1.
JESUS E KARDEC:
ESTUDO SOBRE A NATUREZA DO CRISTO
2. PALAVRAS DE ANDR� LUIZ
1.
A MISS�O DO FILHO
(Jo�o 3, vs. 16-21)
Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unig�nito, para que todo o que nele cr� n�o pere�a, mas tenha
vida eterna! Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, n�o
para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por
ele!... Quem nele cr� n�o � julgado; o que n�o cr� j� est�
julgado, porquanto n�o cr� no nome do unig�nito Filho de Deus!
O julgamento � este: "Que a luz veio ao mundo, e os homens
amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram
m�s." Pois todo aquele que pratica o mal, aborrece a luz e
n�o se chega para a luz, a fim de n�o serem examinadas as suas
obras! E quem pratica a verdade aproxima-se da luz a fim de que
as suas obras sejam manifestas, porque s�o feitas em Deus!
JESUS EXPLICA A SUA MISS�O
(Jo�o 5, vs. 19-47)
Ent�o lhes falou Jesus:
- Em verdade, em verdade lhe digo que o Filho nada pode fazer de
si mesmo, sen�o somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo
o que este fizer, o Filho tamb�m semelhantemente o faz...
Porque o Pai ama ao Filho e lhe mostra tudo o que faz, e maiores
obras do que estas lhes mostrar�, para que se maravilhem!...
Pois assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim
tamb�m o Filho vivifica aqueles a quem quer!
E o Pai a ningu�m julga, mas ao Filho confiou todo o julgamento,
a fim de que todos honrem o Filho, do modo por que honram o
Pai... Quem n�o honra o Filho n�o honra o Pai que o enviou.
Em verdade, em verdade lhes digo: Quem ouve a minha palavra e
cr� naquele que me enviou, tem a vida eterna e n�o entra em
ju�zo, mas passa da morte para a vida!...
Em verdade, em verdade lhe digo que vem a hora, e j� chegou, em
que os mortos ouvir�o a voz do Filho de Deus; e os que o
ouvirem, viver�o!... Porque assim como o Pai tem vida em si
mesmo, tamb�m concedeu ao Filho ter vida em si mesmo.
E lhe deu autoridade para julgar, porque � o Filho do homem...
N�o se maravilhem disto, porque vem a hora em que todos os que
se acham nos t�mulos ouvir�o a sua voz e sair�o: Os que
tiverem feito o bem, para a ressurrei��o da vida; e os que
tiverem praticado o mal, para a ressurrei��o do ju�zo!...
Eu nada posso fazer de mim mesmo; na forma por que ou�o, julgo.
O meu ju�zo � justo porque n�o procuro minha pr�pria vontade,
e, sim, a daquele que me enviou! Se eu testifico a respeito de
mim mesmo, o meu testemunho n�o � verdadeiro, mas se outro � o
que testifica a meu respeito, ent�o sei que � verdadeiro o
testemunho que ele d� de mim!...
Mandaram mensageiros a Jo�o, e ele deu testemunho da verdade...
Eu, por�m, n�o aceito humano testemunho; digo-lhes, entretanto,
estas coisas, para que sejam salvos.
Ele era a l�mpada que ardia e iluminava e voc�s quiseram por
algum tempo se alegrarem com a sua luz!... Mas eu tenho maior
testemunho do que o de Jo�o; porque as obras que meu Pai me
confiou para que eu as realizasse, essas que eu fa�o,
testemunham a meu respeito e dizem que foi o Pai que me enviou...
O Pai que me enviou, esse mesmo � que tem dado testemunho de
mim... Mas jamais ouviram voc�s a sua voz e nem viram a sua
forma, e tamb�m n�o tem a sua palavra permanente, em si mesmos,
porque n�o acreditam naquele que me enviou...
Voc�s examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida
eterna, e s�o elas mesmas que testificam de mim!... Contudo,
n�o querem vir a mim para terem vida!
Eu n�o aceito gl�ria que vem dos homens; e sei, entretanto, que
voc�s n�o possuem em si o amor de Deus!
Eu vim em nome de meu Pai e voc�s n�o me recebem; se outro vier
em seu pr�prio nome, certamente o receber�o!... Ent�o como
podem crer, voc�s que aceitam gl�ria uns dos outros, e contudo
n�o procuram a gl�ria que vem de seu Deus �nico?
N�o pensem que eu os acusarei perante o Pai; quem os acusa �
Mois�s, em quem voc�s tem firmado a sua confian�a... Porque se
de fato acreditassem em Mois�s, tamb�m acreditariam em mim;
porquanto ele escreveu a meu respeito...
Se, por�m, n�o cr�em em seus escritos, como crer�o nas minhas
palavras?
O RESUMO DO ENSINO DE JESUS
(Jo�o 12, vs. 44-50).
E Jesus clamou , dizendo:
- Quem cr� em mim, cr�, n�o em mim, mas naquele que me
enviou!... E quem me v� a mim, v� aquele que me enviou!... Eu
vim como Luz para o mundo, a fim de que todo aquele que cr� em
mim n�o permane�a nas trevas! Se algu�m ouvir as minhas
palavras e n�o as guardar, eu n�o o julgo; porque eu n�o vim
para julgar o mundo, e, sim, para salv�-lo!... Quem me rejeita e
n�o recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a pr�pria
palavra que tenho proferido, essa o julgar� no �ltimo dia!...
Porque eu n�o tenho falado por mim mesmo, mas o Pai que me
enviou, este tem me prescrito o que dizer e o que anunciar...
E sei que o seu mandamento � a vida eterna! As coisas, pois, que
eu falo, como o Pai me tem dito, assim falo!...
ALLAN
KARDEC: I - FONTE DAS PROVAS DA NATUREZA DO CRISTO:
A quest�o da natureza do Cristo foi debatida desde os primeiro
s�culos do Cristianismo, e pode-se dizer que n�o est� ainda
resolvida, uma vez que � ainda discutida em nossos dias. Foi a
diferen�a de opini�o sobre este ponto, que deu nascimento �
maioria das seitas que dividiram a Igreja h� dezoito s�culos, e
� not�vel que todos os chefes dessas seitas foram bispos ou
membros do clero com diversos t�tulos. Por conseguinte, eram
homens esclarecidos, a maioria escritores de talento, nutridos na
ci�ncia teos�fica, que n�o achavam concludentes a raz�es
evocadas em favor do dogma da divindade do Cristo; n�o obstante,
ent�o como hoje, as opini�es se formarem sobre abstra��es,
mais do que sobre fatos, procurou-se, sobretudo, o que o dogma
poderia ter de plaus�vel ou de irracional, e, geralmente, se
negligenciou, de parte a parte, em fazer ressaltar os fatos que
poderiam lan�ar, sobre a quest�o, uma luz decisiva.
