O PESCADOR DE    SONHOS

 

A  mulher, um pouco insegura, intolerante para com os que a rodeiam, cheia de dúvidas quanto aos seus sentimentos, dirige-se ao pescador e diz:

- Vamos, você que tem esse poder, me pesca o mais lindo dos  sonhos. 

- Que tipo de sonho? Posso saber o que lhe falta, o que precisa? O que tem? O tamanho e o resultado do sonho que deseja vai depender do que pode alcançar, sem se violentar. Todos temos o direito à felicidade, desde que esta seja compatível com a nossa realidade física, intelectual, cronológica e, quem sabe, também econômica.

            O pescador continuou a filosofar:

- O egocentrismo não é privilégio das crianças que desejam ter um pai e uma mãe só para ela. Ter todos os brinquedos e todos os agrados do mundo, esquecendo o que ocorre ao seu redor. O adulto tem anseios, desejos, entretanto, compatíveis com a sua realidade. 

            Imaginemos o que você podia fazer aos vinte e cinco anos e que alguém que tivesse 35 pensasse em fazer? Logo você reagiria e diria: “Puxa, essa pessoa não se convence da diferença de idade entre nós?”

            Todavia, se você tiver 45 anos, seria interessante que permanecesse egocêntrica, desejando, entretanto, coisas compatíveis com a sua realidade. Há sentimentos tão lindos, tão arrebatadores quanto ou talvez mais, que os que passam pela cabeça dos mais jovens. A esses nada se cobra, porém às pessoas mais maduras, cada risco que correm, cada vitória que conseguem, observando-se sempre as suas limitações, maiores serão os méritos.

            É doce sonhar. É bom renovar os sentimentos, vivenciar uma experiência, mas nunca tentar voltar atrás. Há que se ir sempre em frente. Os sonhos vividos anteriormente ficam tão mais doces quanto forem ternas as recordações. Construa novos sonhos, edifique novos caminhos, sempre pensando que pode ir mais e mais adiante. 

            No trabalho, temos que procurar os nossos espaços. Sabemos que a nossa sociedade é ingrata para com aqueles que chegam aos quarenta. Quando não vencem pela intelectualidade privilegiada, com sacrifícios insanos, vêem-se derrotados pelos mais jovens que se submetem ao ganho menor, mesmo que também possam oferecer menos, em qualidade e segurança. 

            Devemos andar em frente, consciente que estamos cumprindo o nosso dever. Somos massageados pelo elogio quando ele ocorre, porém sofremos com a indiferença tão comum com que se brinda àqueles que não conseguiram mais cedo chegar ao comando e que agora lutam pelo espaço que pensam merecer. Contenha-se. Procure cumprir com a sua obrigação da melhor forma, sem precisar pisotear àqueles mais jovens ou ignorar que estamos em plena transformação.

            No amor, ao enfrentar um casamento linear, sem motivação, nada vale pensar o quanto teve de oportunidades de conviver com outras pessoas que pouco cobravam e aceitavam tudo pelo que recebiam em arrebatamento, parceria e companhia constante. Sim, vocês eram mais jovens. O que faltava de carinho sobrava em paixão. Claro que a ninguém é dado o castigo de manter um convívio insosso, um casamento que é uma carga e que aumenta o seu peso a cada dia. 

            Que deseja você? Voltar aos 25 anos, ter um namorado com mais três ou quatro anos que você e viver aquela paixão sem compromissos? Sabe que é impossível. Por outro lado, ter 45 anos e tentar reviver da mesma forma independente e arrojada aquele sonho, sabe que, no  mínimo pareceria utópica. Não se deve abrir mão de desejos e sentimentos, mas, ter sempre o pé no chão para quando tiver que tomar uma decisão. Saiba onde pisar, não se esquecendo que tem que dar uma resposta à sociedade, à família e ao seu meio, para não ser repudiada por eles. 

            Idealize os seus sonhos. Pense como alcança-los e torná-los mais belos que os passados, já que aqueles não foram planejados. Aconteceram. Agora, não. Você fará acontecer, de forma planejada, madura e sensata. Deixará para traz as angústias e ansiedades, dando passadas curtas mas corretas, até alcançar o que poderá chegar perto do ideal.

            A diferença que existia entre quinze e vinte e cinco anos era intransponível em termos de pensamentos, conhecimentos, ideais e sonhos. Entre vinte e cinco e trinta e cinco, ainda apresentava barreiras que mostravam os avanços físicos e o início do declínio funcional. Entre os trinta e cinco e os quarenta e cinco anos, ao invés de se estreitar esse vazio, parece acender uma chama de alerta. Esse alerta, inerente à década dos quarenta, faz com que as mulheres comecem a se preocupar com as mudanças fisiológicas pelas quais começam a passar e que procuram dissimular através de recursos os mais diversos. 

