Prof. Dr. Maurício Knobel
 


 

TÉCNICA EM PSICOTERAPIA BREVE

Capítulo III do Livro "Psicoterapia Breve", Carlos David Segre (Organizador), Ed. Lemos, São Paulo, 1997

Estudar e trabalhar com a temática da Psicoterapia Breve exige uma tomada de posição em diversas atitudes e poder aceitar uma conceitualização teórica compromissada no campo da Saúde Mental.
 Em relação a mencionada “tomada de posição” considero que é necessário assumir um papel profissional sem claudicações num plano pessoal e ideológico socio-político  no mais amplo sentido destes termos - e que serão incluídos em  nossos conhecimentos e na nossa experiência na prática de ajudar as pessoas e a comunidade na área de nossa formação e que nos leva a objetivos que consideramos honestamente proveitosos para a comunidade.
 Assumo meu conhecimento e a minha experiência como médico, como psiquiatra e como psicanalista e, nessa base renuncio a todo dogmatismo que pretenda restringir-me e/ou amarrar-me a uma técnica ou a uma e única concepção do ser humano. Me considero intimamente livre para o exercício de meus conhecimentos, que, no destilado da minha experiência, posso colocar ao serviço da comunidade. Se desta experiência vivêncial resultam contradições, penso sim, que será necessário estudá-las e avaliá-las  para verificar se realmente existem, ou   não são um produto de preconceitos pseudoideológicos ou realmente o resultado de uma inadequada compreensão dos problemas e suas soluções, e então sim, proceder as revisões mais efetivas para o melhor exercício  da minha condição profissional, que não pode, logicamente, dissociar-se de meu ser pessoa na sociedade a que pertenço e a qual contribuo, querendo ou não, a configurar .
 A pesar de muitas experiências válidas e confirmadas com outras técnicas terapêuticas que não a psicanálise, temos ainda  estudiosos que não podem aceitar  as modificações técnicas que vão surgindo. Também é necessário assinalar que autores psicanalíticos  também questionam  o uso psicoterapêutico da psicanálise tradicional. Entretanto considero conveniente assinalar que  foi o próprio Freud que destacou o valor terapêutico da técnica psicanalítica. Na conferência XXXIV  da suas “Novas Conferências Introdutórias”, reafirma sua convicção  sobre os aspetos pragmáticos e “curativos” da psicanálise. (Freud, 1933) e que se repetem em toda sua obra, e se reafirmam no “Esquema” (Freud, 1940),  e que são utilizados pela grande maioria de seus seguidores. São estes conceitos terapêuticos os que predominam por muito tempo e até chegam a configurar um verdadeiro dogmatismo que, no meu ver, prejudica muito o desenvolvimento das teorias psicanalíticas.
 Os que ousaram mudar a técnica, foram Alexander e French, que introduziram  modificações que levaram a abreviar os tratamentos psicanalíticos com o que denominaram  a “psicoterapia psicanalítica” na qual postulam  e praticam uma distinção metodológica dentro da própria teoria psicanalítica que , consistente com a idéia de liberdade interna para modificar nosso mundo inconsciente conflitivo , permite alterar aspectos  “técnicos” , sem por isso afastar-se dos princípios psicanalíticos fundamentais.
 A denominação do novo enfoque surge para esclarecer, em  esse momento histórico, que sim é possível aplicar o acúmulo de conhecimentos e experiências  psicanalíticas num contexto prático diferente ao da psicanálise “tradicional” .( Alexander e French , 1946)
 Eles propõem dois princípios modificadores da técnica, que são de grande importância : 1) o principio da flexibilidade, e 2) o princípio da    experiência emocional corretiva . Desta maneira , a técnica terapêutica baseada na psicanálise se faz mais dinâmica, menos rígida, se abrem as possibilidades de diminuir o número de sessões semanais, o terapeuta vira mais ativo e menos distante. Se mantém a interpretação transferencial e os processos psicodinâmicos acabam sendo iguais, ou muito semelhantes aos da psicanálise.
 Hoje a psicanálise propriamente dita, já se afasta, as vezes em forma ostensível da prática classicamente freudiana. Um importante livro sobre a psicanálise após Freud, publicado no Mexico em  1989 apresenta em forma resumida as teorias e as técnicas  de Hartmann, Melanie Klein, Lacan, Fairbain, Guntrip, Balint, Bion, Winnicott, Meltzer, Racker, Etchegoyen, Rosenfeld, Liberman, Grinberg, Mahler, Kohut e Kernberg. (Bleichmar e Bleichmar, 1989). Se aqui acrescentamos contribuições como as de Bleger, Garma, Ammon, Miller de Paiva, Herman, Rascovsky, Chiozza, Dolto, Rapaport, Green,  Nassio, Pichon Riviere e outros autores altamente criativos, teremos uma  enorme gama de idéias e procedimentos ( técnicas ), estritamente psicanalíticas, porém não seguindo rigorosamente ao velho mestre, se mantendo dentro da teoria a qual ampliam na sua conceição teórica e num um tanto diferente rigorismo técnico.
 Os conhecimentos psicanalíticos  se acumulam, se expandem, se aprofundam e abrem novas idéias e perspectivas. Simultaneamente, as terapias comportamentais, as sistêmicas, as cognitivas, as existenciais e até a velha e tão questionada hipnose, são constantemente atualizadas.
 Na Alemanha, em Munique exatamente, Günter Ammon desenvolve uma série de idéias e procedimentos que considera básicos para uma verdadeira “Psiquiatria Dinâmica”, a qual tomaria em conta os processos dinâmicos da vida grupal do paciente, assim como seus relacionamentos com outras pessoas. Entende que é necessário lembrar que o desemprego,  as dificuldades no trabalho ou profissão e muitas outras situações de “stress” desencadeiam quadros psicopatológicos. Surgem assim as necessidades de atualizar os atendimentos hospitalares e os privados, a comunidade terapêutica com as suas diversas técnicas, as clínicas de dia, as de noite, a milieu-terapia, etc. Se desenvolvem conceitos básicos como “energia social”,  terapias pela dança, a música, o teatro, e também as terapias grupais. Cada modalidade terapêutica deve adaptar-se a particular estrutura do Ego de cada paciente. (Ammon,1991).
