Em um dia, igual a tantos outros que por ali se sucediam, encontrava-se um senhor sentado, ruminando seu café da manhã, absorto em meio a tantos pensamentos inúteis, como de igual levava a vida, que nem percebera a chegada de um visitante a lhe dirigir palavras, e quando fora notar o homem já estava sentado e balbuciando as últimas letras:
- ...caro e inestimável amigo!
- O que disse?
- Estava aqui a dizer que era por demais prazeroso encontrar-lhe com tão grande saúde, caro e inestimável amigo!
- Ah! Isto é verdade. Ultimamente tenho me sentido um menino. Sou capaz de arrebentar com qualquer jovem que se meta comigo. Os dias mais longos têm me feito muito bem.
- Quanta alegria resvala em meu peito ao ouvir-lhe falar desta maneira, austera e irradiante de pensamentos elevados. Não posso falar-lhe a mesma coisa, infelizmente. Semana passada estive em Brasília para tentar realizar alguns negócios importantes, mas fui surpreendido com as inovações da tecnologia moderna. É um verdadeiro estupro a racionalidade humana. Já não temos poder de decisão, são computadores aqui, telefones celulares ali, assessores estourando nossos tímpanos, e eu, esmagado e solitário em um canto de parede, deixei-me envolver por umas poucas palavras: o Senhor é doido! Aquelas arrebatadas palavras me puseram a refletir toda a minha a vida, e o pior é que nunca consigo me lembrar de nada, a não ser daqui. Isto eu acho incrível. Você passa toda a sua vida entre aeroportos e hotéis, carros e passeios, e a única coisa que vem a cabeça é exatamente este lugar. Acho que por isso voltei, não sei.
- Ah! Não se grila, a gente por um caminho ou por outro sempre acaba retornando a origem. Lembra daquele pensamento que diz que o homem retorna ao pó de onde viera? Pois bem, é isto. Mas, cara, deixa eu mudar de assunto. Lembra do Dr. Raver?
- Lembro, ele não é aquele que ditava ordens olhando pela janela?
- É este mesmo. O cara ficou rico, mas rico mesmo. Veja bem, uns meses aí atrás apareceu um tal paciente que lhe disse que estava arruinado, havia perdido quase hum milhão de dólares - coisa de louco! E ele começou a tratar do sujeito. Consultas aqui, ali, acolá, em todos os dias e horas. Era de impressionar tamanha dedicação, todos estavam estupefatos. Só que tudo era armação do doutorzinho, o velho tirou até os centavos do paciente.
- É inacreditável como a raça humana é degradante! Arruinar a vida de um homem por causa de dinheiro? Creio que estamos próximo a entardecer dos tempos. Não restará pedra sobre..., não, pedras restarão, acredito, o que não restará é um só homem ... e também as mulheres, é claro. Mas me conte mais, perspicaz amigo, o que se dera com o estropiado paciente, tivera uma parada cardíaca? Ou se rebelara contra tão promiscua atitude e adentrara na esfera negra da ignorância?
- Que nada. O cabra tinha problemas por achar que estava ficando pobre, e este problema o Dr. Raver curou. Claro, ele agora era verdadeiramente pobre, não precisava mais se preocupar. O médico o curou, ele passou a precisar foi de um emprego.
Após estas últimas palavras, aliás, após a gargalhada do anunciador e o riso tímido e compadecido do ouvinte, deu-se o silêncio. Não que eles não tivessem o que dizer, isto eles tinham, mas era como se aquilo naquela hora fosse obrigatório. O silêncio perdurava, e entre um ou outro toque do silêncio eles se entreolhavam, como que querendo um buscar no outro a verdade, o tino ou a certeza. Mas o silêncio perdurava.
O interlocutor austero se aproveitou daquela plenitude hipnotizadora e sombreou o mundo, deu à planta que estava no vazo mais adiante de si a cor marrom, ao vidro da janela o amarelo, à luz do sol o vermelho, ao café do amigo o azul e ao silêncio o branco. Chegara mesmo a indagar a si mesmo porque as cores não poderiam ser aquelas que sombreara em seu pensamento. Se os homens dão aos seus objetos o formato que tanto desejam, porque não podem ter também as coisas, água, sol, luz, enfim, tudo com as cores que achassem convenientes. Ficara assim pensando, e por fim concluira que isto não é verdadeiramente possível, já que ao homem é permitido inovar as suas criações, mas as divinas simplesmente não, elas simplesmente se apresentam, com a cor, com o aroma, com a forma que Deus lhe deu. Mas algumas coisas podiam ele ao menos imaginar: o silêncio era branco.O silêncio é como uma enorme tela virgem que o pintor vai pincelar com as cores as mais diversas, e por isso ele, o silêncio, tem que ser branco, já que somente assim o homem poderá abrir o seu verbo e decantar a mais linda poesia. Triste do pintor que se esperneia a debruçar por cima de uma tela e dela não retira uma pequena obra-de-arte, como triste é o homem que interrompe o silêncio e não diz uma só palavra de carinho ou de compreensão.
