Os Insuportáveis    

O Beabá do Cavalo

"Pelo lado do cavalo por um dia..."

Por que alguns animais têm um temperamento tão diferente do que desejaríamos? Encocheirados são lindos e bem cuidados, mas agressivos e indiferentes com as pessoas, nervoso no manejo e complicados no trabalho montado. Ainda que em bom estado, têm a saúde às vezes frágil, sendo acometidos tanto de distúrbios digestivos, de pele, como do aparelho locomotor. Geralmente não podem ser soltos em companhia de outros cavalos sem resultados desastrosos. Alguns nem mesmo sabem ficar em piquete. O que acontece é que não é sempre que há oportunidade de solta-los, isto é, a rotina deles é ficar encocheirados e eles acabam se "acostumando" com isso. E não encaram o trabalho montado com disposição e sim com nervosismo. Parece um paradoxo: quanto mais nos dedicamos aos nossos cavalos, mais problemas eles têm.

No entanto, o que mais entristece, não é este estado de coisas, mas a falta de percepção por parte de cavaleiros e proprietários. Estão "matando" seus cavalos, mental, se não fisicamente, com exagero de zelo e cuidados mal direcionados. Estão esquecendo ou nunca se preocuparam em conhecer a verdadeira índole e as necessidades elementares de seus animais.

Pelo lado do cavalo

Suponha que estivéssemos pensando menos como gente e mais como cavalos, e tentando entender o ponto de vista deles."Sou um cavalo, igual a centenas e milhares no Brasil e no mundo. Vivo numa hípica ou num pavilhão bem cuidado de cocheiras. Meu dia-a-dia começa cedo, quando recebo minha ração; logo depois sou preso a uma argola na parede. Sou escovado, minha cama é limpa, e permaneço a espera do meu exercício diário. À espera, fico com sede, pois me prenderam quando eu mal acabava de comer minha ração. Sem que percebam nada disso, logo que o treinador chega, vamos logo ao trabalho. Logo depois, vou para a ducha, onde fico amarrado para secar bem até o meio dia. Então sou solto para comer feno e beber água. Tento me esfregar, rolar na terra para aliviar a coceira nas costas, mas meu treinador vem logo aos gritos para que eu não me suje.

Se meu dono vem montar, trabalho apenas à tarde. Passo então a manhã toda amarrado, e volto a ser atado logo depois do almoço. As vezes ele manda dizer que vem às 11, mas acaba chegando mesmo é depois das 14 hs; então passo o tempo todo aguardando encilhado e atado, e vou beber água e comer feno apenas à tarde. Em compensação estou resplandescente, com os cascos engraxados e crinas desfiadas, quando meu dono finalmente aparece. Estou com sede e coceira - ficando atado tão curto, não posso nem me coçar, nem andar em círculos para despertar as pernas dormentes. Meu dono tem pouco tempo, então passa logo aos galopes e aos saltos. Minhas costas doem, minhas pernas estão rígidas; não consigo me sair bem, então me castigam com o chicote e as esporas. Às vezes fico meio desanimado, e resolvem aumentar a minha ração. Aí fico com tanta energia que nem sei o que faço, saio corcoveando e aí apanho ainda mais.

Depois de 40 minutos meu dono volta comigo às cocheiras, e a rotina é a mesma. Com sorte, fico fora do meu cubículo umas 3 horas por dia, 1 hora montado e 2 para secar, amarrado. Quando, por exemplo, meu dono me monta no domingo cedo e depois novamente na terça feira à tarde, fico só 56 horas parado dentro do meu box. E isso quando algum compromisso não cancela a vinda de meu dono. Assim meu treinador não tem mais tempo para mim e só vou sair na quarta feira.

Como meu dia começa às 7 horas da manhã e termina às 5 da tarde, isso quer dizer que minha noite de sono é de 14 horas e meu dia de 10 horas. Meu cocho é muito pequeno e não tem grande capacidade para água; as vezes bebo tudo no princípio da noite e fico torcendo para que se lembrem de enche-lo novamente antes d'eu ser amarrado de manhã. É pior no verão, quando apesar do calor, fecham a parte de cima da porta do box. Já nas primeiras horas da noite o calor e os vapores de urina se tornam insuportáveis. Fico pensando no que aquele cavalo Alemão me falou na ducha outro dia. Disse que por lá muitos cavalos sofrem de bronquite e enfisema e que os proprietários de lá dão muito valor ao ar fresco

Faz muito tempo que não sou solto num piquete. Da última vez que o fizeram, há alguns meses, corri tanto que ficaram com medo que eu me machucasse, então resolveram não me soltar mais. Nem me lembro de quanto tempo faz que não encosto num outro cavalo. Mesmo esticando nossos pescoços, meu vizinho da direita e eu não conseguimos aproximar nossos focinhos. Minha vizinha da esquerda é uma égua velha que já deve estar na hípica ha uns dez anos; ela ignora ou ameaça outros cavalos, e fica com a cabeça no canto, ou balançando o pescoço de um lado para outro por cima da porta do box. Parece divertido ! Qualquer hora vou experimentar para ver como é".

