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Francisco M. Salzano
Depto. de Genética, UFRGS
A carreira
científica é peculiar em muitos aspectos. Como em
qualquer outra carreira, geralmente os mais bem sucedidos
são os que trabalham mais, que dedicam mais tempo à
profissão que escolheram. Mas na opção pela ciência há
outros aspectos a considerar; inicialmente, claro, é
necessário um bom nível intelectual. Além disto e da
dedicação apropriada é necessário também persistência.
Entre uma técnica descrita em um artigo científico e
sua implementação no laboratório há um caminho às
vezes desgastante; e as condições de trabalho para a
pesquisa científica no país estão longe de serem
ideais. Muitas vezes, portanto, é necessário até
teimosia e um certo grau de agressividade. Por outro
lado, o bom cientista vive a ciência. Não é
algo que ele deva esquecer ao final do expediente, mas
uma forma de permanência que o acompanha sempre.
Quando deve ser iniciada a carreira científica? Quanto
mais cedo, melhor. Há pesquisadores que já partilharam
o ambiente de pesquisa no útero de suas mães cientistas!
Muitos se interessaram pela resposta a questões
levantadas pelo mundo em que viviam ainda na infância.
Pelo menos uma de minhas orientadas, que depois se tornou
cientista importante e também orientou estudantes de
graduação e pós-graduação, teve seu interesse específico
voltado para a genética após estágio em nosso
Departamento, como aluna de 2o. grau. Mas a grande
maioria começa a se interessar pela ciência, mesmo, após
ingressar na universidade. Eu mesmo a iniciei, como
colaborador voluntário, no último ano do bacharelado do
então Curso de História Natural da Faculdade de
Filosofia da UFRGS.
Tanto cientistas como não-cientistas têm, muitas vezes,
uma visão errada do bolsista ou seu equivalente não-graduado,
considerando-os apenas como mão de obra barata,
destinada à execução de tarefas menos nobres.
Naturalmente isto é um erro, pois o iniciante, dentro de
suas possibilidades, deve tomar parte em todas as etapas
do processo de aquisição de um novo conhecimento.
O Brasil tem posição de vanguarda indiscutível na América
Latina por seu programa de apoio à iniciação científica,
programa que não tem qualquer paralelo, em termos de
investimento, nos outros países do continente. É
importante que ele seja mantido e mesmo ampliado, desde
que dentro de um contexto global de apoio ao
desenvolvimento científico-tecnológico e de aperfeiçoamento
do ensino de 3o. grau.
Vários pesquisadores têm escrito artigos ou livros
aconselhando os jovens, o meu predileto sendo o do Prêmio
Nobel Santiago Ramón y Cajal, "Regras e Conselhos
Sobre a Investigação Científica", publicado pela
primeira vez em 1933, a terceira edição brasileira
tendo sido editada pela T.A. Queiroz Editora (São Paulo)
em 1979. Muitos consideram tais exercícios inúteis,
pois aprendemos, realmente, levando na cabeça na prática.
Mas se existe algo que eu possa incluir como mensagem
final a este depoimento é a de que não se deve
ingressar na carreira científica com falsas idéias. Tem-se
dito que na mesma o que existe é 1% de inspiração e 99%
de transpiração! O trabalho é árduo, geralmente a
remuneração não impressiona, mas intelectualmente é
muito compensador. Por outro lado, deve ser lembrado que
as grandes revoluções, com mudanças de paradigmas,
foram realizadas por jovens. E existe coisa mais
maravilhosa do que mudar a concepção de vida de toda a
humanidade, como o fizeram Charles Darwin e Albert
Einstein?
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