Mas onde encontrar esses fatos se isso n�o for nos atos e nas
palavras de Jesus?
Jesus, nada tendo escrito, seus �nicos historiadores foram os
ap�stolos que, eles n�o mais, nada escreveram quando vivos;
n�o tendo nenhuma hist�ria profana contempor�nea falado dele,
n�o existe sobre a sua vida e sobre a sua doutrina, nenhum outro
documento sen�o os Evangelhos; portanto, � ali somente que �
necess�rio procurar a chave do problema. Todos os escritos
posteriores, sem disso excetuar os de Paulo de Tarso, n�o s�o,
e nem podem ser, sen�o coment�rios e aprecia��es, reflexo de
opini�es pessoais, freq�entemente contradit�rias, que n�o
poderiam, em nenhum caso, ter a autoridade do relato daqueles que
receberam as instru��es diretamente do Mestre.
Sobre essa quest�o, como sobre todos os dogmas em geral, o
acordo dos Pais da Igreja, e outros escritores sacros, n�o
poderia ser evocado como argumento preponderante, nem como uma
prova irrecus�vel em favor de sua opini�o, tendo em vista que
nenhum deles pode citar um �nico fato, fora do Evangelho,
concernente a Jesus, nenhum deles descobriu documentos novos
desconhecidos de seus predecessores.
Os autores sacros n�o puderam sen�o voltar sobre o mesmo
c�rculo, dar a sua aprecia��o pessoal, tirar conseq��ncias
de seu ponto de vista, comentar sob novas formas, e com mais ou
menos desenvolvimento, as opini�es contradit�rias. Todos os do
mesmo partido deveram escrever no mesmo sentido, sen�o nos
mesmos termos, sob pena de serem declarados her�ticos, como
foram Or�genes e tantos outros. Naturalmente a Igreja n�o
colocou, entre seus Pais, sen�o os escritores ortodoxos do seu
ponto de vista; ela n�o exaltou, santificou e colecionou sen�o
aqueles que tomaram a sua defesa, ao passo que rejeitou os outros
e destruiu os seus escritos tanto quanto poss�vel. O acordo
entre os Pais da Igreja, portanto, nada tem de concludente, uma
vez que � uma unanimidade de escolha formada pela elimina��o
dos elementos contr�rios. Se se leva em considera��o tudo o
que foi escrito pr� e contra, n�o se sabe muito de que lado
penderia a balan�a.
Isso nada tira ao m�rito pessoal dos sustentadores da ortodoxia,
nem ao seu valor como escritores e homens conscienciosos; foram
os advogados de uma mesma causa, que defenderam com
incontest�vel talento, e deveriam, for�osamente, chegar �s
mesmas conclus�es. Longe de querer denegri-los, em que quer que
seja, quisemos simplesmente refutar o valor das conseq��ncias
que se pretende tirar do acordo.
No exame que vamos fazer, da quest�o da divindade do Cristo,
pondo de lado as sutilezas da escol�stica que n�o serviram
sen�o para embrulhar em lugar de elucidar, nos apoiaremos
exclusivamente sobre os fatos que ressaltam do texto do
Evangelho, e que, examinados friamente, conscienciosamente, sem
id�ia preconcebida, fornecem superabundantemente todos os meios
de convic��o que se possam desejar. Ora, entre esses fatos,
n�o h� de mais preponderante, nem de mais concludentes, sen�o
as palavras mesmas do Cristo, palavras que n�o se saberia
recusar nem infirmar a veracidade dos ap�stolos. Pode-se
interpretar de diferentes maneiras uma palavra, uma alegoria; mas
afirma��es precisas, sem ambig�idade, cem vezes repetidas,
n�o poderiam ter um duplo sentido. Nenhum outro, sen�o Jesus,
pode pretender saber melhor do que ele o que quis dizer, como
ningu�m pode pretender estar melhor informado do que ele sobre
sua pr�pria natureza: quando ele comenta as suas palavras, e as
explica, para evitar todo equ�voco, deve-se confiar nele, a
menos lhe neguemos a superioridade que se lhe atribui, e
substituamos a sua pr�pria intelig�ncia. Se foi obscuro em
certos pontos, quando se serviu de linguagem figurada, sobre o
que toca � sua pessoa n�o h� equ�voco poss�vel. Antes do
exame das palavras, vejamos os atos.
II - A DIVINDADE DO CRISTO EST� PROVADA PELOS MILAGRES?
Segundo a Igreja, a divindade do Cristo est�
estabelecida, principalmente pelos milagres, como testemunho de
um poder sobrenatural. Esta considera��o p�de ter um certo
peso numa �poca em que o maravilhoso era aceito sem exame; mas
hoje, que a Ci�ncia levou as suas investiga��es at� as leis
da Natureza, os milagres encontram mais incr�dulos que crentes;
e o que n�o contribuiu pouco para o seu descr�dito, foi o abuso
das imita��es fraudulentas e a explora��o que deles se fez. A
f� nos milagres foi destru�da pelo pr�prio uso que dela se
fez; disso resultou que os do Evangelho s�o agora considerados,
por muitas pessoas, como puramente legend�rios.
A Igreja, ali�s, ela mesma, retira aos milagres toda a sua
import�ncia, como prova da divindade do Cristo declarando que o
dem�nio tamb�m pode faz�-los t�o prodigiosos quanto ele:
porque se o dem�nio tem um tal poder, fica evidente que os fatos
desse g�nero n�o tem, de nenhum modo, um car�ter
exclusivamente divino; se ele pode fazer coisas admir�veis para
seduzir mesmo os eleitos, como simples mortais poderiam
distinguir os bons milagres dos maus, e n�o h� a temer que,
vendo fatos similares, n�o confundam Deus e Satan�s?