 Nossrat Peseschkian fala de quatro maneiras de lidar com os conflitos: 1) A través dos sentidos, com o corpo; 2) a través do raciocínio, com as realizações; 3) através da tradição, com o contato, e 4) através da intuição, com a fantasia. Postula assim o que denomina “Psicoterapia Positiva” . (Peseschkian, 1987).
 Temos conhecimento de uma variedade de propostas de diferentes matizes e estratégias. Em muitas vejo uma atitude agressiva e masoquista mais ou menos disfarçada como programas socio-político-econômicos onde a verdadeira condição humana fica negada. Pareceria que, como já o manifestou Jules Masserman, ainda não temos as condições de abandonar as defesas Ur e os delírios Ur (Masserman, 1973). Estão ainda bem presentes nas fantasias mágicas e místicas da sociedade em geral, assim como também nos terapeutas particularmente.
 Marmor, quando já parecia que os terapeutas tinham esquecido o trabalho pioneiro e altamente eficaz de Alexander e French, atualiza esses conceitos e os revitaliza, acentuando a necessária flexibilidade do terapeuta  e  aprofunda no valor da atitude terapêutica como um elemento a mais a ser seriamente considerado. ( Marmor, 1986 ).
 Autores preocupados com a diversidade de teorias e técnicas psicoterapêuticas , nos ensinam a ter , no mínimo , uma visão das possibilidades que  chegam a ter alguns enfoques baseados em estudos teóricos sérios e experiências clínicas de valor. Entendo que nesse sentido os esforços de Wolberg, Berge e Cordioli merecem ser mencionados e recomendados, precisamente para não ficar amarrados a dogmatismos extremistas. (Wolberg, 1954 ), (Berge, 1970 ), ( Cordioli, 1993).
 Cabe mencionar que em muitas das terapias mencionadas deve acrescentares  o conhecimento biológico, para que a tão falada “terapia  bio-psico-social” seja uma realidade ao serviço do paciente e não uma vazia expressão sem conteúdo e sem convicção. Guntrip, já se ocupou do tema fazem anos e seu trabalho psicoterapêutico e psicanalítico não pode ser negado. Diz este autor que nenhuma droga psiquiátrica imaginável pode transformar a um ser humano cheio de conflitos numa pessoa maduramente desenvolvida, porém pode, sim, quando adequadamente prescrita fazer muito para controlar tensões, reduzir sintomas, e fazer a vida bem mais aceitável. (Guntrip, 1964 ). Eu pessoalmente concordo plenamente com este autor e  não poucas vezes  faço uso dos psicofármacos, e procuro acompanhar o formidável desenvolvimento das pesquisas neurobiológicas e as farmacológicas. Jamais tentei tratar uma  pessoa com uma depressão severa - que até não permite o mínimo diálogo - sem primeiro procurar aliviar esta situação com os modernos inibidores da recaptação dos neurotransmisores tão eficazes em estos quadros psicopatológicos, e assim por diante. Acostumo a dizer ao paciente e aos seus familiares, que necessito desta ajuda científica e válida para, desde meu ponto de vista, começar a fazer a psicoterapia que considero ajudará muito mais ao paciente a superar seus conflitos e viver uma vida mais confortável. A citação de Guntrip tem já mais de trinta anos, e lembro também que o brilhante psicanalista argentino Pichon Riviere , mais ou menos por essa época, já utilizava os psicotrópicos disponíveis no só no hospital, mas também em pacientes em análise. Não foi necessário dar nome a esta combinação terapêutica. Era - e ainda é - muito útil e forma parte de uma psicoterapia holística que pretende, fundamentalmente, ajudar ao paciente.
 O anotado nada tem a ver com o movimento, atualmente bastante difundido da chamada “Neuropsiquiatria” e menos ainda com  a “neurolinguística” , que negando  (ou ignorando) as aportações psicodinâmicas de base psicanalítica fazem (pelo menos alguns dos seus cultores) una mistura de terapia comportamental e de apoio, quando não de doutrinamento com , as vezes, matizes místicos. Outros pretendem que toda psicopatologia é essencialmente “orgânica” e que quaisquer problema deve ter uma solução farmacológica. Existe, nestes enfoques, uma verdadeira fuga (ou  resistência) a quaisquer consideração psicodinâmica.
 Utilizar os conhecimentos  psicopatológicos e os desenvolvimentos biológicos e psicofarmacológicos é uma forma de atualizar os conhecimentos psicodinâmicos onde se procura sempre ajudar a pessoa com todos os conhecimentos disponíveis e  não com improvisações pseudo modernistas ou aparentando tanto um falso eclectisismo como um dogmatismo totalitário.
 Cabe sim, mencionar a técnica rogeriana que apresenta  uma aproximação  psicodinâmica, e um verdadeiro confronto entre realidade e fantasia, procurando que o próprio paciente, com esta ajuda terapêutica , corrija suas distorções. Considero interessante anotar aqui que um dos antigos colaboradores de Carl Rogers mora no Brasil, no Estado de São Paulo. O Dr.John Keith Wood (com quem tive a honra de compartir bancas examinadoras quando éramos professores da PUC de Campinas ) e que faz pouco tempo reatualiza  a terapia baseada  na abordagem centrada na pessoa.  ( Wood et al. 1995 ) .
 As psicoterapias  assinaladas , baseadas na teoria psicanalítica , nos levam a afirmar, que , desde um ponto de vista prático , o terapeuta espelho, ou a imagem desse tipo de terapeuta , vai se desvanecendo para dar lugar ,com caracteres cada vez mais nítidos a figura real do terapeuta ou ao terapeuta pessoa real , partilhando com o paciente as vicissitudes da sociedade na qual , todos os dois , terapeuta e paciente realmente vivem.
