Breves
histórias de coveiros: "Ganância"
Raios! Era a 3ª vez essa noite que partia o cabo da pá.
Já não se fazem pás como antigamente. Fui até à
carrinha, substituí o malfadado e continuei, faltaria
talvez um metro, mais ou menos centímetro. Com o suor
abundantemente a afogar a camisa e a terra espalhada pelo
cabelo e cara devia estar bonito, um verdadeiro bicho
saído dum filme de terror. Enfim, isto não é trabalho
para um tipo culto como eu, Francisco Diosteles Mateus.
Rai's partam a terra dura! Terra e mais terra. E depois a
lama... a lama e a droga das pedras! Todas as noites de
profanação dizia isto, e tantas noites já tinha
passado assim. Agora claro, era diferente. Desde que o
tio tinha desaparecido à 7 meses atrás que não mais me
tinha dedicado a este tipo de "actividade".
Sim, esta ia ser a derradeira noite a desenterrar um
maldito caixão.
Tá quase, devo estar mesmo a bater com a pá no caixão.
Um mocho olhou curioso empoleirado numa das cruzes dos
jazigos. Até parece que já sinto o cheiro da madeira
húmida. Mais umas pazadas e o familiar baque surgirá do
fundo da cova.
Entretanto, descansar é preciso. Cavar um túmulo desta
envergadura não é brincadeira nenhuma, ainda bem que
ainda não perdi o jeito. Apoiado na maldita pá, aspirei
umas lufadas de ar fresco e continuei.
"Op! Op! Op!" - Ritmava-me a mim mesmo em voz
baixa. Era um vício que tinha adquirido nestes anos
todos de escavações. - "Op! Op!"
O meu tio e patrão, obrigava-me a fazer este tipo de
trabalho todas as vezes que era enterrado no dia anterior
um defunto com valores significativos. Eu, claro,
protestava, mas não adiantava nada. O filho da mãe
ameaçava-me logo com o despedimento imediato, sendo eu
sobrinho ou não. Isso eu não queria, claro, também
não sou nenhum estúpido. Afinal coveiros há muitos.
Só no último mês que se fez esses ataques à mais de
meio ano atrás tinham sido mais de 20 escavadelas
altamente lucrativas. A maior parte das vitimas eram
velhas raquíticas da "haute societé", aquelas
das quintas de familias ricas. Eh! Eh! As putas das
velhas julgavam que iam usar as jóias no outro mundo
para impressionar as almas penadas "jet set".
Parvas! Tava mesmo a vêr o porco do tio a metê-las no
cofre que escondia na agência e eu... eu com 50 míseros
contos ao fim do mês. Em contrapartida o velho acumulara
uma verdadeira fortuna nos últimos 40 anos.
"Ah! Ah! Ah! Idiotas!" - O pessoal da vila
lançava palpites para o ar acerca do seu
desaparecimento. O dele e o do famigerado cofre. Sabiam
da sua fortuna porque o pobre diabo gabava-se de ser o
homem mais rico das redondezas, contava e multiplicava-se
em histórias de jóias e ouros herdados que guardava
meticulosamente num recheado cofre. Claro que só eu
sabia da verdadeira histórinha, era um caldinho muito
bem confeccionado pelo velhadas. E para o Francisco?
Sobrava alguma coisa? Calos! Nem desviar alguma coisa
podia, o gajo tinha tudo em inventário post mortem,
Raios o partam!
Bem, o merdoso do velho é que não me ia lixar mais a
cabeça. Amanhã mesmo, dou a agência por falida e
desapareço de cena. Sim, porque esta bosta de vida não
é para mim, eu sou culto, inteligente, bem parecido,
mereço uma vida folgada, de cavalheiro. Não é à toa
que o pessoal da vila me apelida de "Xico
Maneirão", só não gosto é quando a canalha me
chama de "Xico Covão". Mas tá bem, de
qualquer maneira os fedelhos malcheirosos não irão mais
me pôr a vista em cima.
"Tump!"
Ah! Finalmente!
Agora é só retirar a terra que falta e será a
última... e derradeira profanação! - AH! AH! AH!...
-o-
Os miúdos que se encontravam escondidos por trás da
capela do cemitério tremeram quando ouviram as
gargalhadas insanas do homem que se encontrava 30 metros
mais abaixo. O mais pequeno, sardento e com ar matreiro
desafiou o outro:
-Então agora é que queres ir embora? Agora que o maluco
vai tirar o morto?
-Não! - disse o maior indeciso e ainda a tremer -
a...agora vamos ficar.
Observaram então estupefactos o louco içar com cordas
um caixão feito de madeira simples e corriqueira.
Pousou-o ansioso no monte de terra que tinha extraído da
cova, ficando a grande e mórbida caixa de esguelha mesmo
virada na direcção dos dois pequenos. Uma mancha
molhada tingiu e escorreu pelas calças do mais minorca.
O pé direito do homem enclinou-se para trás ganhando
balanço.
-Filho da mãe! - Gritou, pontapeando o tampo com força.
Com o impacto, este saltou e caiu para o lado. Ao mesmo
tempo uma cabeça anteriormente decapitada foi cuspida e
rolou até embater numa lápide. No topo do cranio estava
bem exposta uma grande fenda que descia até aos
orifícios onde em dias mais felizes se encontravam os
olhos.
Perante visão tão aterradora, os miúdos fugiram
soluçando e tropeçando até desaparecerem por entre as
campas.
O homem, esse, parecia Lúcifer em pessoa. Deu uma
última macabreante risada e baixou-se para erguer com
enorme esforço um velho cofre, escondido no fundo do
caixão.

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