Dar a Jesus um tal rival em habilidade era uma grande falta de
jeito; mas que respeita a contradi��es e inconseq��ncias,
n�o eram olhadas de t�o perto em uma �poca em que os fi�is
ter-se-iam feito um caso de consci�ncia em pensar por eles
mesmos, e de discutir o menor artigo imposto � sua cren�a;
ent�o, n�o se contava com o progresso e n�o se pensava que o
reino da f� cega e ing�nua, reino c�modo como o do bel prazer,
pudesse ter um termo. O papel, t�o preponderante que a Igreja se
obstinou em dar ao dem�nio, teve conseq��ncias desastrosas
para a f�, � medida que os homens se sentiram capazes de ver
pelos pr�prios olhos. O dem�nio, que se explorou com sucesso
durante um tempo, tornou-se o machado posto ao velho edif�cio
das cren�as, e uma das principais causas da incredulidade;
pode-se dizer que a Igreja, se fazendo dele um auxiliar
indispens�vel, alimentou em seu seio aquele que deveria virar-se
contra ela e min�-la em seus fundamentos.
Uma outro considera��o n�o menos grave, � que os fatos
miraculosos n�o s�o privil�gio exclusivo da religi�o crist�:
n�o h�, com efeito, uma religi�o id�latra ou pag�, que n�o
teve os seus milagres, t�o maravilhosos e t�o aut�nticos, para
os adeptos, quanto os do cristianismo. A Igreja se tirou o
direito de constat�-los, atribuindo �s pot�ncias infernais o
poder de produzi-los.
O car�ter essencial do milagre, no sentido teol�gico, � ser
uma exce��o nas leis da Natureza, e, por conseguinte,
inexplic�vel por essas mesmas leis. Desde o instante em que um
fato pode se explicar, e que se ligue a uma causa conhecida,
cessa de ser milagre. Assim � que as descobertas da Ci�ncia
fizeram entrar no dom�nio do natural, certos efeitos
qualificados de prod�gios enquanto a causa ficou ignorada. Mais
tarde, o conhecimento do princ�pio espiritual, da a��o dos
fluidos sobre a economia, do mundo invis�vel no meio do qual
vivemos, das faculdades da alma, da exist�ncia e das
propriedades do perisp�rito, deu a chave dos fen�menos de ordem
ps�quica, e provou que n�o s�o, n�o mais do que os outros,
derroga��o �s leis da Natureza, mas que, ao contr�rio, delas
s�o aplica��es freq�entes. Todos os efeitos de magnetismo, de
sonambulismo, de �xtase, de dupla vista, de hipnotismo, de
catalepsia, de anestesia, de transmiss�o do pensamento, de
presci�ncia, de curas instant�neas, de possess�es, de
obsess�es, de apari��es e de transfigura��es, etc., que
constituem quase a totalidade dos milagres do Evangelho,
pertencem a essa categoria de fen�menos.
Sabe-se agora que esses efeitos s�o o resultado de aptid�es e
de disposi��es fisiol�gicas especiais; que se produziram em
todos os tempos, entre todos os povos, e puderam ser considerados
como sobrenaturais sob o mesmo t�tulo de todos aqueles cuja
causa era incompreendida. Isso explica porque todas as religi�es
tiveram os seus milagres, que n�o s�o outros sen�o os fatos
naturais, mas quase sempre amplificados ao absurdo pela
credulidade, a ignor�ncia e a supersti��o, e que os
conhecimentos atuais reduziram ao seu justo valor, permitindo
lev�-los em conta de lenda.
A possibilidade da maioria dos fatos que o Evangelho cita como
tendo sido realizados por Jesus, est� hoje completamente
demonstrada pelo Magnetismo e pelo espiritismo, enquanto
fen�menos naturais. Uma vez que se produzem sob os nossos olhos,
seja espontaneamente, seja por provoca��o, n�o h� nada de
anormal em que Jesus possu�sse faculdades id�nticas �s de
nossos magnetizadores, curadores, son�mbulos, videntes,
m�diuns, etc. Desde o instante que essas mesmas faculdades se
encontram, em diferentes graus, numa multid�o de indiv�duos que
nada tem de divino, que s�o encontradas mesmo entre os
her�ticos e os id�latras, elas n�o implicam, em nada, uma
natureza sobre-humana.
Se Jesus qualificava, ele mesmo, os seus atos de milagres, � que
nisso, como em muitas outras coisas, devia apropriar a sua
linguagem aos conhecimentos de seus contempor�neos; como estes
poderiam aprender uma nuan�a de palavra que n�o � ainda
compreendida por todo mundo? Para o vulgo, as coisas
extraordin�rias que ele fazia, e que pareciam sobrenaturais,
naquele tempo e mesmo muito mais tarde, eram milagres; n�o podia
dar-lhe um outro nome. Um fato digno de nota � que deles se
serviu para afirmar a miss�o que tinha de Deus, segundo as
pr�prias express�es, mas disso jamais se prevaleceu para se
atribuir o poder divino .
� necess�rio, pois, riscar os milagres das provas sobre as
quais se pretende fundar a divindade da pessoa do Cristo; vejamos
agora se as encontramos em suas palavras.
III - A DIVINDADE DE JESUS EST� PROVADA PELAS SUAS
PALAVRAS?
Dirigindo-se aos disc�pulos, que entraram em disputa,
para saber qual dentre eles era o maior; e lhes disse pegando uma
crian�a e colocando-a junto a si:
"Quem me recebe, recebe aquele que me enviou, porque aquele
que � o menor entre v�s, � o maior." (Lucas 9, v. 48)
"Quem recebe em meu nome uma criancinha como esta, me
recebe, e quem me recebe, n�o recebe s� a mim, mas recebe
aquele que me enviou." (Marcos 9, v. 36)
"Jesus lhes disse, pois: "Se Deus fosse o vosso Pai, me
amar�eis, porque foi de Deus que eu sa�, e que � de sua parte
que vim; porque n�o vim por mim mesmo, mas foi ele quem me
envi-ou." (Jo�o 8, v.42)
"Jesus lhes disse, pois: "Estou ainda convosco por um
pouco de tempo, e em seguida vou para aquele que me enviou."