 Dentro destas  concepções cabe destacar  a  teoria cognitiva e a cada vez mais difundida prática  da Psicoterapia Analítica Cognitiva . Originada para alguns nas teorias de Vigotsky e para outros em trabalhos de Beck , especialmente nos estados depressivos , é hoje um modelo psicoterapêutico que não é possível desconhecer , e que tem , na prática psicoterapêutica aplicações valiosas.
 Para Vigotsky é importante  a mediação - signo nos processos mentais e seu desenvolvimento . Considera que o uso de instrumentos configurados como signos ou sinais ficam internalizados para orientar nossa atividade posteriormente . Ryle usa estas idéias associadas a teoria das relações objetais de Melanie Klein e destaca assim a importância do social na precoce estruturação do psiquismo. (Vigotsky , 1978) ( Ryle , 1982 ) . Leiman  cita a Leontiev , seguidor de Vigotsky , diferenciando atividade de ação, onde a atividade se define pela motivação e a ação pelo seu objetivo . Assim é possível discriminar tipos de conduta e trabalhar os motivos e os objetivos que possam ter a nível inconsciente e ajudar a reavaliar o que possa  significar seguir modelos precocemente internalizados como signos ou sinais que tinham um determinado valor condutual na infância. (Ryle 1985) (Leiman, 1994).
 A psicoterapia vira assim uma atividade reflexiva comum a paciente e terapeuta.
 Existe nesta terapia o que Leiman denominou armadilhas , dilemas e problemáticas.
 As armadilhas levam a assumir que são os outros que tem atitudes negativas e que a pessoa se submete confirmando, neuroticamente, seus pressupostos, e fica com essa convicção. Os dilemas são colocados, neuroticamente, como necessidades de permanentemente  se colocar para decidir uma ação na dúvida polar do “tudo”ou “nada”, um torturante “oito” ou “oitenta”, que configura, condutualmente o “protestador agressivo” ou o “mártir submisso” que nos faz sentir seu eterno martírio . As problemáticas fazem que a pessoa viva  exatamente problematicamente, valga a redundância; a coisa é fazer ou não fazer, agradar ou não, ou mais ou menos, aceitar ou, em termos, rejeitar também em termos. ( Leiman , 1994) .
 Para outros, a base da Terapia Analítica Cognitiva é um confronto entre essas situações inconscientes integradas precocemente no inconsciente e na sua conseqüente conduta e a realidade atual, aceita socialmente em forma consensual. ( Safran e Segal, 1991) ( Beck , Freeman et al . 1992).
 A teoria cognitiva permite uma síntese psicoterápica na qual é possível, trabalhar nos seguintes aspectos : 1) Conscientização dos conflitos apresentando os ao paciente a um nível consciente (trabalhar com os componentes conscientes - estritamente conscientes - que permitem atividades e ações no mundo real  externo); temos aqui uma revalorização da consciência, ou, se se prefere, do sistema percepção - consciência . 2) Ajudar a corrigir uma “realidade” distorcida que inevitavelmente leva a uma conduta errada . 3) Compartilhar uma realidade mais objetiva; onde o compartilhar é dos dois : terapeuta e paciente que devem se situar nesta realidade. 4) fazer uma re - avaliação afetiva. 5) Admitir o acréscimo e correção de nossa (terapeuta e paciente ) bagagem  de afetos e conhecimentos .
 As técnicas de psicoterapia mencionadas abriram as perspectivas de “abreviar” o processo psicoterápico . Todas podem servir de base para o que agora pode se chamar de  “Psicoterapia Breve” , ou como se denomina a publicação científica periódica fundada por Davanloo : “Short-term psychotherapy”,ou seja , “psicoterapia de breve prazo ou duração”.
 Não entrarei no estudo de terapias de grupo de diversa orientação, nem no psicodrama, as terapias de apoio, as terapias ocupacionais e outras já conhecidas. A Terapia Comportamental é basicamente uma psicoterapia breve com um amplo corpo teórico e uma vasta experiência clínica  cuja abordagem deve ser feita pelos terapeutas com conhecimentos nesta área, que não são poucos.
 A minha proposta é ter conhecimentos psicoterapêuticos que não só da base psicanalítica, e, quando possível, aceitar que pode se fazer necessário procurar, ainda que ocasionalmente, ajuda nessas técnicas chamadas por muitos de  “técnicas alternativas”, que implica  uma atitude um tanto pejorativa. Considero que deveríamos reconhecer que na realidade se trata de “alternativas terapêuticas “ passíveis de serem inseridas em quaisquer processo psicoterapêutico, e muito especialmente nas psicoterapias breves.
 Considero que no estágio atual das psicoterapias esta posição é mais científica e mais humana. Significa poder abandonar dogmatismos superegoicos e penetrar na realidade socio-político-econômico de nosso povo, de nossa cultura e de nossas possibilidades reais.
 A década dos anos sessenta abre os avanços da psicoterapia breve. Malan considera a Sifneos  o precursor desta variação técnica tão significativa (Malan, 1976). Entretanto, o próprio Malan nos lembra que Stanley Cobb já tinha iniciado  uma técnica de tratamentos de emergência no Massachussets General Hospital em 1934, que Lindemann em 1941 iniciou  o Serviço de Relações Humanas de Wellesday em 1941, que Caplan em 1964  já trabalhava na “prevenção primária”, e que antes, Bellak e Small, em 1958  praticavam psicoterapia breve, e até “brevíssima”  na  “Trouble Shooting Clinic” de Nova York. O próprio Malan tinha começado a praticar suas idéias em 1960 no Serviço de Atendimento de Jovens, criado na época na Tavistock Clinic. (Malan , 1976).
 Wolberg trabalhava  para uma companhia de seguros em Nova York, que só pagava se se faziam de 3 a 15 sessões, e desenvolveu uma excelente técnica de psicoterapia breve, publicada logo em forma de livro. (Wolberg , 1965 ).
 Os trabalhos de Malan foram os mais difundidos e podem ser considerados básicos para  aprofundar os conhecimentos, os estudos e a validação sistemática do que este autor denomina “Psicoterapia Focal” . (Malan, 1963; 1976 b; 1979 ). Pessoalmente utilizei estas idéias em crianças e em adolescentes ,assim como em diversos casos de adultos . (Knobel , 1977 : 1983 ) . Em nosso meio,Vera Lemgruber atualiza a metodologia desta psicoterapia e continua trabalhando nela . (Lemgruber , 1984).
