O sofrimento dos soldados feridos

O sofrimento dos soldados feridos não é apenas no campo de batalha. Prolonga-se depois durante os longos meses de tratamento, através da cadeia hospitalar, desde os hospitais de campo, onde recebem os socorros de urgência, até os hospitais de retaguarda e de interior, onde a cirurgia plástica e ortopédica procura corrigir os danos causados pelos estilhaços de granadas e balas. O ferido de guerra em geral é um poliferido. Dezenas de projéteis penetram simultaneamente em seu corpo.

Quando escapa com vida, guarda sempre as marcas indeléveis das múltiplas cicatrizes.

Vejamos por exemplo, a história de um ferido de guerra, o Soldado Tertuliano Pinto Ribeiro, da 6ª Companhia do 6º RI., contada por ele mesmo:

"Sou natural de Piraí, Estado do Paraná. Segui no 1º Escalão, tomando parte nos combates de Camaiore, Monte Prano e várias outras localidades do Vale do Rio Serchio. No dia 30 de outubro de 1944, em Galicano, próximo de Barga, às quatorze horas, saí com uma patrulha, sob o comando do 2º Tenente Múcio e depois, do Sargento Rezende. Viemos pelo mato, até a vila de Molazzana, entrando por uma direção onde não havia alemães. Quando regressávamos, após obter as informações que desejávamos dos italianos, os alemães que estavam cercando a vila, abriram fogo de fuzil, metralhadoras e granadas de fuzil contra nós, ao qual respondemos. Terminada minha munição, procurei abrigar-me. Durante o tiroteio acertei vários alemães, que estavam a cento e pouco metros, pouco abrigados, " dando sopa". A lourdinha ( metralhadora alemã ) cantava dando rajadas por todos os lados, mas não atingiam os nossos.

Depois de abrigados fomos alvos da artilharia tedesca, até que uma 88 caiu dentro de nosso abrigo. Eu estava de pé quando ela caiu. A 88 é a única bomba que não assobia. Vem silenciosa e quando a gente vê, ela já estourou. Oito companheiros foram feridos, morrendo dois ao chegarem ao hospital, um matogrossense, o soldado Ribeiro e um italiano partisan. Com a explosão, fui atirado a uns três metros de distância. Meu capacete de aço voou longe. Esse foi o último tiro que os alemães deram.

Dos feridos o que mais gemia era o italiano , que foi transportado pelos patrícios pra uma casa da vila. O sangue corria por toda parte. Só às dezenove horas é que vieram os padioleiros, que não podiam andar de dia pelas estradas. Recebi cento e um estilhaços de bomba. Fui operado quatro vezes. Na primeira operação retiraram 75 estilhaços. Tive fraturas do joelho, perna e pé direitos e do tornozelo esquerdo. As últimas radiografias ainda acusam vinte estilhaços nas pernas. Cheguei a tomar doze litros de sangue, em várias transfusões.

Quando estava baixado no 38º Hospital de Evacuação, em Pisa, tomei parte na inundação desse hospital e fui transportado às pressas, para o Hospital de Livorno, debaixo de uma chuva torrencial. Estive depois em Nápoles, donde segui para os Estados Unidos, em Charleston e New Orleans, donde vim para o Rio de Janeiro, passando uma temporada no H.C.E.

( " A Epopéia dos Apeninos" - JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS - Gráfica Laemmert, Limitada - Rio ).

Fonte: http://www.reservaativa.com.br/portugues/

_________________________________________________________________

Voltar para: Contos

Voltar para: Brasil na Guerra

Voltar para: 2ª Guerra Mundial - Principal

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1