            É interessante quando se procura analisar as diferenças etárias entre os quarenta e cinco e cinqüenta e cinco anos. Parece que passa a tempestade e, de repente, no meio da calmaria, os seres se redescobrem como capazes, como pessoas úteis, como amantes, como prontos a lutar contra algo que os mais acomodados aguardam tão ansiosamente, que é a aposentadoria.

            Falo de aposentadoria no sentido mais amplo da palavra. Digo do afastamento de atividades intelectuais e labor, das diversões, dos romances, dos amigos produtivos. É bom ser olhado como uma pessoa útil, admirado pelo que é capaz, elogiado se merecer e amado com muita ternura. Não é hora de comprar ilusões, mas de viver a maior realidade. Uma coisa é importante: em tudo que você faça, sinta, deixe transparecer, fuja sempre do medo. Você é capaz, você é útil, você é amado e você pode amar. 

            O seu trabalho pode ser gratuito mas muito reconhecido. Colecione tudo que for dito ou for publicado a seu respeito. Um dia, você abrirá cada página de jornal, cada correspondência e dará ao seu filho, ao seu neto, para que eles possam analisar, sem nada cobrar, sem retrucar comentários. Nunca diga: Ah! Belos tempos! Quanto ao amor, guarde pequenas recordações materiais, porém armazene e reserve para você mesmo tudo o que de bom viveu. Mas não pare aí. Continue vivendo cada dia, dentro da intensidade do que você pode viver. O amor é inesgotável e ele se adapta e se mantém vivo até na eternidade.  Lembre-se e saiba que essa é a mais pura verdade: NÃO SE APOSENTA PARA O AMOR! – conclui o pescador.

O pescador, sentado sobre uma pedra banhada pelas águas do mar azul, em um final de tarde onde o sol teima em não se pôr, embora a lua já se mostre, pálida, esperando a sua vez, volta-se para a mulher sentada na areia, agora já não tão aflita e pergunta:

- Qual o seu sonho? Quer um melhor lugar no seu trabalho? 

-  Não. Quero apenas paz para completar o meu tempo e a certeza que tentei fazer o melhor. - Disse a mulher. Ele insiste:

- Quer realizar um sonho onde o dinheiro e a diversão lhe completem? – ela responde:

- Dinheiro e diversão não são as coisas principais da vida,  meu amigo.

- Gostaria então de voltar a ter vinte e cinco anos?

- Se os tivesse agora, provavelmente eu viveria da mesma forma que vivi e, nesse momento, só me restariam as lembranças. – confessa a mulher.

- Seria então esperar que com que tanta malhação, tanto saber. fizessem com que se conservasse viçosa como aos vinte e cinco anos e o seu conhecimento acadêmico, embora tardio, fosse mudar significativamente o rumo da sua vida e do seu trabalho. É esse o seu sonho?

- Claro que não. As marcas do tempo permanecem por mas dissimuladas que sejam. O meu saber me enobrece mas não mudará o rumo da minha vida e pouco será levado em conta nas minhas atividades.

- Já sei! O seu sonho é fazer com que o seu casamento seja eterno, mesmo que o peso da mesmice lhe acompanhe. Ou, quem sabe, voltar à época dos namoros  e das paixões. – coloca o pescador.

- A vida a dois só sobrevive quando há motivação, quando há renovação no dia-a-dia. Quando se descobre qualidades e defeitos um do outro e se tenta, em comum acordo, mudanças. Paixões são coisas para jovens e, efêmeras pelo dinamismo da vida.- arrematou a mulher

- Falando francamente, vou pescar para você o maior e o mais bonito dos sonhos. Ele, como um peixe ideal, só surge uma vez e você tem que saber cultuá-lo, fazer crescer, segurar e ser egocêntrica como uma criança. Fazê-lo símbolo do seu ideal de vida. Esse sonho se chama FELICIDADE e está em suas mãos.  Acorde cada dia pensando que se aquele não for o melhor dos dias, você tentará fazer sê-lo. Se as suas atividades não chegarem a alcançar o planejado por seus chefes e o imaginado por você, tenha a certeza que não faltaram esforços para isso. Que se você recebeu sinais de carinho de alguém que realmente a ama, procure pensar o quanto esta pessoa é realmente útil para a sua vida.  Sinta-se bela aos quarenta e cinco anos, como se tivesse vinte e cinco anos, mesmo quando chegar ao sessenta e cinco anos. – complementou o pescador.

            A mulher levantou-se, agradeceu e saiu em busca da verdadeira felicidade, enquanto o pescador continuou pensativo, acalentando os seus próprios sonhos ao embalo das ondas que batiam sobre a pedra, como um coração a pulsar e a dizer que estamos vivos e merecemos ser felizes. 

 Hugo Hereda 

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