Pessoa cria uma biografia de Caeiro que se encaixa com perfei��o em sua poesia. Ele escreve com a linguagem simples e o vocabul�rio limitado de um poeta campon�s pouco ilustrado. Antimetaf�sico, pratica o realismo sensorial, numa atitude de rejei��o �s elucubra��es do Simbolismo. Afirma que "pensar � estar doente dos olhos", e quer apenas sentir a natureza. Em perfeita conson�ncia com sua busca de simplicidade, escreve versos livres (sem m�trica regular) e brancos (sem rimas). Agn�stico, escreve um poema ousado sobre o menino Jesus. Destitu�do de santidade, Cristo � representado como crian�a normal: espont�nea, levada, brincalhona e alegre. Nisso est� a religiosidade de Caeiro.
H� dois Caeiro, o poeta e o pensador, sendo o primeiro que em teoria se desdobra no segundo. Segundo a imagem que d� dele pr�prio, vive de impress�es, sobretudo visuais, e goza em cada impress�o o seu conte�do original. N�o admite a realidade dos n�meros e n�o quer saber de passado nem de futuro, pois recordar, � atrai�oar a Natureza.
No Poema dum Guardador de Rebanho se declara pastor por met�fora. O andar constante e sem destino, absorvido pelo espet�culo da inesgot�vel variedade das coisas. Os seus pensamentos n�o passam de sensa��es. Limita-se a existir, com um sorriso de existir e n�o de nos falar.
Caeiro surge, pois, como l�rico espont�neo, instintivo, inculto (n�o foi al�m da instru��o prim�ria), impessoal e forte, mas muitas vezes, a simplicidade quase infantil do estilo, pobre de vocabul�rio, consegue exprimir a infinita diversidade, as incont�veis metamorf�ses do mundo.
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