E o silêncio entre eles ainda perdurava.
Neste interregno de reflexão por parte do amigo austero, o outro, o desenvolto, também estava em profundo mergulho dentro de seu mundo, mas imaginava coisa diferente. Estava a mirar o som do silêncio, isto mesmo a mirar o som do silêncio. Como quem navega por grande névoa, permitiu-se não ver nada, apenas escutar, ouvir o mais tímido barulho, mas nada ouvia. Grande fora a surpresa quando, já para desistir, ouvira um sinal lá longe, como se alguém estivesse mandando-o calar a boca ( ... pssiiii ...), mas ele não estava a falar, e disto somos todos testemunhas, e ainda assim o som continuava ( ... pssiii ...). Teve medo ao inicio, imaginou que poderia ser uma aparição mediúnica, mas isto não poderia acontecer já que Deus mal tinha lhe dado os sentidos humanos perfeitos, logo não poderia ter ele dotes paranormais. Assim passara a mirar o infinito, com aquele olhar que atravessa a mais densa matéria e se implanta em lugar que ninguém nunca viu. Ficara por lá alguns minutos, e aí mais uma vez ouvira o som do silêncio (... pssiii ...), mas agora sem medo. Ouvira ainda mais, ouvira a si mesmo, ouvira quantas palavras dissera no passado que nada tinha representado e ouvira também aquelas que deixara de pronunciar, e disto se arrependeu. E foi assim que fora pouco a pouco tomando o caminho de volta, o caminho que atravessava a si mesmo e aquele lugar que ninguém nunca ver. Chegara ao ponto de partida, chegara à sala aonde permanecia o seu amigo, e aí balbuciou, retomando o seu próprio tipo, deixando de lado pensamentos profundos:
- Amigão, você não acha que é uma tremenda perda de tempo agente ficar por aqui quando o mundo todo nos espera para viver? Você as vezes não imagina que sempre poderíamos fazer algo melhor do que costumamos fazer? Eu, por exemplo, acho se pudesse recomeçar tudo de novo seria um eterno retirante, teria uma vida diferente em cada lugar.
- Não deixas tu, caro intrépido, de ter lá suas razões. De fato o homem não pode ter nascido para cumprir uma única missão, por isso assiste-lhe razão ao dizer que deveríamos nos comportar diferentemente em cada lugar por onde passamos. Me ocorre agora uma lembrança de meus tempos de outrora quando um dia indaguei: do que será da vida do homem se ele não permitir que a vida comungue com ele o viver?
- Um nada!
- É, mas tantas coisas nos reprimem e nos impulsionam ao mesmo tempo em que poucas são às vezes que temos a convicção do que é verdadeiramente o certo, e neste momento a vida pode passar ao largo, como que acenando e lhe dizendo que o esperará na próxima estação, se lá poderes estar. É a tal história do Dr. Raver. Ninguém, em sã consciência, diria que ele faria uma coisa daquela; ele era duro, isto é verdade, mas era dedicado ao que fazia. Isto ocorre, por vezes um manto escuro encobre nossos sentimentos e a nossa alma pura e limpa transformasse em um perverso seguidor da miséria de quem nos cerca.
- Cara, você tem toda razão. O manto escuro de que falou deve ser como uma mulher linda e burra...
A conversa fora interrompida por um homem que se aproximando dos dois interlocutores dissera:
- Bem gente, está na hora, os senhores terão que sair.
- Mas como, não seria honesto de minha parte me ausentar sem pagar a conta (- Garçom, por favor, traga a nossa conta). Venho muito aqui e não gostaria de criar nenhum atropelo para o meu retorno.
- Mas, senhor, aqui não precisa pagar a conta.
Surpreso com a resposta, tal como se dissesse “como não!”, olhara o nosso conhecido amigo para o outro e dissera:
- Não me digas que enquanto eu me encontrava em completo reflexo, tu pagaste a conta?
- Não, claro que não. Nem dinheiro eu tenho.
E o intruso torna a falar:
- Senhores, aqui ninguém paga, isto é uma instituição pública. Vocês estão aqui descansando.
