivo?" - pensou.
- Makievum Makievaas! - Gritou o homem negro ainda mais
grotescamente. Levantou os braços.
O rapaz viu então horrificado todas as campas do
cemitério se erguendo em espasmos. Blocos inteiros de
terra subindo e subindo parando a três ou quatro metros
do chão.
- À tous âmes damnée! - Repetiu - À tous âmes en
peine!
De cada cova aberta saíram nuvens escuras pairando e
gemendo sob os blocos de terra levantados. Revolviam-se e
rodavam num tremor inimaginável. Coagulavam e pulsavam
em corpos inexistentes. Todas elas emitindo as mesmas
palavras do coveiro mas numa frequência de som a lembrar
o infinito. O homem estava outra vez em estado de transe,
levitando entre elas na mesma posição em que ficara,
com os olhos revirados.
As nuvens de trevas iniciaram uma rota de colisão com o
rapaz, aproximando-se lentamente, sempre gemendo.
- Calma Crisóstomo, calma! - Murmurou. - Fica frio e
pensa, pensa, não pares de pensar. - Tinha de fazer algo
ou então ia desta para melhor. Nem queria sequer
imaginar qual seria a sensação do toque daquelas massas
etéreas horrendas.
Acalmar-se era a chave da sua salvação, mesmo com a
cabeça quase a rebentar invadida por pensamentos
impossíveis e palavras loucas. Tinha de haver algo que o
pudesse libertar, algum ponto fraco no ritual do coveiro.
Segundo o que tinha lido, havia sempre um
contra-procedimento que anulasse os efeitos da magia
negra, qualquer que fosse o tipo ou origem. Tinha
forçosamente de haver algo, começou a associar o que
tinha aprendido.
As nuvens estavam a ficar perigosamente perto. Rodeando-o
por todos os lados e formando uma só massa turbilhante.
Com uma concentração só dele, Crisóstomo lembrou-se
quando se tinha aproximado da cova e visto os objectos
voodoo pela primeira vez. Pelo sotaque afrancesado, o
coveiro mostrara que se tratava de um voodoo originário
de alguma ilha remota do pacífico sul, mas não via por
onde isso o poderia ajudar. A não ser, claro está, que
tinha de responder na mesma linguagem imposta, isto é, o
francês. A cruz invertida somente significava que o
bruxo coveiro renunciava a qualquer deus que fosse e
desejava o domínio do demónio, o instrumento usado para
isso eram as almas que acabavam de ser enterradas e eram
convertidas para servir o demo. Depois o som ecoante, o
coveiro comandando as almas penadas, as palavras no
livro, Makievum Makievaas...
"Mas claro! Só poda ser isso!" - Pensou ele
já com uma mancha negra em fúria a tapar-lhe todo o
campo de visão.
Lembrou-se dos gritos agonizantes daquelas almas sempre
repetindo as palavras do livro. As pobres não eram
convertidas ao estado maléfico como tinha pensado mas
sim mantidas em escravidão como servas. Cada uma na sua
campa numa verdadeira masmorra demoníaca, para
posteriormente serem controladas.
Tinha de agir rápido pois começava a sentir-se fraco.
Parecia que as almas lhe sugavam toda a sua essência de
vida. Escolheu as melhores palavras que sabia e reuniu
todas as forças que pôde, a resposta tinha de estar no
que acreditava.
- Dieu veuille avoir sons âmes!!! - Gritou aclamando que
Deus viesse libertar as almas.
Nada aconteceu.
- Dieu veuille avoir sons âmes! - Repetiu quase sem
forças.
Nada. Estava desesperado. Repetiu novamente para si
próprio - "Dieu veuille avoir... sons..."
Sentia-se desfalecer, estava tudo perdido.
Foi então que aconteceu, sem aviso. O som e as palavras
cessaram. O turbilhão na cabeça do rapaz também. A
nuvem pérfida formou-se numa fina névoa branca,
pairando suavemente à volta dele tocando-o levemente.
Todos os blocos de terra que flutuavam no ar caíram um
por um em estrondos abafados. O silêncio imperou.
À sua frente, o coveiro levitava agora deitado
desfalecido, os braços caídos, rodando sobre si
próprio. A neblina juntou-se à sua volta formando um
casulo de luz suave. O coveiro desapareceu lentamente
dando lugar a uma nuvem negra, ainda mais negra e
violenta do que as outras. Subiu em espiral e foi
engolida pela noite num horripilante gemido. A nuvem alva
desvaneceu-se.
Crisóstomo sentia-se envolvido por uma paz incrível,
que nunca pensara existir. Tinha sido tocado por anjos.
Perdeu as forças e desmaiou.
-o-
Acordou rodeado por um tumulto de pessoas chamando-o e
com a mãe tentando reanima-lo. Sentou-se e sorriu,
lembrou-se que vencera o bruxo demónio.
As pessoas interrogavam-se sobre o que tinha provocado
aquela confusão endiabrada no cemitério. Campas
semiabertas, imensos blocos de terra encavilhados
diagonalmente nas covas e espalhados pelo chão, o rapaz
no meio daquela algazarra toda a sorrir sem razão
aparente. No entanto e sem perceberem muito bem porquê,
sentiram todos uma paz imensa inundar-lhes a alma. Era
engraçado, não entendiam mas pressentiam que também
não precisavam compreender. Deixaram de fazer perguntas
e dirigiram-se todos para as suas casas, todos com um
leve sorriso na boca, como Crisóstomo.

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