(Jo�o 7, v, 33)
"Aquele que vos escuta me escuta; aquele que vos despreza me
despreza, e quem me des-preza, despreza aquele que me
enviou." (Jo�o 10, v. 16)
ALLAN KARDEC: O dogma da divindade de Jesus
est� fundado sobre a igualdade absoluta entre a sua pessoa e
Deus, uma vez que � o pr�prio Deus; � um artigo de f�; ora,
estas palavras t�o freq�entemente repetidas por Jesus: Aquele
que me enviou, testemunham n�o somente quanto a dualidade das
pessoas, mas, ainda, como dissemos, excluem a igualdade absoluta
entre elas; porque aquele que � enviado, necessariamente, est�
subordinado �quele que envia; obedecendo, faz ato de submiss�o.
Um embaixador, falando de seu soberano, dir�: Meu senhor, aquele
que em enviou; mas se � o soberano em pessoa que vem, ele
falar� em seu pr�prio nome e n�o dir�: Aquele que me enviou,
porque n�o se pode enviar a si mesmo. Jesus o disse, em termos
categ�ricos por estas palavras: Eu n�o vim por mim mesmo, mas
foi ele quem me enviou.
Estas palavras: Aquele que me despreza, despreza aquele que me
enviou, n�o implicam, de nenhum modo, a igualdade e ainda menos
a identidade; em todos os tempos, o insulto feito a um embaixador
era considerado como feito ao pr�prio soberano. Os ap�stolos
tinham a palavra de Jesus, como Jesus tinha a de Deus; quando
lhes disse: Aquele que vos escuta me escuta, n�o entendia dizer
que seus ap�stolos e ele n�o faziam sen�o uma �nica pessoa,
igual em todas as coisas.
A dualidade de pessoas, assim como o estado secund�rio e
subordinado de Jesus, com rela��o a Deus, ressaltam, al�m
disso, sem equ�voco, das passagens seguintes:
"Fostes v�s que permanecestes sempre firmes comigo nas
minhas tenta��es. - Por isso vos preparo o Reino, como meu Pai
mo preparou, - a fim de que comais e bebeis � minha mesa no meu
reino, e que vos senteis sobre os tronos para julgar as doze
tribos de Israel." (Lucas 22, v.28/29/30)
Por mim eu digo o que vi na casa de meu Pai, fazei v�s o que
vistes na casa de vosso pai." (Jo�o 8, v. 38)
"Ao mesmo tempo apareceu uma nuvem que os cobriu, e saiu
dessa nuvem uma voz que fez ouvir estas palavras: Este � meu
filho bem-amado; escutai-o." (Transfigura��o - Marcos 9,
v. 6)
"Ora, eu vos declaro que quem me confessar e me reconhecer
diante dos homens, o filho do homem o reconhecer� tamb�m diante
dos anjos de Deus; mas se algu�m me renunciar diante dos homens,
eu o renunciarei tamb�m diante dos anjos de Deus." (Lucas
12, v. 8/9)
"Mas se algu�m se envergonhar de mim e de minhas palavras,
o filho do homem se envergonhar� tamb�m dele, quando vier em
sua gl�ria e na de seu Pai e dos santos anjos. (Lucas 9, v.26)
ALLAN KARDEC: Nestas duas �ltimas passagens,
Jesus parecia mesmo colocar acima dele os santos anjos, compondo
o tribunal celeste, diante do qual seria o defensor dos bons e o
acusador dos maus.
"Mas por aquilo que � de estar sentado � minha direita ou
� minha esquerda, n�o � a mim, de nenhum modo, que cabe vo-lo
dar, mas ser� por aquele a quem meu Pai preparou. (Mateus 20,
v.23)
"Ora, os Fariseus estando reunidos, Jesus lhes fez esta
pergunta: "Que vos parece do Cristo? De quem � filho? Eles
lhe responderam: De Davi. - E como, pois, lhes disse, Davi
chama-o em esp�rito o seu Senhor com estas palavras: O Senhor
disse ao meu Senhor: Sentai-vos � minha direita at� que reduza
os vossos inimigos a vos servir de escabelo? Se, pois, Davi
chama-o seu Senhor, como � seu filho? (Mateus 22, vs. 41-45)
ALLAN
KARDEC: Jesus consagra, com estas palavras, o princ�pio
da diferen�a hier�rquica que existe entre o Pai e o Filho.
Jesus podia ser o filho de Davi por filia��o corp�rea, e como
descendente de sua ra�a, foi porque teve o cuidado de ajuntar:
"Como o chama em esp�rito, seu Senhor? Se h� uma
diferen�a hier�rquica entre o pai e o filho; Jesus, como filho
de Deus, n�o pode ser o igual de Deus.
Jesus confirma esta interpreta��o e reconhece sua inferioridade
em rela��o a Deus, em termos que n�o deixam equ�voco
poss�vel:
"Ouvistes o que vos disse? Eu me vou, e volto a v�s. Se me
amais, vos alegrareis de que vou para meu Pai, porque meu Pai �
MAIOR DO QUE EU. (Jo�o 14, v. 28)
"Ent�o um jovem se aproxima e lhe diz: Bom Mestre, que bem
� necess�rio que eu fa�a para adquirir a vida eterna? - Jesus
lhe respondeu: Por que me chamais bom? N�o h� sen�o Deus que
seja bom. Se quereis entrar na vida, guardai os
mandamentos." (Mateus 19, v.16/17; Marcos 10, v. 17/19;
Lucas 18, v. 18/19)
ALLAN KARDEC: N�o somente Jesus n�o se deu, em
nenhuma circunst�ncia, o t�tulo de igual de Deus, mas aqui ele
afirma positivamente o contr�rio, considerando-se como inferior
em bondade. Ora, declarar que Deus est� acima dele pelo poder e
suas qualidade morais, � dizer que ele mesmo n�o � Deus. As
passagens seguintes v�m em apoio destas, e s�o tamb�m
expl�citas:
"N�o falei de nenhum modo, de mim mesmo; mas meu Pai, que
me enviou, foi quem me prescreveu, por seu poder, o que devo
dizer, e como devo falar; - e eu sei que o seu poder � a vida
eterna; o que eu digo, pois, o digo segundo o que meu Pai me
ordenou. (Jo�o 12, v. 49/50)
"N�o posso nada fazer de mim mesmo. Julgo segundo o que
entendo, e meu julgamento � justo porque n�o procuro minha
vontade, mas a vontade daquele que me enviou. (Jo�o 5, v. 30)
ALLAN KARDEC: Desde ent�o, que ele n�o disse
nada de si mesmo, que a doutrina que ensinou n�o � sua, mas que
a tem de Deus, que lhe ordenou vir faz�-la conhecer ; que n�o
faz sen�o o que Deus lhe deu o poder de fazer, que a verdade que
ensina, ele aprendeu de Deus, � vontade de quem est� submetido;
� que n�o � o pr�prio Deus, mas seu enviado, seu messias e
seu subordinado.
