
![]()
Olá.
Abaixo irei colocar uma entrevista com Ayrton Senna feita no inverno de 1993. Esta entrevista foi publicada no livro "Ayrton Senna - Sua Vitória, Seu Legado", de Karin Sturm, às paginas 138 e 139.
Espero que admirem a profundidade e clareza das respostas. Aliás, coisa que era bastante característica em Senna.
Como diz Karin Sturm, "havia uma infinidade de perguntas a fazer enquanto esperávamos a famosa 'pausa para pensar de Senna', que às vezes chegava a durar meio minuto e que precedia respostas de formulação precisa e pensada (...). Ele pensava (quase sempre) de maneira precisa o que ia dizer."
![]()
Pergunta: O que significa felicidade para você?
Resposta: A felicidade vem de uma disposição mental determinada, de estar em paz consigo mesmo, para ter em torno de si as pessoas de que se gosta, para fazer o que se sonha de fazer.
P.: Com que você sonha?
R.: Muitas vezes, com as corridas mesmo, mas principalmente com muitos planos que tenho, que só têm a ver com o automobilismo de forma indireta. O sucesso me deu possibilidade de acesso a muita gente influente, que pode atuar nos projetos que tenho para o futuro - o que eu gostaria de utilizar.
P.: O que você viu de comovente ultimamente?
R.: Quando vejo na televisão qualquer competição, em que alguém coloca um desafio para outro vencer, isso toca o meu lado emocional, porque sei como é importante para todo esportista atingir os seus objetivos, porque sei como isso afeta internamente. Tenho os mesmos sentimentos, e por isso me comove tanto. E me comoveu também, este ano (em 1993) ver o início da conferência de paz, em Washington, entre israelenses e palestinos, o encontro entre o primeiro-ministro israelense e Arafat. Um conflito histórico entre dois grupos humanos que trouxe tanto sofrimento. E agora a gente vê esses homens, que estão em condições de encontrar um começo de uma vida nova para seus povos. Foi muito comovente, porque a gente sabe como o ódio era profundo, quantos conflitos se estenderam pelas gerações. Provocou muita emoção e desejo que o processo de paz entre em ação.
P.: No que você acredita?
R.: Em Deus.
P.: Qual é o seu ponto forte?
R.: Fazer tudo de forma conseqüente, dedicada e decisiva.
P.: Qual é o seu pior hábito?
R.: Eu durmo demais.
P.: Você tem um sonho para o futuro?
R.: Sim. Muitos planos estão há muito tempo na minha cabeça, mas ainda não encontrei uma maneira de colocá-los em ação com outras pessoas. Outros estão em marcha, mas ainda são segredo (Obs.: ele estava falando do "Senninha") e vão ser revelados dentro de três ou quatro meses. Mas tenho tantas idéias sobre tantas coisas para fazer que ainda não sei como. Quando estou na cama, a meio caminho entre o sono e a vigília, penso muito sobre tudo, não posso evitar, vou de uma idéia para outra ... e todos esses planos viram um sonho, que vejo crescer, progredir, vejo pessoas felizes através deles. (Pergunta intermediária: São principalmente projetos sociais para crianças?) Sim, bem nessa direção, mas não somente para crianças, embora principalmente para crianças.
P.: O que você odeia?
R.: Corrupção e mentira.
P.: Quem gostaria de ser?
R.: Muitas vezes eu gostaria de ser meu sobrinho pequeno, ou meu pai, com toda a sua experiência, ou minha irmã, pois nos movimentamos em áreas diferentes, temos responsabilidades diferentes. Muitas vezes eu quis ser médico, e muitas vezes gostaria de ser eu mesmo, só para perceber melhor a realidade. Porque, normalmente, tenho sempre uma grande quantidade de gente em volta de mim, que se preocupa comigo, sou protegido regularmente. Não se permite que as pessoas cheguem perto de mim. Por isso não vejo muitas coisas que acontecem ao meu redor. Sei que muita gente me trata muito bem pela frente, e que há um discurso completamente diferente nas minhas costas. Ou então manipulam pessoas que estão perto de mim, e não a mim mesmo. E, por essa razão, eu gostaria de ser, muitas vezes, uma pessoa comum, desconhecida, que pudesse perceber o que realmente se passa. Eu queria me ver de fora, para ver a realidade, como as pessoas agiriam e reagiriam. (Pergunta intermediária: Quer dizer que você gostaria de voar para fora do seu corpo?) Sim, é claro ... voar, esse seria um grande desejo - mas que nunca irá se realizar totalmente.
P.: Quais são as suas manias?
R.: Eu não acredito que realmente tenha uma mania. Mas talvez pudesse se chamar de mania o fato de eu gostar de coisas excitantes. Essa é uma das minhas características.
P.: De quem ou de que você ri?
R.: Eu rio de comediantes.
P.: Qual é o traço principal do seu caráter?
R.: Não desistir nunca.
P.: O que gostaria de mudar em você?
R.: Talvez poder aceitar melhor as pessoas como são. É difícil acertar certas coisas, mas desejo me tornar mais flexível nas minhas reações em relação às outras pessoas, e aceitá-las como são - muitas delas com as suas grandes qualidades e defeitos, mas simplesmente como são.
P.: O que é difícil de deixar de lado?
R.: Muitas vezes o descanso; outras, a aventura excitante.
P.: Qual é o luxo a que você se dá?
R.: Só o descanso, deixando as coisas todas andarem devagar.
P.: Qual a descoberta mais importante para você?
