Breves
histórias de coveiros: "Fome" "Pequenos são aqueles que não
soltam a sua alma" - misticulava Recândido.
Recândido Luís Zacarias era seu nome completo. Coveiro
de profissão, com muita honra. Levava em cima já 43
anos e a bonita fatia de 24 nesta árdua mas digníssima
actividade. A pá era uma das poucas companhias que
tinha. Nunca se tinha casado nem pensava fazê-lo. Pra
quê? Chatices já as tinha que chegasse, não, nem
pensava fazê-lo. Por muito que lhe azucrinassem a
paciência, era feliz assim.
"Grandes são aqueles que olham na escuridão e vêm
a luz..." - tornou a pensar. Sentado no caixão
semiaberto, revirou a manga esquerda da camisa.
- Quatro menos um quarto, hmm, ainda tenho muito tempo -
murmurou em voz baixa enquanto carinhosamente contornava
com o dedo o seu velho Timex.
Esticou um pouco as pernas e atiçou com um galho a
pequena fogueira que alegremente brincava à sua frente.
As labaredas dançavam num ritmo inquieto proporcionando
um espectáculo único de sombras em movimento no monte
de terra que ali se erguia. Recândido fixou as sombras,
quase apalermado, acompanhando depois as faúlhas que se
lançavam endiabradas misturando-se com as estrelas.
"Existirão coisas mais lindas? As sombras? A terra?
As faúlhas incendiando o negro da noite?" -
Poetizou.
Há muito tempo que fazia este ritual, era o seu único
regozijo na vida. Depois de uma semana de intenso
trabalho, dirigia-se ao seu tão amado cemitério e
deliciava-se num mar de cerimónias que só ele conhecia.
Sentia-se completo, feliz.
Voltou-se na direcção de um som surdo. Não era nada. O
vento talvez.
Enclinou-se um pouco e com uma só mão apanhou e rodou a
espetada uma e outra vez. Contava-se um, dois, três,
quatro, cinco... seis, seis dedos num longo e fino espeto
de aço. Ao lado, junto às pedras que rodeavam a pequena
fogueira, jaziam mais quatro deles. Encontravam-se já em
estado de decomposição, inúteis, impróprios para
alimento.
Fitou novamente as sombras, deliciado. Uma unha saltou,
contorcionando-se em cima de uma brasa.
Começou a escrever no chão: OS FRACOS MORREM, OS
FORTES COMEM-NOS.
"Ah! Lindo... poesia!" - Continuou: MUNDO
IMUNDO, MUNDO DE FRACOS. MORREI! MORREI TODOS! E EU OS
COMEREI!
"Justiça poética. Lindo!" - Pensou satisfeito
enquanto se levantava.
Virou uma vez mais a espetada e dirigiu-se lentamente
para o outro lado da fogueira. Puxou os cabelos negros
para trás, tinha de os cortar um dia destes. Não tinha
tempo. Prendeu-os numa borracha tirada do bolso atrás da
nuca. A pele da face, pálida como Lua, esticou-se num
sorriso breve. Apetecia-lhe novamente praticar
exercício. Mirou para o chão e num só gesto apanhou a
catana que ali se encontrava espetada ferindo mortalmente
a terra mole. Estudou-a.
"És tão bela como a pá, juntas espalham a luz
onde existe escuridão!" - Os olhos brilhavam, quase
faiscavam.
- Mãos à obra... - sussurou.
Junto ao monte de terra erguia-se ao alto uma longa vara.
Nela empalado, um corpo pendia, já várias vezes
esquartejado. Nu, totalmente nu. Era um homem de meia
estatura, meia idade, com aspecto de estar enterrado à
poucos dias. No meio da cara várias perfurações
desenhavam um quase R, fruto de um anterior treino de
lançamento de catana.
Recândido, orgulhoso de sua pontaria, gemia endiabrado,
sorrindo e contorcendo-se sobre si mesmo, tinham sido
anos de prática. O cheiro nauseabundo não o empedia que
avançasse sobre o corpo disforme, pelo contrário, era
perfume para suas narinas. A putrefacção atraía-o,
simplesmente.