 Fiorini propõe o que denomina “um diagnóstico da situação” e então adota o procedimento focal  mais adequado e que corresponde  a essa particular situação e momento vital e psicopatológico do paciente. ( Fiorini , 1973 ; 1984 ).
 Nesta linha de trabalho, e aprofundando nos conceitos teóricos da psicanálise, e por outro lado procurando ser pragmaticamente bem mais breve, se coloca Braier. (Braier,  1981 ).
 É realmente importante a contribuição de Muslin e Val, baseada na teoria psicanalítica do Ego de Hartmann e que denominam “Psicoterapia do Self”. ( Muslin e Val, 1987 ).
 Considerando que a psicoterapia breve surge, entre outros motivos, pelas necessidades socio-econômicas da população,  as contribuições de Kesselman e as de Loreto, que enfatizam o compromisso socio-ideológico do psicoterapeuta e estas aplicações no contexto da psicoterapia breve, merecem um destaque muito especial.                                                  (Kesselman , 1977 ) ( Loreto ( 1984).
 Davanloo y Sifneos, as maiores figuras da psicoterapia breve contemporânea, usam uma metodologia que provoca ansiedade e assim mobilizam defesas e atitudes as vezes aparentemente negativas, que, porém, produzem mudanças positivas na estrutura neurótica da personalidade. Sifneos procura delimitar - como Malan - os problemas num foco. Exige que o paciente tenha motivações para uma mudança. Interpreta muito a transferência negativa e nas suas intervenções usa a atenção seletiva, a negligência seletiva e a interpretação seletiva. (Sifneos , 1972 ; 1987 ). Davanloo tende a  manter a maior resistência e uma rápida mobilização da aliança terapêutica inconsciente. Trabalha muito com as defesas, que procura sistematizar com uma finalidade didática  e , que nos lembra que é possível que com a aliança terapêutica se pode conseguir quebrar as resistências, e que níveis de ansiedade podem contribuir a levar esta técnica a ter excelentes resultados .( Davanloo , 1980 : 1996 ) .
 Em nosso meio temos uma boa síntese das psicoterapias psicodinâmicas breves e dos critérios psicodiagnósticos num livro de Elisa Medici Pizão Yoshida .( Yoshida , 1990) .
 Entre nossos colegas corresponde citar a Theodor Salomão Lowenkron que muito bem nos lembra as primeiras terapias de Sigmund Freud, que eram na realidade “terapias breves” , especialmente a de Gustav Mahler e  a de Bruno Walter , assim como alguns dos casos de histeria como os de Katharina, Dora, e poderiamos acrescentar outros desse período inicial da psicanálise . Este autor destaca também a “Técnica Ativa” de Ferenczi e a valorização da motivação para a mudança utilizada por Rank . Este nosso autor apresenta sua experiência em psicoterapia breve com detalhados exemplos clínicos. (Lowenkron, 1993) .
 Considero que devo destacar que esta , já não nova aproximação psicoterapêutica, que é a psicoterapia breve , mereceu uma cuidadosa revisão feita por Ursano e Hales que após avaliar as técnicas breves individuais de base psicanalítica aborda também as que tem seu referencial na terapia interpessoal e a cognitiva , procurando apresentar sua complementação. (Ursano e Hales , 1986).
 Considero necessário esclarecer que toda esta revisão apresentada é a que serve de base teórica e clínica a meus trabalhos sobre psicoterapia breve , psicoterapia focal e a que hoje utilizo .Não é um produto de “inspiração “ nem uma tentativa ousada  produto de uma demanda social ( que por outro lado sim existe ) . Aplicamos conhecimentos , já mencionados , os avaliamos e experimentamos e assim chegamos a uma proposta  com base teórica e experiência pragmática avaliada por anos de trabalho.
Psicoterapia de tempo e objetivos limitados :
 Em 1965 , com o psicanalista Jaime I. Szpilka  trabalhando com pacientes sem recursos econômicos ou de escassas possibilidades , contamos com um grupo de psicólogos e alguns médicos que gostavam das idéias psicanalíticas que transmitíamos e que também (pelo menos alguns deles) necessitavam ou queriam ter sua própria experiência psicoterapêutica. Era essa década dos anos sessenta que já mencionei e o espírito pioneirístico pairava entre nos e la fora na Inglaterra e nos Estados Unidos. Eu já tinha um “serviço “ no Hospital Rawson de Buenos Aires , que funcionava as tardes no serviço de gastroenterologia  que só funcionava de manhã . Estava cheio de tubos, sondas, material de exames , etc. Tinha ums cubículos abertos na frente com cadeiras ou macas e não tinha portas . A demanda era grande e procurávamos não atrapalhar a enfermagem . Nos não tínhamos nem enfermeiras nem secretárias , e um de nos organizava o atendimento . Um dia apareceu um jovem médico , recém formado , e que tinha assistido as minhas aulas e manifestou seu desejo de trabalhar - e aprender - com nós . Como ainda penso que todos devem ter no mínimo uma oportunidade para aprender, o aceitei . Era difícil  encontrar paciente para este novato, que assistia as reuniões e discussões de casos clínicos, e reclamava por não ter um caso para supervisionar . Veio nesse momento uma mocinha de 13 ou 14 anos , trazida pela mãe e que após  as entrevistas diagnosticamos como “ esquizoide”. Também os cubículos e parte do corredor estavam já ocupados . Era verão e o levei ao jardim do hospital, e após algumas sugestões o deixei com a paciente num banco do jardim . Tivemos vários problemas que íamos contornando - e aprendendo a contornar - e a terapia foi saindo, a paciente acabou com a rebeldia na sua família e com as suas colegas, se acalmou, e tomou consciência e seus problemas e da necessidade de  ter, posteriormente outra experiência psicoterápica. Aprendemos o valor do “setting disponível”, de interpretações não transferenciais, do “tempo limitado” e dos “objetivos também limitados”, ou seja avaliamos  o que já estávamos fazendo.