R.: Acredito que as descobertas mais importantes são as que se fazem no campo da medicina. A vacina contra a paralisia infantil, por exemplo, foi uma coisa importante. Mas também contra outras doenças, que em outros tempos causaram tanta dor e sofrimento, e que agora se tem sob controle absoluto. No campo da técnica também há muito progresso, mas esse é um processo contínuo: descobre-se uma coisa no ano tal, no ano seguinte mais uma, etc ... não, acho que os progressos que beneficiam a todos, pobres e ricos, da mesma maneira, são os progressos da medicina, que impedem a doença e a dor.
P.: Que capacidade você gostaria de ter?
R.: A de entender melhor as outras pessoas.
P.: Que ilusão você perdeu no decorrer da sua carreira?
R.: A ilusão de que era possível vencer o sistema. E na realidade é preciso fazer uma escolha. Ou a gente se adapta, ou fica fiel a si mesmo e enfrenta os problemas.
P.: Quem é o seu grande rival?
R.: Houve e há muitos, ao longo da minha carreira: no kart, por exemplo, era Terry Fullerton. Foi muito bom, ele era um excelente piloto. Na Fórmula 1, eu diria: Mansell e Prost. (Pergunta intermediária: E não Gerhard Berger?) Não, realmente não. Porque embora Gerhard e eu, naturalmente, já nos tenhamos enfrentado, isso nunca aconteceu de uma maneira negativa, sempre foi positivo. Temos respeito um pelo outro, nos entendemos e, por isso, nunca nos desafiamos no limite extremo. Já disputamos duramente, mas nunca passamos dos limites, porque nunca quisemos nos ferir. Com Prost e Mansell é diferente. Nós sempre fomos adversários amargos - e sempre nos comportamos assim.
P.: O que deixa você irritado no esporte?
R.: As coisas injustas e mal feitas.
P.: Quem gostaria de conhecer?
R.: Eu gostaria de poder voltar no tempo, na história. Ir para os anos setenta, sessenta, cinqüenta, quarenta, 1900, 1800, 1500, o ano do nascimento de Cristo - e conhecer todas as pessoas que fizeram a história, ou que fizeram coisas boas. Eu gostaria só de observá-las, para ver o que elas fizeram na realidade, por que fizeram as coisas daquela forma, as boas e as menos boas. Acho que seria a maneira ideal de entender melhor a vida e as pessoas de hoje.
P.: Quais as manchetes que gostaria de ler sobre você?
R.: Basta o meu nome.
P.: O que significa popularidade para você?
R.: Ser admirado e ser também um centro de estresse, repulsa e inveja. A popularidade tem muitas facetas. Naturalmente eu gosto - como todo mundo - só dos elementos positivos, disso tudo, mas é preciso estar preparado para enfrentar o lado negativo da vida na popularidade.
P.: Qual foi a pergunta mais boba que já lhe fizeram?
R.: (Ri) Essa eu não posso responder sem criar atrito. Mas, olhe, sinceramente, eu esqueço essas coisas. Não me ocupo de coisas negativas, pelo menos não agora, neste momento da minha carreira. Estou em boas condições, estou animado. Principalmente aqui, agora, neste fim de semana (ele referia-se ao final de semana em Bercy, Paris). Aqui revi gente do meu tempo de kart, gente que conheci quinze anos atrás: adversários com os quais lutei, gente de outras equipes, gente com quem trabalhei, que me ensinou muito. Há muito tempo não os via.
P.: Quem ou o quê você levaria para uma ilha deserta?
R.: Para isso eu precisava em primeiro lugar inspecionar, dar uma olhada na ilha, ver como seria sua atmosfera, e então iria escolher a pessoa certa - um amigo, um companheiro talvez, ou minha namorada. Ilha deserta - o que significa isso? Que lá seria possível ficar em paz ou meditar? Ou que se teria de dividir a ilha com todas as pessoas amadas? Ou seria um lugar para iniciativas, esportivas por exemplo, para as quais se precisasse de parceiros, um ou dois? Depende de como se vê - eu precisaria primeiro ver a ilha e sentir o que iria fazer. Mas acho que não levaria uma pessoa só. Se o lugar fosse bonito, eu iria compartilhar com mais gente.
P.: Que hobbies você tem além do esporte?
R.: Aeromodelismo, jet ski, esqui aquático, ouvir música ...
P.: Que tipo de esporte você acha dispensável?
R.: Nenhum, todos têm o seu lugar.
P.: Qual foi a sua grnde decepção com o esporte?
R.: Como já disse, nunca penso negativamente, por isso não me lembraria de uma coisa dessas.
P.: Quem é para você o/a maior atleta de todos os tempos?
R.: É difícil escolher um: Fangio é um deles, ou Pelé, Magic Johnson ou Cassius Clay. Eu não gostaria de escolher um só, cada um tem a sua própria força e significado.
P.: O que é pior do que uma derrota?
R.: Ser enganado. Uma derrota esportiva justa pode fazer o derrotado melhorar, mas perder sendo enganado é inaceitável.
P.: Qual o seu objetivo na vida?
R.: Viver longamente e melhorar sempre. Não somente dentro da minha profissão, mas também, e principalmente, na minha vida como um todo. Espero ainda poder fazer muita coisa.
![]()
Para mim, esta entrevista é simplesmente fantástica.
A melhor pergunta/resposta é a da ilha. Naquela resposta você consegue perceber nitidamente o caráter de Senna. Geralmente quando perguntam-nos sobre uma "ilha deserta", é para deixar lá alguém ruim, ou seja, pensamos pelo lado negativo. Senna, porém, já viu a coisa de outra maneira: pensando positivamente, como sempre. E preferiu dizer que se a ilha fosse bonita dividiria-a com todos.
Como ele nos faz falta!
![]()
Quer comprar livros sobre automobilismo?
Clique aqui!
![]()