- Ah, é verdade. Por alguns poucos minutos deixei-me fantasiar pelas carapuças de uma vida que não participo. Porquê tu, prezado amigo, não me disseste desde o inicio? Isto me ocorre vez ou outra.
- Poxa, você não havia me perguntado.
E aí seguiram os dois, com a escolta daquele que viera buscar-lhes, em direção a um corredor largo, não, não, era estreito, por vezes comprido, por vezes curto. Não se tinha muita referência, tudo era reluzentemente branco, tudo branco, parede, piso, portas, enfim tudo. E eles por ali caminhavam. Este percurso, que nossos amigos faziam invariavelmente todos os dias, mas parecia o regresso do filho pródigo, com a diferença que neste caso havia uma regressão, do compasso largo das idéias reluzentes para a triste escuridão do branco sem fim. Isto me parece até uma incongruência, o que não deixa de ser uma grande verdade, contudo, maior incongruência seria admitir que a amputação da liberdade pode representar algum bem. O branco, como tudo, pode assumir outras cores e sentidos. Para eles, nossos velhos conhecidos, representava o branco o encandear de suas perspectivas e o aforamento da solidão, não como quem culpa o outro pela loucura cometida, mas como quem diz: És tu o meu medo, e ainda assim preciso de você!. Por quantas situações deve o homem passar para saber que o pouco de hoje poderá ser ainda menos amanhã ou um nada desprezível? Não sei, não me perguntem, não quero apresentar soluções, pois se as soubesse daria aos nossos amigos uma melhor razão.
- Mas me diga uma coisa, gentil sentinela das emoções dispersadas, achas mesmo que temos que nos recolher? Não seria mais prudente deixar-nos tilintar um pequeno soluço de alegria? Ora, o dia hoje amanheceu lindo, o sol me acordou às 5:30 horas com o convite eterno do bem-aventurado ardor, tenho que aproveitar isto, amanhã poderá chover, eu não sei, mas poderá.
- Senhor, não faço as regras, simplesmente as cumpro.
- É isso aí, o homem é um ser tão inteligente e complexo que para conter a sua racionalidade criara regras para a sua própria prisão, o que o obriga a tentar delas fugir, enriquecendo o seu conhecimento, já que com isto se encontra em um eterno processo de evolução. Isto é que é inteligência!
O corredor era mesmo comprido, talvez uns 200 metros, mas ele tinha um fim, e o fim era justamente o quarto dos nossos amigos, um vizinho do outro. Um entrara e fora direto para cama, acho que dormir. O outro dera mais alguns poucos passos, mas antes de adentrar em seus aposentos mirara uma placa que ficava acima da porta do corredor: rota. Olhou, olhou, olhou e dissera:
- Nunca vejo sentido nesta placa. Não consigo compreender o que rota tem a ver com este corredor. Se ao menos fosse rota dos loucos eu suporia que este corredor é o único caminho possível dos lunáticos. Supimpa, é isto mesmo, mais tarde vou sugerir que mudem o nome, que aqui se passe a chamar rota dos loucos.
Foi dizendo tais palavras e entrando, um pouco cabisbaixo, acho que tivera um momento de lucidez completa e percebera que ele era também um louco, e a sua maior loucura era criar um nome para o desacerto de seu caminho.
- Dos loucos - gritava. Rota dos loucos, somos todos loucos, pouco loucos ou muito loucos, mas loucos e esta é a rota, sem retorno, de uma só porta, a de entrada. Gritem seus loucos: rota, rota, rota...
A fúria desalmada se apegara ao nosso introspectivo amigo, deixando-o a mercê da ingrata loucura. Mas isto, não se impressionem, ocorre quase todos os dias, não apenas com ele, mas com todos os outros pacientes daquela instituição. Eu, com os olhos do perscrutador invisível, que vaso as paredes para encontrar os fatos que aqui narro, sem que minha presença se faça sentir, tenho por esta mesma rota passado todos os dias e visto tal cena. A loucura difama um homem, mas ainda assim sempre ele há de guardar um pouco de sanidade para pequenas conclusões, aquelas que são capazes de definir o momento e repercutir por anos à fio. Não me vejo em posição privilegiada - apenas narro - e levo isto com o dissabor de que todos nós, os crédulos e os irreverentes, estão à mercê da loucura, da loucura da cólera passageira, da loucura da ira que acelera o coração ou mesmo da loucura que cega os olhos. Quem de nós já não fora louco? Quem de nós já não se encontrara na rota? Quem de nós?
A verdadeira loucura é não admitir que somos loucos.
Márcio Ruperto
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