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Matéria publicada no Jornal da Tarde (São Paulo), no dia 23 de agosto de 1998, na página de Esportes (5-B).
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"Senna Tetra" já tem 300 mil adeptos
O advogado brasileiro Walter Policastro Roisin lidera campanha para conceder título póstumo de tetracampeão a Ayrton Senna. São necessários US$ 20 mil para ação na Justiça francesa.
CAMPANHA PARA QUE A FIA RECONSIDERE PUNIÇÃO AO PILOTO BRASILEIRO TEM APOIO DE JAPONESES.
A campanha Senna Tetra já conta com 300 mil adeptos em todo o mundo. E só agora está chegando ao Japão, onde o piloto era tão querido como no Brasil. O movimento tem um só objetivo: fazer com que a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) reconsidere a punição a Ayrton Senna no GP do Japão de 1989, penalize Alain Prost e dê o título para o brasileiro. Só R$ 20 mil separam um grupo de advogados da Justiça comum francesa, onde a ação deverá ser movida.
Quem lidera o movimento desde 1996 é o advogado Walter Policastro Roisin, 37 anos, responsável por páginas na Internet em São Paulo, Nova York e Paris. Ele já avisou a família Senna e o Ministério dos Esportes de sua intenção. E acha que tem 100% de chances. "Quando Jean-Marie Balestre, o ex-presidente da FIA, confessou em novembro de 96 que tinha ajudado Alain Prost, abriu-se a possibilidade de uma ação", diz.
O final do GP do Japão em 89, no auge da rivalidade entre Senna e Prost, provocou muita discussão. As duas McLaren, primeiro a de Prost depois a de Senna, entraram juntas na curva que antecedia a chicane na 47a. volta, a seis do final da corrida. Senna, por dentro, com as rodas quase na grama, começa a ultrapassagem. Prost reage, joga o carro para o lado de Senna e os dois acabam batendo.
Vitória cassada
Para o francês, o resultado era excelente, assegurando o título. O carro de Senna é empurrado e volta para a pista. Pára rapidamente no box, troca o bico e volta a pista para ultrapassar a Benetton de Alessandro Nannini e ganhar a corrida. Os comissários, sob a influência de Balestre, cassaram a vitória de Senna com o argumento de que ele cortou a chicane em vez de fazer o traçado normal, depois do acidente. Nannini foi declarado vencedor. Nem Senna nem Prost pontuaram.
Nem a McLaren, equipe dos dois pilotos, conformou-se com a decisão e apelou no tribunal da FIA. Senna foi derrotado outra vez.
"O Prost é quem deveria ser punido. Minha idéia é aplicar ao Prost a mesma punição aplicada ao Senna, a perda de nove pontos do seu total de pontos na temporada. E devolver os nove para Senna. Dessa forma, Senna acabaria o campeonato com 69 pontos e Prost com 67", raciocina o advogado. Na realidade Alain Prost foi campeão com 76 pontos contra 60 de Ayrton Senna.
Senna foi pressionado pela FIA para retirar as críticas à entidade, Balestre exigiu uma carta de desculpas para que ele pudesse disputar a temporada do ano seguinte.
Valeram os argumentos da McLaren, provando por meio de fotos e filmes, que Senna estava ultrapassando Prost corretamente, sem ferir o regulamento.
"Todo mundo viu o que aconteceu. Balestre manteve uma posição cínica, defendendo-se nas entrevistas e negando que tivesse beneficiado Alain Prost. Em 96, Prost fez alguma coisa que Balestre não gostou. E o ex-presidente acabou admitindo que tinha prejudicado Ayrton Senna. Quem precisa de mais argumentos ?"
Ajuda a Prost
No julgamento da FIA, antes da última corrida do campeonato, em Adelaide, Ron Dennis ameaçou ir para a justiça comum francesa. Só desistiu quando foi ameaçado de exclusão do automobilismo.
"Segundo os estatutos da FIA, o julgamento deveria ter um tribunal de cinco membros. Só quatro participaram. Portanto, ele não valeu", conclui o advogado.