� imposs�vel recusar, de maneira mais positiva, toda
assimila��o � pessoa de Deus, e de determinar seu principal
papel em termos mais precisos. N�o est�o a� pensamentos
ocultos sob o v�u da alegoria, e que n�o se descobrem sen�o �
for�a de interpreta��o: � o sentido pr�prio, expresso sem
ambig�idade.
Se se objetasse que Deus, n�o querendo se fazer conhecer na
pessoa de Jesus, enganasse sobre a sua individualidade,
poder-se-ia perguntar sobre o qu� est� fundada essa opini�o, e
quem tem autoridade para sondar o fundo de seu pensamento, e dar,
�s suas palavras, um sentido contr�rio �quele que elas
exprimem? Uma vez que, quando vivo, ningu�m o considerava como
Deus, mas era olhado, ao contr�rio, como um messias, se n�o
quisesse ser conhecido pelo que era, bastar-lhe-ia nada dizer. De
sua afirma��o espont�nea � preciso concluir que ele n�o era
Deus, ou que, se o era, voluntariamente e sem utilidade, disse
uma coisa falsa.
� de notar-se que Jo�o, aquele dos Evangelistas sobre a
autoridade de quem mais se apoiou para estabelecer o dogma da
divindade do Cristo, seja precisamente o que encerra os
argumentos contr�rios mais numerosos e os mais positivos;
pode-se disso convencer pela leitura das passagens seguintes, que
n�o acrescentam nada, � verdade, �s provas j� citadas, mas
v�m em seu apoio, porque delas ressaltam evidentemente a
dualidade e a desigualdade das pessoas:
"Por causa disso, os Judeus perseguiam Jesus e procuravam
faz�-lo morrer, porque fizera essas coisas no S�bado. - Mas
Jesus lhes disse: Meu Pai age at� o presente, e eu ajo
tamb�m." (Jo�o 5, v. 16/17)
"Ent�o Jesus orou:
- Pai, � chegada a hora; glorifique a teu Filho, para que o
Filho te glorifique; assim como lhe conferiu autoridade sobre
toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os
que lhe destes!...
E a vida eterna � esta: que te reconhe�am como o �nico Deus
verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviastes!
Eu te glorifiquei na Terra, consumando a obra que me confiastes
para fazer; e agora, glorifique-me, � Pai, contigo mesmo, com a
gl�ria que eu tive junto a Ti , antes que houvesse mundo!
Manifestei o teu nome aos homens que me destes do mundo. Eram
teus, Tu os confiastes � mim, e eles tem guardado a Tua
Palavra...
Agora eles reconhecem que todas as coisas que me tem dado prov�m
de Ti; porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me destes
e eles as receberam e verdadeiramente conheceram que sai de Ti, e
creram que Tu me enviastes.
� por eles que eu rogo; n�o rogo pelo mundo, mas por aqueles
que me destes, porque s�o teus; ora todas as minhas coisas s�o
Tuas e as Tuas coisas s�o minhas; e neles eu sou glorificado!
J� n�o estou no mundo; mas eles continuam no mundo, ao passo
que eu vou para junto de Ti. Pai Santo, guarde-os em Teu Nome,
para que eles sejam um, assim como n�s!
Quando eu estava com eles, guardava-os no Teu Nome, e os protegi,
e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdi��o, para que
se cumprisse a Escritura...
Mas agora vou para junto de Ti, e isso falo no mundo para que
eles tenham o meu gozo completo em si mesmos.
Eu lhes tenho dado a Tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles
n�o s�o do mundo, como eu tamb�m n�o sou!...
N�o pe�o que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal!
Santifique-os na verdade; a Tua palavra � a verdade.
Assim como me enviastes ao mundo, tamb�m eu os enviei ao mundo.
E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles
tamb�m sejam santificados na verdade!...
N�o rogo somente por estes, mas tamb�m por aqueles que vierem a
crer em mim, por interm�dio da Tua palavra; a fim de que todos
sejam um; e como �s Tu, � Pai, em mim e eu em Ti, tamb�m sejam
eles em n�s; para que o mundo creia que Tu me enviastes, e os
amou, como amou a mim!
Pai... a minha vontade � que onde eu estou, estejam tamb�m
comigo os que me destes, para que vejam minha Gl�ria, porque me
amastes antes da funda��o do mundo!...
Pai justo, o mundo n�o te conheceu; eu por�m te conheci, e
estes compreenderam que me enviastes.
Eu lhes fiz conhecer o Teu Nome, e ainda o farei conhecer, a fim
de que o amor com que Tu me amastes esteja neles e eu neles
esteja! (Jo�o 17, vs. 1-26 - A ORA��O SACERDOTAL DE JESUS)
"Ent�o Jesus, lan�ando uma grande exclama��o, disse: Meu
pai, reponho minha alma em vossas m�os. E, pronunciando estas
palavras, expirou. (Lucas 23, v. 46)
ALLAN KARDEC: Uma vez que Jesus, ao morrer,
repunha a sua alma entre as m�os de Deus, tinha, portanto, uma
alma distinta de Deus, submissa a Deus, portanto n�o era o
pr�prio Deus.
As palavras seguintes d�o testemunho de uma certa fraqueza
humana, de uma apreens�o da morte e dos sofrimentos que Jesus
vai suportar, e que contrasta com a natureza, essencialmente
divina, que se lhe atribui; mas elas testemunham, ao mesmo tempo,
uma submiss�o que � a do inferior ao superior:
"Ent�o Jesus chegou num lugar chamado Gets�mani; e disse
aos seus disc�pulos: Sentai-vos aqui enquanto vou ali para orar.
- E tendo tomado consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu,
come�ou a se entristecer e a estar numa grande afli��o. Ent�o
lhes disse: Minha alma est� triste at� a morte, permanecei aqui
e velai comigo. - e indo um pouco mais longe, se prosternou o
rosto contra a terra, pedindo e dizendo: Meu Pai, se for
poss�vel, fa�a com este c�lice se afaste de mim; n�o
obstante, que isso seja n�o como eu o quero, mas como o quereis.
