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De repente, se encontram, quase sem querer, num acaso inexplicável. Estava com uma garota com quem costumava sair, e juntos conduziam o seu tio ao embarque para São Paulo, através de um ônibus que sairia às 20 horas da praça principal daquela cidadezinha do interior. Uma jovem morena, esbelta, cabelos sedosos, lisos e longos, cruza o seu caminho, cumprimenta o seu tio da sua companheira, faz um leve meneio com a cabeça para o rapaz, volta-se para a amiga e pergunta para onde vão e, sem esperar a resposta, junta-se ao grupo. Aquele encontro, com uma moça que ele já tinha visto anteriormente mas nunca tinha conversado, deu-lhe uma balançada e deixou-o cheio de coragem e curiosidade para conhece-la melhor. - Quem é você? O que faz, de onde você é? Estuda? – perguntou-lhe, em uma bateria inexplicável e quase neurótica de palavras. Ela, calmamente, quase indiferente ao assédio inesperado, lhe diz: - O que importa para você o meu nome? Eu sou professora, daqui mesmo. Dessa terra onde você está. Isso você poderia saber com a minha amiga, sua companhia mais constante. Meio sem graça, ele tentou balbuciar que gostaria de saber dela mesma, de ouvir a sua voz, de ver o seu sorriso, quem sabe, de ter um pouco da sua atenção, muito embora estivesse a acompanhar sua amiga. Mas tudo faz crer que ela não ouviu ou não quis ouvir, naquele instante, o que tinha a lhe dizer, disfarçando e voltando-se, suavemente, para o lado oposto ao seu. A idéia de conversarem não surtiu efeito, todavia, ela passou a contar alegremente para a amiga, a garota com quem ele saía, um caso onde pôde ouvir melhor a sua voz e conhecer o seu sorriso. Os dias se passaram e voltaram a se encontrar, dessa feita, em um clube. A acompanhante constate do rapaz sentou-se ao seu lado e, de repente, a sua irmã chega juntamente com a moça morena que tanta atração lhe trazia. O coração do moço pulsava. Querendo ser gentil, levantou-se, puxou uma cadeira, entretanto a jovem preferiu a do lado contrário, deixando aquela que lhe tinha sido preparada para a sua amiga e irmã da companheira dele. Por felicidade, e como era muito cedo ainda, resolveram jogar buraco, coincidindo a primeira parceria entre os dois. Durante todo o jogo de cartas, por mais que tentasse um diálogo mais consistente com a sua parceira, as respostas eram sempre monossilábicas. Porém, quase sem controle, as vistas se cruzavam repetida e rapidamente, agora sem aquele ar de rejeição ou indiferença. Chega o final de ano, o baile de reveillon no clube. O moço, que tinha trabalhado até poucos instantes antes, chega, apressado e aproxima-se da mesa da sua companheira – para alguns, sua namorada. Cumprimenta-a, às suas irmãs e também à jovem amiga, que dessa vez lhe responde com mais cordialidade mas sem empolgação. Parecia, para ele, que somente ela estava naquela mesa, naquele instante. A sua beleza, os seus cabelos longos, lisos e sedosos, caídos sobre a pele morena, tinha um efeito especial à luz do clube. Os seus olhos brilhavam tentando esconder qualquer emoção, mas os lábios teimavam em deixar escapar um sorriso que estava sendo contido. O rapaz tira a companheira para dançar e logo a traz de volta, preferindo ficar em um ponto estratégico no bar, de onde poderia olhar para a jovem de cabelos longos. Esta, discretamente, vira-se um pouco, como a dar maior atenção às amigas, deixando as costas ao rapaz. Dessa vez o tempo conspirou à seu favor. Quase que de repente, as outras três moças que estavam na mesa foram tiradas para dançar, restando, tão somente, a misteriosa jovem de cabelos longos. Depois de um uísque tomado apressadamente, dirigiu-se ele até onde estava a jovem, agora solitária e, delicadamente pôs a mão no seu ombro. Ela, assustada, vira-se e ouve dele um convite para dançar. Um leve sorriso esboça-se nos rostos dos dois e, mãos dadas, dirigiram-se ao centro do salão. As músicas se sucediam e eles pareciam não perceber. Todas elas, uma após outra, pareciam não ter fim, enquanto ele tentava sussurrar algumas palavras ao ouvido da jovem que recebia passivamente o galanteio. Depois de algum tempo, acordaram daquele sonho. Era a hora das moças se retirarem, não se sabe se precipitadamente ou não, por conta daqueles momentos de enlevo vividos pelo jovem casal. Separam-se quase sem despedidas. Enquanto a jovem ouvia críticas infundadas das suas amigas, já que todas elas também dançaram o tempo todo, o rapaz voltava ao bar, agora com os amigos, para tomar mais alguns uísques até que o primeiro dia do ano se fizesse claro, mostrando com a sua luz o princípio de