 O lugar apresentava problemas, especialmente burocráticos e de reclamações absurdas, e decidimos, entre todos conseguir outro espaço. Assim fuimos a sede de um clube social que cedeu um dos seus salões para nos trabalhar de manhã e tarde.Assim foi fundado o Instituto de Orientação Familiar de Buenos Aires, numa espécie de mutirão médico-psicológico que foi progredindo e mudando para lugares mais adequados e sempre atendendo pessoal sem recursos ou com muito poucos, aos que se acrescentaram professores, policiais, psicólogos aos que por seu trabalho na comunidade dávamos preferência .
 Nossa experiência aumentava e as idéias - acima já apresentadas - eram a nossa bagagem científica . A maioria de nosso grupo estava em análise com membros da Associação Psicanalítica Argentina , e alguns éramos analistas iniciantes. Surgiram assim idéias novas , propostas válidas e das outras , e tínhamos sim, tempo para estudar , refletir , questionar e fundamentalmente , aportar experiências , que logicamente discutíamos muito.
 Aquele jovem médico é hoje um importante psicanalista e muitos dos colaboradores de aquela época fizeram a formação psicanalítica e já são analistas de prestigio e alguns ocupando cargos diretivos nas instituições psicanalíticas e nas universidades argentinas.
 Compilamos nossas idéias e experiências e resolvimos publicar o que eram as nossas conclusões . Resolvemos optar por denominar esta psicoterapia breve com a “ psicoterapia de tempo e objetivos limitados”. ( Szpilka e Knobel , 1968). Posteriormente elaborei um pequeno manual sobre o tema. ( Knobel ,1990) .
 Questionamos o fato de  chamar a terapia de curta duração de “Breve” por quanto este termo aparece como o contrário da Psicanálise e até da Psicoterapia Psicanalítica . Não é assim . Esta terapia tem status próprio, é uma modificação técnica da psicanálise que permite encurtar a duração do processo psicanalítico e contribui a reavaliar a figura do terapeuta e as possibilidades das suas intervenções.
 Não vou discutir aqui o problema da temporalidade, tema já estudado em outro trabalho meu, me limitando a mencionar que não poucas vezes se faz necessário considerando que existem um “tempo existencial“ ou o tempo em se mesmo; um  “tempo vivêncial“ ou tempo experiência, e um “tempo conceptual“ que é o cronológico e aparentemente objetivável. ( Knobel , 1971) . O conceito de “breve“ resulta assim altamente relativo e só aplicável ao tempo cronológico; e convém lembrar que o inconsciente é , por definição, atemporal. As elaborações e as mutações objetais internas, em que tempo acontecem? ; as interpretações são só do momento  ou ficam no inconsciente ?. Todo o processo transferencial - contratransferêncial  acontece só aqui e agora ou dura o tempo todo ou num tempo de experiência ? . No lapso de uma terapia objetivamente de curta duração não acontecem processos que influenciam a vida toda e por  o resto da vida ? .
 Desde um ponto de vista pragmático limito meu tempo de interação terapeuta - paciente na medida que os conflitos do paciente e as estruturas psicopatológicas resultantes dos mesmos o permitam .
 Aparece aqui a necessidade de saber fazer um diagnóstico psicopatológico tanto descritivo , como fenomenológico e também metapsicológico . Isto me permite também por limites as minhas fantasias de objetivos psicoterapêuticos . Surge assim que nesta terapia que estou  propondo a entrevista inicial é altamente relevante , e logicamente não necessariamente será de uma sessão . A entrevista não é breve e exige preparo do terapeuta para detectar os principais conflitos do paciente e sua estruturação , ou não , num  determinado quadro nosológico (no qual se incluem os fatores biológicos ,os sociais e até os geográficos ) . Pode ser que um paciente que poderia melhorar com uma terapia  tipo psicanálise ou psicoterapia psicanalítica more a 500 ou 600 quilômetros de um centro onde se possa aceder a um profissional capacitado . Avaliamos se é possível que fique no lugar onde estamos e assim proceder com nossa técnica . Lógico que a mesma situação é mais apremiante quando o limite do tempo está determinado pelo próprio caso : situações de crise, emergências psiquiátricas ou sociais (catástrofes ecológicas , transferências repentinas de trabalho , morte de um ser querido ) , preparo precirúrgico ou preparto , acidentes , etc.
 Detectamos alguns conflitos entre os muitos que quaisquer pessoa pode ter. Não trabalhamos com um foco , que poderia ser aquele que foi motivo da consulta e sim com os focos conflitivos que aparecem na entrevista e inclusive com os que podem surgir nas primeiras sessões desta terapia .Esta é uma diferencia importante com algumas terapias “focais” .
 Um senhor de uns quarenta anos consulta por “dificuldades em fazer amigos”. Poderia este ser o foco da terapia . Trata se de uma pessoa  que trabalha , vive só , isolado dos familiares que moram longe e aparentemente  , da entrevista , nada significativo conseguiu se obter . Iniciada a terapia , na terceira sessão , mencionou , de passagem , que observou ao vir para a sessão um jovem muito bonito que chamou sua atenção. Surgiu assim , para o terapeuta , a possibilidade de um outro foco : uma homossexualidade latente ou atuante que não foi mencionada na entrevista . A agressividade que ocultava com esforço também se fez evidente logo . Ou seja , já tínhamos estes três “focos“ no mínimo, para trabalhar, e assim foi continuada a terapia de tempo e estes três objetivos só. Não ficamos somente com aquilo que apareceu como motivo da consulta .
 Após a entrevista , e tendo meu diagnóstico (as vezes várias possibilidades diagnosticas) , ofereço ao consultante o que eu poderia fazer ; aliviar , ou melhorar ou tal vez até eliminar os seus sintomas mais perturbadores e poderemos começar se  ele (ou obviamente ela) concordam. Assim , na realidade , me disponho a interferir no mundo interno do paciente para ajudar lhe a mobilizar suas capacidades reparatórias . Sou ciente de que eu só ajudo  o/a  paciente com seu estilo patológico e perturbado de vida e tal vez com minha ajuda se alivie, melhore e até chegue bem perto do que poderia ser uma “cura “ (termo que considero com muito receio). Ele / ela o farão na medida que minha assistência permita (ou não ) seu mundo interno , iniciar re-estruturações egoicas e superegoicas e fazer, ainda que seja parcialmente , consciente o que era inconsciente.