- Veio em seguida para os seus disc�pulos, e tendo-os encontrado
dormindo, disse a Pedro: O qu�! N�o pudestes velar uma meia
hora comigo? - Velai e orai, a fim de n�o cairdes em tenta��o.
O Esp�rito est� pronto, mas a carne � fraca. - Foi-se ainda
orar uma segunda vez, dizendo: "Meu Pai, se este c�lice
n�o pode passar sem que eu o beba, que a vossa vontade seja
feita." (Jesus No Jardim Das Oliveiras, Mateus 26, v. 36-42)
"E na nona hora, Jesus lan�ou um grande grito, dizendo:
Eli! Eli! Lamma Sabachtrani? quer dizer: meu Deus! meu Deus!
porque me abandonastes? (Mateus 27, v. 46)
ALLAN KARDEC: As palavras seguintes poderiam
deixar alguma incerteza e dar lugar a crer numa identifica��o
de Deus com a pessoa de Jesus; mas, al�m de que n�o poderia
prevalecer sobre os termos precisos daquelas que precedem, levam
ainda, nelas mesmas, a sua pr�pria retifica��o:
"Eles lhe disserem: Quem sois v�s, pois? Jesus lhes
respondeu: Eu sou o princ�pio de todas as coisas, eu mesmo que
vos falo. - Tenho muitas coisas a dizer de v�s; mas aquele que
me enviou � verdadeiro, e n�o digo sen�o o que aprendi com
ele." (Jo�o 7, vs. 25-26)
"O que meu Pai me deu � maior que todas as coisas; e
ningu�m pode arrebat�-lo da m�o de meu Pai. Meu Pai e eu somos
uma mesma coisa." (Jo�o 10, v. 29-30)
ALLAN KARDEC: Quer dizer, que seu pai e ele n�o
s�o sen�o um pelo pensamento, uma vez que exprime o pensamento
de Deus, que ele tem a palavra de Deus.
Num outro cap�tulo, dirigindo-se aos seus disc�pulos, lhes
disse:
"Naquele dia, conhecereis que estou em meu Pai e v�s em
mim, e eu em v�s." (Jo�o 19, v. 20)
ALLAN KARDEC: Dessas palavras n�o � preciso
concluir que Deus e Jesus n�o fazem sen�o um, de outro modo
seria preciso concluir tamb�m, das mesmas palavras, que os
ap�stolos n�o fazem, igualmente, sen�o um com Deus.
IV. PALAVRAS DE JESUS DEPOIS DE SUA MORTE
"Jesus lhes respondeu: N�o me toqueis, porque
ainda n�o subi para o meu Pai; mas ide procurar os meus irm�os
e lhes dizei, de minha parte: Eu subi para o meu Pai e vosso Pai,
para meu Deus e vosso Deus." ( Apari��o a Maria Madalena,
Jo�o 20, v. 17)
"Mas Jesus, aproximando-se, assim lhes falou: Todo poder me
foi dado no c�u e sobre a Terra." (Apari��o aos
Ap�stolos, Mateus 28, v. 18)
"Ora, sois testemunhas destas coisas; - E eu vou enviar-vos
o dom de meu Pai que vos foi prometido." (Apari��o aos
Ap�stolos, Lucas 24, vs. 48-49)
ALLAN KARDEC: Tudo acusa, pois, nas palavras de
Jesus, seja quando vivo, seja depois de sua morte, uma dualidade
de pessoas perfeitamente distintas, assim como o profundo
sentimento de sua inferioridade e de sua subordina��o ao Ser
supremo. Por sua insist�ncia ao afirmar espontaneamente, sem ser
a isso constrangido, nem provocado, por quem quer que seja,
parece Jesus querer protestar de antem�o contra o papel que ele
previa que se lhe seria atribu�do um dia. Se tivesse guardado
sil�ncio sobre o car�ter de sua personalidade, o campo estaria
aberto para todas as supersti��es como a todos os sistemas; mas
a precis�o de sua linguagem afasta toda incerteza.
Que autoridade maior se pode encontrar do que as pr�prias
palavras de Jesus? Quando disse, categoricamente: sou ou n�o sou
tal coisa, quem ousaria se arrogar o direito de dar-lhe um
desmentido, fosse isso para coloc�-lo mais alto do que ele mesmo
se coloca? Quem � que, razoavelmente, pode pretender estar mais
esclarecido do que ele sobre sua pr�pria natureza? Que
interpreta��es podem prevalecer contra afirma��es t�o
formais e t�o multiplicadas como estas:
"N�o vim por mim mesmo, mas aquele que me enviou � o
�nico Deus verdadeiro. - Eu digo o que vi na casa de meu Pai. -
Eu vou para o meu Pai, porque o meu Pai � maior do que eu. - A
minha doutrina n�o � minha doutrina mas doutrina daquele que me
enviou. - Eu n�o procuro a minha vontade, mas a vontade daquele
que me enviou. - Eu vos disse a verdade que aprendi de Deus. -
V�s sois o �nico Deus verdadeiro, e Jesus Cristo que enviastes.
- Meu Pai, reponho minha alma em vossas m�os. - Eu subo para o
meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus."
ALLAN KARDEC: Quando se l� tais palavras,
pergunta-se somente como p�de vir ao pensamento dar-lhes um
sentido diametralmente oposto �quele que elas exprimem t�o
claramente, conceber uma identifica��o completa de natureza e
de poder entre o senhor e aquele que se diz seu servidor. Nesse
grande processo, que dura h� quinze s�culos, quais s�o as
pe�as de convic��o? Os Evangelhos, - n�o h� outras, - que,
sobre o ponto em lit�gio, n�o d�o lugar a nenhum equ�voco. A
esses documentos aut�nticos, que n�o se pode contestar sem se
inscrever em falso contra a veracidade dos evangelistas e do
pr�prio Jesus, documentos estabelecidos por testemunhos
oculares, que se lhes op�em? Uma doutrina te�rica puramente
especulativa, nascida tr�s s�culos mais tarde de uma pol�mica
estabelecida sobre a natureza do Verbo, vigorosamente combatida
durante v�rios s�culos, e que n�o prevaleceu sen�o pela
press�o de um poder civil absoluto.
VIII. O VERBO SE FEZ CARNE
A ENCARNA��O DO VERBO
(Jo�o 1, vs. 1-14)
No princ�pio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo
era Deus.