novos tempos. Sonhar acordado fazia com que ele revivesse os momentos doces daquele encontro, imaginando o que se passava também na cabeça daquela moça. Tinha nas mãos o perfume dos seus cabelos longos e pretos, aquele olor que ele teimava de levar ao rosto para que se perpetuassem em sua mente. Os dias se passaram e a jovem parecia fugir de um novo contato. A conversa que tinha tido com as amigas, a cobrança que lhe foi feita, pareciam conspirar para que não mais voltassem a se encontrar. Também, por conta disso, o rapaz desvencilhou-se da sua antiga companheira, procurando conviver com outras jovens, tentando esquecer um pouco aquela misteriosa menina que tinha deixado profundas marcas em se coração. O carnaval se aproximava e o rapaz resolveu, afastando-se daquele meio, vir participar de um bloco carnavalesco na capital, onde conheceria novas pessoas, se divertiria mais e, quem sabe, esqueceria aquela jovem que não lhe saía da cabeça. Tudo combinado, fez o pagamento e, na véspera dos festejos momescos foi buscar a sua fantasia. Naquele ano era de um pescador estilizado, escolha de um grande bloco que levava multidões à rua. No domingo foi tudo alegria. Pulou durante todo o tempo, brincou com garotas, as mais diversas, tomou algumas cervejas com amigos e todos prometeram que iriam ao clube. Contudo, o cansaço de mais de 10 horas de desfile deixou a maioria dos componentes tão cansada que foram para casa se preparar para novo desfile no dia seguinte. A despeito de todo o esforço feito, a noite foi péssima para o rapaz. Sonhos em forma de pesadelos traziam à sua mente confusões, brigas que não houvera e, por fim, a figura daquela jovem dos cabelos longos, como se a chamá-lo. Poderia ser efeito da cerveja, do cansaço, da refeição malfeita , enfim, até mesmo da saudade e da melancolia que surge nos corações apaixonados. No dia seguinte o desfile estava marcado para as quinze horas e ele poderia acordar um pouco mais tarde, quem sabe, bem melhor do que dormiu. Ao contrário, logo às sete da manhã já estava de pé, péssimo humor, cheio de insegurança e saudade. Não podia conceber como poderia estar ali, pensando em se entregar às tentações da rua da capital, enquanto a sua musa encontrava-se tão distante, sabe lá com quem, ou mesmo rejeitada pelas falsas amigas. Sem perceber, pouco depois estava na estação rodoviária para comprar passagens de volta. Às quinze horas já estava no caminho, na incerteza de encontrar a jovem ou, quem sabe, vê-la na companhia de outro. O que realmente não poderia aceitar era ficar passivamente perdendo o que achava de mais precioso, ou seja, o reencontro com o seu grande sonho. Ao chegar à cidade, consultou um amigo casado que freqüentava o mesmo clube e perguntou-lhe se poderia ir juntos ao baile daquela noite. Claro que o amigo concordou e, às 22 horas lá estavam eles aguardando o início da festa. O rapaz procurou localizar a jovem dos cabelos sedosos no meio daquela multidão. Por mais que procurasse não a conseguia ver, já estando quase para desistir. Nos primeiros acordes da orquestra ele a viu entrar com outras jovens. Sem cerimônia, cumprimentou meio formal ao grupo e voltou à mesa do amigo, onde tomou o seu uísque, apreciando àqueles que dançavam, entre eles, a jovem dos seus sonhos. Ela fazia parte de uma roda onde as outras conhecidas e alguns rapazes brincavam, mas faltava-lhe coragem para uma aproximação. Depois de algum tempo de aflição, já não mais se contendo, levantou-se, apartou-a do grupo sem uma palavra, e ela o seguiu docilmente conduzida pelo ombro até um canto do salão onde começaram a dançar, dançar, dançar, até um intervalo da orquestra. Já nada mais os separava. Nem mesmo a parada das músicas. Continuaram juntos, olhando um para o outro, mãos dadas, sorrindo. Resolveram ir para o pátio do clube, sentaram-se à beira da calçada e abraçados, diziam palavras de carinho e de entendimento. De repente a orquestra volta a tocar, só que músicas lentas, de preferência de Roberto Carlos. Eles param, ouvem, e continuam abraçados, rostos colados e mão dadas. Ao fundo ouve-se uma canção onde alguns versos marcam aquele momento: “... eu não pensava que você, viesse para ficar, ...o que passou não quero mais lembrar... guarde o seu coração, para ficar junto ao meu mais uma vez...”. Um beijo, o primeiro. o mais terno e o mais esperado de todos os beijos então acontece. Olham-se demoradamente, brilhos nos olhos e, sorrindo, ela pergunta: - Não tem nada para me dizer? Ele, tímido, trêmulo e cheio de felicidade, balbucia, quase sussurrando aos seus ouvidos : - Você quer ser minha namorada?
Hugo Hereda |