 Com Szpilka concordamos que o processo psicoterápico da psicanálise poderia ser resumido , esquematicamente , em quatro subprocessos de técnica , reconhecendo que como todo esquema é passível de erros . Porém, para  nossa finalidade clínica e didática é de grande utilidade. Estes subprocessos da psicanálise são :
 1) interpretar a , e em, transferência, com a conseqüente  e procurada “neurose de transferência “.
 2) estimular e fazer operacional a regressão ,conseqüência lógica das interpretações transferenciais .
 3) intensa elaboração afetiva das situações conflitivas inconscientes a níveis regressivos e transferenciais .
 4) mutação de objetos internos perturbadores , feita fundamentalmente através dos mecanismos de projeção e introjecção .
 O processo psicanalítico assim resumido permite verificar uma história vivida na realidade ou em grande parte fantasiada . Os fantasmas tem vida e vigência no inconsciente atemporal e aespacial. São configurações estruturantes e desestruturantes da personalidade e em conseqüência , modelam sentimentos , afetos , pensamentos e condutas. O interjogo objetal interno - externo fica em estereótipos e logicamente aparece intensamente na relação terapêutica psicanalítica o que leva a um processo verdadeiramente “interminável “ segundo a certa e adequada conceituação freudiana. ( Szpilka  e Knobel , 1968).
 Freud , os pioneiros da psicanálise , os seguidores mais próximos e os que posteriormente se formaram , os que ousaram mudar aspectos técnicos e alguns até teóricos, muitos dos que foram citados no começo deste trabalho , aportaram idéias e experiências de enorme valor para configurar as psicoterapias . Toda essa bagagem de conhecimentos é muito válida e permite admitir que nossos conhecimentos psicodinâmicos são atualmente cada vez maiores e que não é possível ignorar situações hoje obvias ,porém nos primórdios exigiam tempo , reflexão , o teste da interpretação e muitas avaliações e reavaliações . Será que  quando um homem ou mulher , já na entrevista diz ; “acho que gosto de pessoas maduras , já formadas , com autoridade , sérias , como o senhor . . .”, etc. , necessitarei  não sei quantas sessões para descobrir que vê em mi uma figura paterna , real ou idealizada , ou se for o caso já poderia interpretar esse vínculo filho/filha  - pai  , bem no início do tratamento? . Alguns analistas consideram que devem re - descobrir a psicanálise e suas bases teóricas , agora consideradas clássicas , com cada paciente que inicia um tratamento. Penso que já é possível assumir que esses conhecimentos já foram incorporados em todos os terapeutas com formação adequada , e que muitas destas interpretações podem e devem ser formuladas logo que a situação é apresentada pelo paciente .
 Baseados no esquema da técnica psicanalítica acima apresentada , procurarei mostrar como trabalhamos cada um desses itens na proposta “ psicoterapia de tempo e objetivos limitados “ .
 Transferência : A transferência é um fenômeno universal nas relações humanas , e logicamente aparece inevitavelmente em todo processo terapêutico. Considero que é necessário entender lá , detectar lá , e na medida do possível  considerar sua influência na contratransferência. Se é interpretada sistematicamente será impossível não criar uma “ neurose transferencial “ que impedirá  abreviar o tratamento . Em conseqüência recomendo não interpretar em transferência ( ou a transferência ) . Para nossa técnica “ de tempo e objetivos limitados “ é mais conveniente transladar lá ao mundo objetal externo do paciente , e quando for possível , relacionar o fenômeno transferencial  com o mundo objetal interno do consultante ; porém , sem que o terapeuta se inclua explicitamente  nem em um  nem  em outro .
 P: Não agüento mais. É uma tortura . Sei que a gente não gosta de mi (expressão facial de aborrecimento e resignação ) .
 T: Você repete isto muitas vezes . Pela sua cara parece que é você que não gosta das pessoas , que você as rejeita .
 P: Bem , sim , mas é porque desde criança nem meu pai nem meus irmãos gostavam de mi . Eu não aprendi o que é gostar da gente.
 T: Agora você consegue entender que tudo começou e seguiou dentro de você. Este pode ser o momento de mudar as coisas e , tal vez , entender melhor as pessoas , incluindo seu chefe. (este era o motivo manifesto da consulta) .
 Podia ter interpretado logo que não gostava de mi , como não gostava do pai ; o que sentia que eu como seu pai o rejeitava . Criaríamos assim uma neurose de transferência que poderia levar nos a muitos conflitos infantis reprimidos e a uma terapia bem mais prolongada. Ele usou a palavra  “gente” , eu  usei depois a palavra  “pessoas “ para não facilitar uma provável compreensão transferencial , já que aqui usamos também  “ a gente “ como eu ou nos . Acho que este é um exemplo de interpretação não transferencial , que conseguiu se reverter a perspectiva e que lidamos com o mundo objetal interno , sem nos incluir na interpretação .
 As vezes o paciente força a transferência , e ainda assim não interpreto em transferência . P : Pucha vida , o senhor não me ajuda . Isto é direto: ele e eu . Pode , e deve , aceitar se a queixa , mas para difundir lá imediatamente no mundo relacional do paciente : T : É o que o senhor sente . Porém , o senhor já mostrou que sempre se queixa de que ninguém , nem seus amigos , nem seus parentes , o ajudam .