Ele estava no princ�pio com Deus...
Todas as coisas foram feitas por interm�dio Dele, e sem Ele nada
do que foi feito se fez.
A vida estava Nele e Ele era a Luz dos homens...
A Luz resplandeceu nas trevas e as trevas n�o prevaleceram
contra Ela!
Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era Jo�o... E este
veio como testemunha para depor a respeito da Luz, a fim de todos
virem a crer por interm�dio dele. Ele n�o era a Luz , mas veio
Dela testificar, a saber: a verdadeira Luz que, vinda ao mundo,
ilumina a todo homem...
Pois Ele (a Luz) estava no mundo, o mundo foi feito por
interm�dio Dele, mas o mundo n�o O conheceu!
Veio para o que era seu, e os seus n�o O receberam...
Mas a todos quanto O receberam, Ele lhes deu o poder de serem
filhos de Deus, a saber, aos que cr�em no seu nome; e os quais
n�o nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade
do homem, mas de Deus.
E o Verbo se fez carne e habitou entre n�s, cheio de gra�a e de
verdade, e vimos a Sua Gl�ria como o Unig�nito de Deus!...
ALLAN KARDEC: Esta passagem dos Evangelhos � a
�nica que, � primeira vista, parece encerrar implicitamente uma
id�ia de identifica��o entre Deus e a pessoa de Jesus; �
tamb�m aquela sobre a qual se estabeleceu, mais tarde, a
controv�rsia a esse respeito. Essa quest�o da divindade de
Jesus n�o chegou sen�o gradualmente; nasceu das discuss�es
levantadas a prop�sito das interpreta��es dadas, por alguns,
�s palavras Verbo e Filho. N�o foi sen�o no quarto s�culo que
ela foi adotada, em princ�pio, por uma parte da Igreja. Esse
dogma �, pois, o resultado de uma decis�o dos homens e n�o de
uma revela��o divina.
H� de in�cio a notar que, as palavras que citamos mais acima,
s�o de Jo�o, e n�o de Jesus, e que, admitindo que n�o hajam
sido alteradas, n�o exprimem, em realidade, sen�o uma opini�o
pessoal, uma indu��o onde se encontra o misticismo habitual de
sua linguagem; elas n�o poderiam, pois, prevalecer contra as
afirma��es reiteradas do pr�prio Jesus.
Mas, aceitando-as tais quais s�o, elas n�o resolvem de nenhum
modo a quest�o no sentido da divindade, porque se aplicariam
igualmente a Jesus, criatura de Deus.
Com efeito, o Verbo � Deus, porque � a palavra de Deus. Tendo
Jesus recebido essa palavra diretamente de Deus, com a miss�o de
revel�-las aos homens, assimilou-a; a palavra divina, da qual
estava penetrado, se encarnou nele; trouxe-a ao nascer, e foi com
raz�o que Jo�o p�de dizer: O Verbo se fez carne, e habitou
entre n�s. Jesus pode, pois, estar encarregado de transmitir a
palavra de Deus sem ser Deus, ele mesmo, como um embaixador
transmite as palavras de seu soberano, sem ser o soberano.
Segundo o dogma da divindade, � Deus que fala; na outra
hip�tese, ele fala pela boca de seu enviado, o que n�o rouba
nada � autoridade de suas palavras.
Mas quem autoriza essa suposi��o antes do que a outra? A �nica
autoridade competente para decidir a quest�o s�o as pr�prias
palavras de Jesus, quando disse: "Eu nunca falei de mim
mesmo, mas aquele que me enviou me prescreveu, por seu
mandamento, o que devo dizer; - minha doutrina n�o � a minha
doutrina mas a doutrina daquele que me enviou, a palavra que
ouvistes n�o � minha palavra, mas a de meu Pai que me enviou.
� imposs�vel exprimir-se com mais clareza e precis�o.
A qualidade de Messias ou enviado, que lhe � dada em todo o
curso dos Evangelhos, implica uma posi��o subordinada com
rela��o �quele que ordena; aquele que obedece n�o pode estar
igual �quele que manda. Jo�o caracteriza essa posi��o
secund�ria, e, por conseq��ncia, estabelece a dualidade das
pessoas quando diz: "E vimos a sua gl�ria, tal quanto o
filho �nico deveria receber do Pai" (na edi��o
brasileira, texto grego, l�-se: Como o unig�nito de Deus - nota
nossa); porque aquele que recebe n�o pode ser igual �quele que
d�, e aquele que d� a gl�ria n�o pode ser igual �quele que
recebe. Se Jesus � Deus, possui gl�ria por si mesmo e n�o a
espera de ningu�m; se Deus e Jesus s�o um �nico ser sob dois
nomes diferentes, n�o poderia existir entre eles nem supremacia,
nem subordina��o; desde ent�o, que n�o h� paridade absoluta
de posi��o, � que s�o dois seres distintos.
A qualifica��o de Messias divino n�o implica a igualdade entre
o mandat�rio e o mandante, como a do enviado real entre um rei e
seu representante.
Jesus era um messias divino pelo duplo motivo que tinha a sua
miss�o de Deus, e que as suas perfei��es o colocavam em
rela��o direta com Deus.
IX. FILHO DE DEUS E FILHO DO HOMEM
O t�tulo de Filho de Deus, longe de implicar a
igualdade, � bem antes o ind�cio de uma submiss�o; ora, deve
estar submetido a algu�m e n�o a si mesmo.
Para que Jesus fosse igual absoluto de Deus, seria necess�rio
que fosse como ele, de toda eternidade, quer dizer, que fosse
incriado; ora, o dogma diz que Deus o engendrou de toda
eternidade; mas quem diz engendrar diz criar, que isso seja, ou
n�o, de toda a eternidade, n�o se � menos uma criatura, e,
como tal, subordinada a seu Criador; � a id�ia impl�cita
encerrada na palavra Filho.
Jesus nasceu no tempo? De outro modo dito: foi um tempo na
eternidade, na eternidade passa, onde ele n�o existia? Ou � bem
co-eterno como o Pai? Tais s�o as sutilezas sobre as quais
discutiu-se durante os s�culos. Sobre qual autoridade se apoia a
doutrina da co-eternidade passada ao estado de dogma? Sobre a
opini�o dos homens que a estabeleceram. Mas esses homens, por
qual autoridade fundaram a sua opini�o? Isso n�o � sobre a de
Jesus, uma vez que se declara subordinado; n�o � sobre a dos
profetas que o anunciam como o enviado e servidor de Deus. Em
quais documentos desconhecidos, mais aut�nticos que os
Evangelhos encontraram essa doutrina? Aparentemente, na
consci�ncia e na superioridade de suas pr�prias luzes.
