A  jovem acorda bem cedo, pára um pouco, tenta se posicionar.  É como se acabasse de sair de um sonho do qual não gostaria de ter acordado. Ao levantar-se, olha melancolicamente para o lençol, pega-o de leve e sente um calor que não era o seu. Distraidamente abaixa-se para arrumar os travesseiros. Um, ela logo identifica como sendo o que acomodou a sua cabeça, mas o outro... bem, parecia desenhar os contornos de um rosto de perfil, deixando exalar um perfume indescritível, suave, que, caso ela procurasse se concentrar melhor, não o sentiria.

            Espreguiça-se demoradamente sempre olhando para a cama. Vai ao banheiro, quase de olhos fechados, para não quebrar aquela imagem que tenta manter em sua mente. Pega a sua escova, coloca um pouco de creme dental, o de costume. Naquele dia parecia sentir um sabor diferente, quente, um hálito que conhecia mas que nunca havia experimentado. Algo que residia e tomava corpo na sua mente e no seu sonho. A escova tocava-lhe as gengivas e os lábios como se fossem outros lábios, macios, mornos, sensíveis. Quem dera pudesse prolongar por muito tempo aquele momento tão terno e doce. Parecia que a seiva de alguém a quem tanto queria, com quem tanto sonhava pudesse saciar aquela sua sede de amor à distância.

            Um banho refrescante, olhos fechados, sentia que suaves mãos lhe ensaboavam o corpo enquanto acariciavam a sua pele, de maneira lenta, em movimentos circulares e relaxantes. Quem dera pudesse prolongar aquele banho por horas, até que estivesse inteiramente calma, pronta para o dia que estava começando.

            Lépida, olha o relógio, veste-se ligeira. Tem que haver um meio, quer através da tecnologia, quer pelos sonhos, de fazer os primeiros contatos com o seu ser encantado. Procura os recursos e, ainda com uma xícara de café com leite e aquele pão com manteiga que constituem a sua primeira refeição há anos, faz as suas primeiras ligações. Coração pulsando forte, minutos de angústia são sucedidos por lapsos de encanto. Boca cheia, claro que não se podia ouvir a sua voz naquele momento, porém, se assim necessário fosse, por mais difícil que parecesse a sua verbalização, seria inteligível para aquele a quem se destinava. Foram momentos de doce enlevo, de trocas de juras de amor, de recordações do dia anterior e da cumplicidade daquela noite. Despedem-se aguardando novos encontros, quem sabe quando.

            Agora o mundo torna-se real. O tempo passa, as obrigações se sucedem. Aulas disso e daquilo, academia de ginástica, outras obrigações e a manhã se vai. Sempre há um tempo, por menor que seja, para recordar os seus momentos de amor. E assim, há uma cumplicidade em cada ato. Nas aulas, sente como se um ombro acolhedor e forte estivesse a apoiá-la, sempre que algum assunto lhe parece complicado. De repente, um leve sussurro aparenta surgir do nada, confirmando ou corrigindo cada passo e, como um milagre, o assunto desabrocha com grande fluidez. Na ginástica, sente-se escorregar e uma mão forte a apoiá-la. Incrível, mas ela não chega a cair, ou mesmo, não chega sequer a escorregar. Como vinda de alguém especial, uma toalha enxuta, bem passada e perfumada parece lhe chegar às mãos, quando na realidade ela acabara de retirar da sua mochila e, de olhos fechados, secava lentamente o próprio corpo.

Um almoço rápido em um self service e, de repente, vê-se pedindo algo que não costumava comer. Parece que descobriu, naquele instante, que gostava muito daquela iguaria que agora solicitava ao garçom, todavia, ela apenas imaginou que aquela seria a pedida que ele deveria fazer. A comida, se assim não era, tornou-se um manjar. Depois de algum tempo, um olhar vazio para o espaço, garfo pendurado à mão, fazem com que ela viaje sem saber por onde. Ninguém pôde imaginar a duração daquele arrebatamento e o que se passou em sua cabeça. Como se um despertador tocasse forte, assusta-se, dá mais umas três garfadas apressadas, olha o seu relógio e levanta-se rapidamente para pagar a conta.

É hora de pegar o transporte para ir ao trabalho. O ônibus passa quase vazio, pois é o início da linha e ela procura um banco ainda vazio. Quase pede licença para se colocar junto à janela, como se alguma pessoa já ocupasse o lado do corredor do assento. Não se sente só. Ao contrário, está protegida por seu sonho que a mantém afastada dos outros passageiros. Não sabe se olha para a paisagem pela janela ou se fica a imaginar, mirando no vazio, como está ou como gostaria que estivesse a face do seu amado, a fitá-la com um doce sorriso. Sem perceber, mantém os olhos fechados quase todo o percurso, enquanto vive aqueles momentos encantados. Como em um filme, revive tudo aquilo que sentiu, conversou e imaginou durante a noite passada e aquela manhã.

Chega finalmente o seu ponto de parada no trabalho. Ao descer, sente-se leve como se alguém segurasse com carinho a sua mão, até que tocasse o solo com os pés. Mostra um leve rubor nas faces ao perceber que o seu imaginário parceiro olha com admiração o seu cabelo que começa a crescer, os seus lábios carnudos em um sorriso tímido que a faz baixar as vistas, o seu vestido discreto desenhando o corpo, terminando nos seus pés bem tratados, que ficam à mostra naquela sandália aberta e de salto curto. Quase agradece a gentileza pela ajuda, sem ver, mas sabendo a quem.

O trabalho, uma mera rotina, é feito com momentos de tensão, preocupações, aborrecimentos que logo passam, pois sente que pode participar com alguém, mesmo em seu silêncio, recebendo dele as forças necessárias para superar as suas agruras. O tempo parece passar rápido quando imagina a presença do seu amado. Pouco depois, o mesmo trajeto de volta, a mesma janela, a mesma companhia e a mesma mão afetuosa ao descer os degraus e aquele olhar que vai dos cabelos aos pés, deixando o seu rosto em chamas.

Logo estará em casa para partilhar com ele através de um encontro virtual aqueles momentos de mais um dia intenso. Algumas coisas nem precisam ser ditas, pois viveram juntos, sentiram de forma misteriosa como um encanto.  Quase nunca há tempo para jantar. Um pequeno lanche que ela apressadamente requenta e que ambos já conhecem de cor, às vezes teima em queimar ao forno, fazendo parte daqueles novos momentos de parceria e de troca.

É chegada a hora de se recolher, hora essa que sempre é contestada pela rigidez como é usada, entretanto respeitada pelas obrigações que existirão no dia seguinte. O banho se repete, agora mais demorado. A massagem reconfortante recebida daquelas mãos suaves e imaginárias, olhos fechados, além de deixar o corpo leve, parece aproximá-la cada vez mais do sono que já se manifesta. Toalha enrolada ao corpo, é hora de escovar novamente os dentes. Há algo de misterioso naquela escova e naquele dentifrício que, em contato com a boca da jovem, transformam-se em um arrebatador e demorado beijo, com um gosto especial: o sabor de amor.

Na cama, um leve pijama, enquanto o sono não consegue cumprir o seu curso, ela tenta prolongar o enlevo do seu sonho que não deve nunca acabar. Espera que, em algum momento de tudo isso, sinta reforçado esse encanto, materializando-se em um encontro quando, talvez, já tenham começado a cair as barreiras, os temores, os obstáculos e os medos. Pode ser que seja, dessa forma, o início do verdadeiro sonho...

 

Hugo Hereda

 

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