Deliciado, lançou a longa lâmina: mesmo no meio do
pescoço rachando-o a meio. Retirou-a e em golpes firmes
e precisos começou a dilacerar a coxa direita. Estocada
após estocada, carne e osso saltando. Recândido gemendo
de gozo. Gargalhadas loucas explodiam entre mordidas de
beiços. Mais carne. Mais osso. A perna cai.
Suando como um animal, estudou atentamente o objecto de
seu prazer. Ergueu lentamente o facalhão, lambeu-o.
"Longe vão os tempos da fome, da fome, maldita
fome" - baixou a cabeça, fechou os olhos, gozando o
momento. Um farrapo de carne fria como gelo escorreu-lhe
pelo braço abaixo.
Minutos passaram. Os olhos abriram-se, voltaram-se na
direcção de outro som surdo... o vento? Talvez. Estava
a ficar paranóico, tinha de se descontrair mais.
Pegou na perna pelo pé e sentou-se novamente no caixão,
perto da fogueira.
Entretanto a espetada ficara pronta e com a mão livre
retirou-a, deu uma dentada no primeiro dedo da fila
deleitando-se com o sabor. Cuspiu um pedaço de unha que
teimosamente tinha resistido ao lume. Pousando a iguaria,
retirou um espeto maior que anteriormente colocara no
caixão, enfiou-o no membro recem esfacelado e colocou-o
por sua vez sobre a fogueira apoiado em dois suportes.
Outra dentada.
Novamente, retirou uma tigela de molho das entranhas do
caixão e, com cuidado, começou a regar a perna,
rodando-a cautelosamente em cada movimento. Pousou a
gamela e deitou-se sobre o caixão, exausto. Adormeceu.
Sonhou com demónios a dançarem sobre fogueiras. Em
volta, dezenas de corpos em estacas como a dele,
esquartejados, mutilados. E ele dançava com eles, feliz.
Comia, dançava. Amava com os demónios, ele próprio era
um.
Acordou sem abrir os olhos. Um sorriso violento
esculpia-se na sua cara. Como era feliz. Sentiu o corpo
gelado e dormente, estava frio, muito frio. Abriu um olho
e... mas já era dia!
Levantou o pulso, estranhamente, quase não sentiu o
braço: seis e trinta e três! - "Ó Diabo!"
Fez um esforço para se levantar o que não conseguiu.
Tentou de novo em vão, frustrado.
"Que se passa?" - Pensou cansado e fustigado, o
frio agudo tornava-lhe o corpo cada vez mais dormente...
"Se não me despacho, as pessoas começam a aparecer
e estou perdido." - Sentiu o corpo mais entorpecido
ainda, não era normal, afinal não era só o frio.
Levantou um pouco a cabeça e reparou na sua própria
catana espetada no peito, atravessando-o até ao caixão.
A pá na barriga, esventrada.
"Mas que..." - aterrado começou a desfalecer.
A cabeça tombou-lhe, pesada como tudo. Quase a fechar os
olhos sentia a vida a escapar-lhe. Reparou então no
vulto que se encontrava ao seu lado. Abriu mais os olhos
num esforço terrível. Era uma mulher, de meia idade, um
ramo de flores morria em suas mãos, contrastando
gravemente com as vestes de luto. As lágrimas caiam-lhe
em jorros desenfreados, imparáveis. Sua face envolta
numa raiva pura, ódio duro.
Escuridão...
-o-
Afinal a morte era assim, que estranho. Escuridão. Só
escuridão. Recândido já não se sentia dormente, olhou
para seu corpo, via-o, brilhava e mais esquisito ainda,
estava inteiro. Já não percebia nada, só via
escuridão à sua volta. Não. Além...uma luz a
aproximar-se. Mas, eram demónios! Os seus demónios!
- Grandes são aqueles que olham na escuridão e vêm a
luz! - Berrou, louco.
Treze demónios erguiam-se à sua frente, não dançavam,
não se mexiam. Atrás deles, uma vara contorcia-se
espetada num chão que não existia. Todos eles com
sorrisos macabros, babando-se entre dentes. Todos eles
com facalhões enormes, reluzentes. Todos eles...olhando
esbugalhados...para Recândido.

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