 Regressão : Ao não interpretar a transferência , e ao diluir a no mundo objetal interno - externo do paciente , se evita ,em parte , a regressão , elemento importantíssimo da técnica  psicanalítica , mas que prolonga interminavelmente a duração do tratamento . Em nosso enfoque psicoterápico o objetivo é poder facilitar uma perspectiva do passado , para ser reconhecido como tal  e não para reviver lo na situação transferencial de cada sessão . Considero que é possível  fazer um apelo ao Ego auto-observavel , crítico , no aqui e agora da sessão  e deste particular momento da vida do paciente . Desta maneira a pessoa pode  perceber que o estereótipo do passado se transforma , neste  momento , em que existe  um interlocutor válido  e ativamente presente , que  é o terapeuta . Considero nacessário deixar claramente explicitado que teoricamente o terapeuta não deixa de ser  para o paciente , um objeto transferencial . Porém , e em virtude do processo operante proposto , agora também pode descobrir seus mecanismos de defesa mais adequados , dentro do seu processo de desenvolvimento atual , que exige um relacionamento bem mais adulto .
 P : Ainda estou esperando uma dica para saber o que fazer com meu marido...Ele é tão infantil ! ...Não o vejo como um homem adulto, e ai é que brigamos .
 T. : Mas a senhora se sente adulta , pelo menos agora , ou será que coloca suas partes infantis no seu marido ?.
 P.: Pode ser , porém  , ele implica com tudo .
 T. : Porém a senhora  agora é esposa e mãe de dois filhos . É a senhora que da dicas ,para seus filhos  , para seu marido ..
 P. : É , eu o acostumei e eu entro na briga estúpida . Acho que é hora de parar com isso . Até minha mãe falava que eu já ia  ver o que é ser esposa  e mãe.
 T.: É bom lembrar , só lembrar da sua mãe , mas agora , agora mesmo , a mãe é você , e para seus filhos ,e é esposa para seu marido , não é ? .
 P.: Ele é um cara legal , trabalha e acho que procura carinho...
 T.: Da esposa, não?.
 Brevemente chegamos a um tipo de “insight “ ,que leva a paciente a fazer queixas infantis , reconciderar essa posição , procurar mergulhar no passado e logo reconhecer o passado como passado e ubicar sua pessoa num plano mais maduro e abandonar a tentativa de transformar o terapeuta na figura materna . Se ofereciam muitas interpretações transferenciais , porém o não entrar na regressão que as mesmas implicavam , facilitou o continuar com nosso esquema terapêutico , que resultou eficaz.
 P.: Doutor , gosto muito de seu jeito ,de como o senhor fala .O senhor é como um pai com quem a gente gostaria de ter mais intimidade ...
 T.: Eu não sou seu pai e a senhora veio aqui para tratar seus problemas , que eu sugiro é o que podemos começar a fazer.
 A transferência erótica e a sedução ofereciam possibilidades relativamente agradáveis ( olha a contratransferência ) , de interpretações transferenciais e regressivas . Uma forma de impedir este desvio -neste tipo de terapia- é definir nossos papeis e mostrar que nosso relacionamento aqui é adulto e psicoterapêutico . Para nos dois.
 Elaboração : Na prática psicanalítica , e através da  regressão e seu contexto transferencial regressivo se efetua uma dinâmica re-estruturante fundamental que é a elaboração ,ou seja  um processo interno de elaborar o processo terapêutico , os afetos , o mundo interno , o efeito das interpretações e as mudanças que pudessem ter acontecido . Considero que a experiência analítica permite observar que esta “elaboração “ acontece basicamente a níveis afetivos profundos , inconscientes . Nesta “Terapia de Tempo e Objetivos Limitados “  se procura que a elaboração seja objetivamente mais cognitiva que afetiva  ( não deixa de ser também afetiva ) , mais racional  e profundamente ligada a essência dos conflitos hipostasiados no paciente.
 Pensamos que o terapeuta ao intervir de acordo a técnica recomendada  , o faz como uma parte mais desenvolvida do Ego do próprio paciente , permitindo assim uma mais rápida captação  e compreensão da realidade interna e externa. Logicamente não se negam os conflitos afetivos , mas se trata de viver e verbalizar os mesmos ( não “atuar”) ; se procura que sejam compreensíveis de alguma maneira . Interessa que se entenda o que acontece , confiando que na atemporalidade do inconsciente a elaboração mais produtiva opere na dimensão temporal mais própria e adequada para cada pessoa .
 P.: Nada do que falamos aqui vale nada mesmo. Vou arrebentar a todo o mundo , a todos , sim...
 T.: Por isso a droga , com a droga você mata , se vinga . Porém você já sabe que também você morre . É o que você falou.
 P.: Besteira , eu sei que falo besteiras , eu não quero morrer ...é verdade .Porém , sería gostoso ver morrer ao velho , e ainda que eu morra gostaria estar no velório dele.Tenho 25 anos e sei que é ruim morrer agora , porém ...e por favor , você não enche o saco . Gostaria ,ainda que morto , ver meu pai no caixão...
 T.: Morrer e ver ao outro morto acho que não da
 P.: Já vem você com isso... que é verdade , puta que o pariu!
 Este material daria para interpretações sobre  agressividade , fantasias regressivas de violenta  afetividade negativa , transferencia negativa e resistências . Porém nossa técnica evitou propositalmente isso e penso que começou uma elaboração mais cognitiva , com cargas afetivas de hostilidade . O processo terapêutico mostrou que se evitaram  atuações masoquistas ; Porém não foi um caso fácil e ainda duvido sobre o que pode acontecer com este paciente.
 Mutação Objetal : A “mutação objetal “, objetivo de toda psicoterapia de orientação psicanalítica acontece também com a técnica aqui proposta . Entendo que na atemporalidade do inconsciente , o processo de interação mais rápido , mais ativo , com a peculiar intensidade da participação do terapeuta , este , figura de transferência e também figura real ativa e presente facilitam , as mutações objetais internas . Aqui se trata  de mudar informação “falsa “ ou inconscientemente falseada , por informação” verdadeira” ,  ou provavelmente seja mais adequado dizer por “informação mais objetiva e de consenso “ , o que leva a permitir um relacionamento menos conflitivo e ao uso de mecanismos de defesa mais convenientes  para um melhor equilibro metapsicológico . A proposta é ajudar a um viver psicodinâmicamente  em forma mais ativa , falando desde os pontos de vista  afetivo e cognitivo .