Quando deixou a FIA, em novembro de 96, Balestre encerrou a carreira de dirigente esportivo concedendo uma delicada entrevista ao jornal L'Equipe dizendo literalmente: "Eu dei uma ajudazinha para o Prost ganhar o título em Suzuka..."
Walter Policastro Roisin enviou uma petição para o tribunal da FIA e nem recebeu uma resposta. Soube que os dirigentes da entidade esportiva descartaram qualquer possibilidade de reabrir o caso. Se a justiça francesa não aceitar a ação, o advogado está seguro de que terá sucesso na Corte de Haia.
"Faço isso por diversos motivos. O principal deles é que sou brasileiro e acho que devemos ser respeitados fora daqui. O Ayrton Senna tinha muito orgulho do Brasil. Conquistar o tetra para ele é uma homenagem justa e a afirmação de nossa nacionalidade" diz Roisin. Para ele a defesa do tetra para Ayrton Senna romperá um defeito comum do brasileiro que não gosta de brigar por seus interesses.
Roisin tem o apoio de outros advogados paulistas e, atualmente, só quer levantar R$ 20 mil de patrocinadores para mover a ação. O dinheiro é para manter um dos advogados na equipe durante alguns dias em Paris, para entrar com a ação. Esse valor inclui gastos burocráticos com tradutor juramentado e outros pequenos detalhes.
Castilho de Andrade
Movimento Tem sites na rede
Nos Estados Unidos, França e Japão
Uma suposta vitória na Justiça transformaria Senna em tetracampeão mundial e Prost em tricampeão?
Para Walter Policastro Roisin, o francês Alain Prost poderia até permanecer com o título.
"Não me interessa tirar o título dele. O que eu quero é que Senna seja tetra. Se a FIA admitir o erro e optar por dois campeões em 89, porque não poderia cassar o título de Alain Prost, estaria perfeito. E não seria injusto."
A campanha Senna Tetra pode ser acessada na Internet no endereço www.cityscape.com.br/senna/. O e-mail é [email protected].
"Quando começamos com a página, os acessos eram tantos que tivemos de mudar o equipamento. Depois, para tornar o acesso mais rápido, criamos os sites nos Estados Unidos, França e, mais recentemente no Japão. Isso não vai parar."
Roisin não teme que o tribunal francês fuja da responsabilidade por causa de Alain Prost, um dos grandes ídolos esportivos do país. "Entre os 300 mil cadastrados temos muitos franceses. E, em Paris, Clement Baratier, filho de uma brasileira com um francês, é nosso representante. Ele é muito bem relacionado e acredita na campanha."
E o apoio no Brasil ?
Roisin acha que as dificuldades serão superadas à medida que etapas na Justiça forem superadas. "Não estamos pedindo nada. Achei que devia avisar a Viviane Senna e mandei um fax comunicando o que estamos fazendo, que está em nossa página na Internet."
Recentemente, o advogado também decidiu oficializar a campanha perante o governo brasileiro. Enviou documentos ao presidente Fernando Henrique e ao então Ministro dos Esportes, Pelé.
"Acho importante que a campanha seja do conhecimento de todos, independentemente da ajuda que possam prestar. O simples fato de tornar o movimento conhecido já fortalece", analisa.
Por isso, o site do Movimento Mundial Senna Tetra remete a diversos outros sites sobre o tricampeão mundial, com destaque para o site Ayrton Senna - Simply the Best.
Quanto à Confederação Brasileira de Automobilismo, a quem Senna era filiado, Roisin diz que o apoio seria importante. Mas julga que isso não deverá ocorrer: "a CBA é filiada à Federação Internacional de Automobilismo. Não sei se ela se interessaria em participar desse movimento."
Roisin procurou também os patrocinadores de Ayrton na época, como a Philip Morris (Marlboro), Unibanco (que adquiriu o controle acionário do Banco Nacional) e outros. Os responsáveis não aderiram ao movimento. Mas também não fechamos as portas. "Acho que eles acabarão entrando", diz o advogado.
Quando Ayrton Senna foi ameaçado de não ter a superlicença de volta por causa das críticas à FIA e ainda foi classificado por Balestre de "cabrito indócil e inconformado", chegou a reclamar da omissão da Confederação Brasileira de Automobilismo.
C.A.
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