Interferências do homem

É verdade que não devemos humanizar cavalos ou quaisquer animais, mas pior ainda é torná-los objetos, coisas que existem apenas para nossa serventia. Um animal não planeja, ele apenas sente: medo ou confiança, dor ou alegria, fome ou solidão. Ele não tem perspectivas futuras, vive apenas o hoje, ele não tem como preencher as longas horas de tédio. É claro que um cavalo acaba se apegando à sua rotina por mais perniciosa que ela seja, mas geralmente, o embotamento mental, a agressividade ou a indiferênça, além de sintomas físicos, são o preço a pagar.

Qual é a motivação que oferecemos para o desempenho de nossos cavalos atletas? Um cabresto novo, uma manta colorida, suplementos vitamínicos, sofisticados tratamentos veterinários? Não é possível que sejamos capazes de compreender a angústia de um animal, que tendo sido criado para viver solto, permanece confinado por anos e meses a fio! Com os avanços da psicologia e etologia, quando sabemos que pessoas ficam loucas pela simples falta de contato físico com outros seres humanos, como podemos esperar que um cavalo permaneça normal sem nunca ter tido contato com seu semelhante, as vezes nem mesmo podendo olhá-los por cima da porta do box? Se o cavalo na natureza pasta quase ininterruptamente e bebe água quando quiser, por que nos admiramos, tendo modificado tão radicalmente seu regime alimentar, com a quantidade de cólicas que afligem e matam os animais que dizemos amar?

Beabá do cavalo

- Deixar bem claro ao tratador e ao proprietário que a limpeza é secundária ao bem estar psíquico do animal. A cama deve ser limpa diariamente, e o cavalo raspado intensamente 1 vez ao dia. Fora isso ele deve permanecer á vontade, solto no box o maior tempo possível, espojando sempre que desejar. Uma passada superficial de pano e escova demora aproximadamente 2 minutos (faça a experiência). O hábito de ficar preso à argola deriva do comodismo do tratador.

- Exceto na meia hora antes e depois de trabalho intenso, o cavalo deve beber toda a água que quiser, sempre que quiser. Muitas vezes é essencial que o proprietário ou encarregado fiscalize permanentemente o cocho de água. O cavalo que bebe à vontade urina bastante; mais trabalho para o tratador!

- A ração deve ser dada no mínimo 2 vezes por dia. Hoje em dia é considerado mais correto dividir o alimento concentrado em várias porções menores. Isso não ocorre com o feno ou capim seco, que pode ser ingerido imediatamente antes ou depois do trabalho sem nenhum problema. É bom lembrar que comer é excelente para combater o tédio. Para que o animal tenha a sensação de estar pastando, fracione o capim em punhadinhos, deixando a maior parte para noite. Lembre-se que um cavalo adulto não dorme mais do que 3 ou 4 horas por noite, em ciclos de 20 minutos, intercalados por períodos despertos.

- Ar fresco é fundamental! A sensação térmica do cavalo não é como a nossa. Ele se ressente com correntes de ar e não com temperaturas baixas.

- Fazer esforço para tirar o cavalo da cocheira pelo menos 2 vezes ao dia. Puxando pela guia, montando ou simplismente passeando. Se for possível soltá-lo no piquete 1 hora por dia, tanto melhor. A idéia de que o cavalo em campanha não pode ser solto, pois perde energia, é "ultrapassada". Não se deve confundir "energético" com permanentemente "estressado".

Um relato

"Em fins de abril de 1994, a primavera já se infiltrava até mesmo nas úmidas baixadas da Bélgica. Havíamos acompanhado o fim da temporada de Salto de Inverno, e agora aguardávamos o nosso retorno ao Brasil, caminhando ao sol, perambulando entre os piquetes. Num deles, um grande castrado Irlandês galopava. Era castanho-escuro, estava coberto de lama da cabeça aos pés, sua capa de lona havia escorregado em parte, depois que o cavalo havia deitado para se espojar pela enésima vez.

Dando pulos e sacudindo a cabeça feito um potrinho, o cavalo corria até a cerca, pulava uma larga valeta no meio do piquete, relinchava para os potrinhos vizinhos, pastava um pouco, saía de novo a galopar, fingindo que saltaria a cerca do piquete para se deter no último instante. Se quisesse, é claro, ele saltaria sem a menor dificuldade, pois ela media pouco mais de metro e meio. Era VIVALDI, de 17 anos, que no ano anterior havia levado seu ginete NELSON PESSOA, à sexta vitória no Derby de Hamburgo, e que naquela semana estava de partida para o CSI (Concurso Internacional de Salto) de Roma.

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