 O trabalhoso  processo de mutação objetal histórica do sujeito , profundamente útil e produtivo  da  psicanálise se modifica no momento  em que se propõe  uma re-leitura da própria história , para assim entender lá e pensar lá.
 Aquela colocação de “ eu não sou seu pai, ou seu filho ,etc. , “  pode parecer brusca ou rejeitante . Porém , no processo terapêutico en que se pronuncia , ajuda a discriminar a realidade do aqui e agora ,da fantasia inconsciente de uma figura imaginária e distorcida que ficou presa no inconsciente desde a infância.
 Assim aparece um dos nossos objetivos básicos , que é que o paciente não continue vivendo na sua história e que a transforme no que deve ser , uma vivência do passado e definitivamente colocada nesse passado.
 Agora , esperamos , a pessoa passa a ser um sujeito ativo na sua história , a atual , e a que ainda poderá construir .
 No mundo objetal interno se devem detectar os “núcleos psicóticos “ , pontos de  vista e pensamentos distorcidos pelos mesmos , fixados a fantasias infantis ainda vivas e vigentes , para que na re-observação  terapêutica atual se modifiquem através de reavaliações das condições inconscientes agora , na terapia , possam ter conscientizações e reformulações adultas .

 Para poder praticar esta proposta psicoterapêutica é necessário que , como em outras verificadas  pela experiência e suas bases teóricas e metodológicas , o terapeuta  se permita confiar em sua provável practicidade e eficiência assim como ter uma verdadeira e sincera  “disposição terapêutica “ e , como já o assinalei , ter conhecimentos diagnósticos descritivos , fenomenológicos e metapsicológicos  ( que são os que permitirão a adequada seleção dos pacientes ) , poder fazer , desde a entrevista , uma verdadeira  pesquisa dos mecanismos de defesa mais úteis e adequados para cada pessoa . isto  pode abreviar bastante esta terapia . Uma pessoa com fortes mecanismos histéricos dificilmente será um bom caixa de banco , assim como quem apresenta mecanismos obsessivos não se dará bem com um trabalho de relações públicas.
 Nesta terapia o “enquadre “ não é diferente do proposto para outras técnicas. O
ideal  é ter um lugar adequado , horários convenientes , privacidade , etc . Porém insisto que o mais importante é ter flexibilidade e poder discutir a situação abertamente com o paciente. Há  situações de emergência , imprevistos diversos e necessidades de modificações ambientais circunstanciais que deverão ser consideradas . O terapeuta deve possuir um bom senso da realidade , e assim , por exemplo , quando tenha necessidade de ajudar uma pessoa numa catátrofe ecológica ou numa briga de rua  , é de esperar que não pretenda  utilizar seus conhecimentos  na íntima comodidade de seu consultório. No hospital ou no Centro de Saúde , muitas vezes sua salinha estará  ocupada por uma pessoa com ferimentos ,ou estará simplesmente ocupada por outro colega por algum motivo.
 Por isso é que a minha proposta é de que nesta terapia  o terapeuta deve estar preparado para utilizar o que denominei “enquadre disponível” . Se pensamos com maior objetividade  , o verdadeiro enquadre surge  da especial e única configuração que se estabelece , a cada momento , na relação terapeuta-paciente .
 Existe o que em psicanálise se chama de “contrato “ , que também tem seu lugar nesta terapia , só que pela sua flexibilidade me permito chamar de “acordo para tratar de ajudar “  no qual se explicitam os objetivos ( que nem sempre coincidem com os manifestos pelo paciente ) , o tempo (limitado ) ,horários , tempo da sessão e fundamentalmente  o respeito a intimidade e o sigilo mais rigoroso de nossos diálogos .
 Em relação ao “tempo que dura cada sessão “  considero conveniente esclarecer que nesta proposta terapêutica  o terapeuta não pode nem deve ajustar sua atuação a clássica hora de cinqüenta minutos. A própria dinâmica de cada sessão a faz tão variável e viva , que o tempo da sessão estará determinado pelo seu conteúdo e pelas experiências transferenciais e contratransferênciais .( Como já o assinalei não são utlizadas interpretativamente , mas existem , devem ser consideradas e avaliadas e compreendidas ). A compreensão  é tão necessária como a atualidade empática e a flexibilidade . Assim , o válido  do tempo da sessão é o que denominei  “Tempo Operacional “ . É o que pode ser vivenciado como útil e operativo e não uma simples convenção cronométrica . Assim , uma sessão pode durar  15 , 20 , 25 minutos ou mais , se for necessário.
 É a experiência , o conhecimento e o “andar “ das sessões o que determinará nosso “ Tempo Limitado “ do tratamento , que poderá ser de 10 a 16 sessões , segundo diversas experiências realizadas por mi e meus colaboradores ( não sempre sem resistências a esta limitação temporal) . Este tempo o denominei ( com certa dose de onipotência ) de “tempo terapêutico adequado”. Este, na realidade , surge da patologia do paciente em interação  com os conhecimentos teóricos - técnicos do terapeuta , da situação socio-econômica , de realidade biológica , etc. Resumindo , este Tempo Terapêutico Adequado é o resultado  da realidade  bio-psico-social de quem procura ajuda  e da disponibilidade afetiva de quem pode oferecer lá. .
 As vinhetas apresentadas são só isso , uma pequena ilustração do que pretendemos  fazer com esta terapia breve.
 Os objetivos “limitados” são realmente colocados com propósitos também didáticos para ajudar aos terapeutas  a diminuir fantasias onipotentes de “cura “ . O verdadeiro objetivo mais geral e amplo é que através desta técnica  seja possível ajudar ao paciente a conscientizar suas condutas masoquistas  para que assim possa tentar  atingir uma “Adaptação crítica “ para não ter que submeter se  passivamente  a uma sociedade alienante e desta maneira poder combater em defesa de seus direitos , de seu bem-estar , e de sua felicidade , contribuindo assim ,ainda que as vezes modestamente , a obter uma sociedade mais justa , mais humana , mais prazerosa e projetar em seus descendentes a necessidade e o direito a viver melhor na trascêndencia das gerações futuras .-
 

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