Deixemos, pois, essas v�s discuss�es que n�o poderiam
terminar, e cuja solu��o mesmo, se fora poss�vel, n�o
tornaria os homens melhores. Digamos que Jesus � Filho de Deus,
como todas as criaturas; ele o chama seu pai como n�s aprendemos
a chamar nosso Pai. � o Filho bem-amado de Deus, porque, tendo
chegado � perfei��o que o aproxima de Deus, possui toda a sua
confian�a e todo o seu afeto; ele se diz, ele mesmo, Filho
�nico, n�o que seja o �nico a ser chegado a esse grau, mas
porque s� ele estava predestinado a cumprir essa miss�o sobre a
Terra.
Se a qualifica��o de Filho de Deus parecia apoiar a doutrina da
divindade, n�o era, do mesmo modo daquela do Filho do homem que
Jesus se deu em sua miss�o, e que fez o assunto de muitos
coment�rios.
Para melhor compreender-lhe o verdadeiro sentido, � necess�rio
remontar � B�blia, onde est� dado por ele mesmo ao profeta
Ezequiel:
"Tal foi a imagem da gl�ria do Senhor que me foi
apresentada. Tendo, pois, visto estas coisas, lancei meu rosto
por Terra: e ouvi uma voz que me falava e disse: Filho do homem,
tendo-vos sobre os vossos p�s e eu falarei convosco. - E o
Esp�rito, tendo me falado da sorte, entrou em mim, e me firmou
sobre os meus p�s e eu ouvi que me falava e me dizia: Filho do
homem, eu vos envio aos filhos de Israel, para um povo ap�stata
que se retirou de mim. Violaram at� este dia, eles e seus pais,
a alian�a que fiz com eles." (Ezequiel 2, vs. 1-3)
"O Senhor me falou ainda: Filho do homem, profetizai com
respeito aos pastores de Israel; profetizai e dizei aos pastores:
Eis o que disse o Senhor Deus: Infelizes os pastores de Israel
que apascentam a si mesmos: os pastores n�o apascentam os seus
rebanhos?" (Cap. 43, vs. 1-2)
ALLAN KARDEC: � evidente que a qualifica��o
de Filho do homem quer dizer isto: que nasceu do homem, por
oposi��o �quilo que est� fora da Humanidade. A �ltima
cita��o, tirada do livro de Judite, n�o deixa d�vida sobre o
significado desta palavra, empregada num sentido muito literal.
Deus n�o designou Ezequiel sen�o sob esse nome, sem d�vida
para lhe lembrar que, apesar do dom da profecia que lhe foi
concedido, com isso n�o pertencia menos � Humanidade, e a fim
de que n�o se cresse de uma natureza excepcional.
Jesus se d� a si mesmo essa qualifica��o com uma persist�ncia
not�vel, porque n�o � sen�o em muito raras circunst�ncias
que se diz Filho de Deus. Em sua boca n�o pode ter outro
significado que o de lembrar que, tamb�m ele, pertence �
Humanidade: por a� se assimila aos profetas que o precederam e
aos quais se comparou fazendo alus�o � sua morte, quando disse:
JERUSAL�M QUE MATA OS PROFETAS? A insist�ncia que coloca em se
designar como Filho do homem, parece um protesto antecipado
contra a qualidade que prev� que se lhe dar� mais tarde, a fim
de que seja bem constatado que ela n�o saiu de sua boca.
� not�vel que, durante essa intermin�vel pol�mica que
apaixonou os homens durante uma longa s�rie de s�culos, e dura
ainda, que acendeu as fogueiras e fez verter ondas de sangue,
disputou-se sobre uma abstra��o, a natureza de Jesus, da qual
se fez a pedra angular do edif�cio, embora disso n�o haja
falado; e que se haja esquecido uma coisa, a de que o Cristo
disse ser toda a lei e os profetas: o amor de Deus e ao pr�ximo,
e a caridade, da qual fez a condi��o expressa de salva��o.
Agravou-se sobre a quest�o da afinidade de Jesus com Deus, e se
passou completamente sob sil�ncio as virtudes que ele recomendou
e das quais deu o exemplo.
Quando os homens caminharem sob essa bandeira, se estender�o
m�os fraternas, em lugar de se lan�arem an�temas e
maldi��es, por quest�es que, na maioria do tempo, n�o
compreendem. (OBRAS P�STUMAS - Estudo Sobre a
Natureza do Cristo, P�g. 116 � 151)
2.
PALAVRAS DE ANDR� LUIZ
![]()
O GRANDE DOADOR
Ele n�o era m�dico e levantou paral�ticos e restaurou
feridos, usando o divino poder do amor.
N�o era advogado e elegeu-se o supremo defensor de todos os
injusti�ados do mundo.
N�o possuia fazenda e estabeleceu novo reino na Terra.
N�o improvisava festas e consolou os tristes e reergueu o bom
�nimo das almas desesperadas.
N�o era professor consagrado e fez-se o Mestre da Evolu��o e
do Aprimoramento da Humanidade.
N�o era Doutor da Lei e criou a universidade sublime do bem para
todos os esp�ritos de boa vontade.
Padecendo amarguras - reconfortou a muitos.
Tolerando afli��es - semeou a f� e a coragem.
Abatido - curou as chagas morais do povo.
Supliciado - expediu a mensagem do perd�o e do amor, em todas as
dire��es.
Esquecido pelos mais amados - ensinou a fraternidade e o
reconhecimento.
Vencido na cruz - revelou a vit�ria da vida eterna, em plena e
gloriosa ressurrei��o, renovando o destino das na��es e
santificando o caminho dos povos.
Ele n�o era, portanto, rico e engrandeceu os celeiros dos
s�culos.
Quem oferecer o cora��o, em homenagem ao Divino Amor na Terra,
poder� desse modo, no exemplo de Jesus, embora an�nimo, aflito,
apagado ou crucificado, atender � santificada colabora��o com
Deus, a benef�cio da Humanidade.
ANDR�
LUIZ
(Ta�a de Luz,33, FEESP)
Visitante