O Paciente Somatizador
As publicações sobre “Medicina
Psicossomática” são numerosas e abrangem quase toda a patologia
médica e cirúrgica.
Pessoalmente publiquei e apresentei,
em diversos congressos médicos, psiquiátricos e logicamente,
nos específicos desta nomenclatura, diversos trabalhos e estudos,
por mim realizados.
Procurarei resumir alguns
dos meus conceitos nesta palestra, com o objetivo de incentivar mais observações
e pesquisas nesta, relativamente, nova visão da medicina.
No meu conceito cabe perguntar,
se existe uma medicina que não seja psicossomática. Pela
minha experiência, e a de muitos pesquisadores, a resposta é
certamente, negativa. Os componentes emocionais mais diversos, formam parte
de toda e qualquer patologia.
É só pensar nisso,
lembrar da importância da relação médico/paciente,
e os componentes psíquicos se evidenciam claramente.
Entendo que, talvez existe um exagero
no estudo de patologias específicas (cardíacas, renais, vasculares,
dermatológicas, etc.), em forma isolada. Assim, eu me permito enfatizar
bem mais os processos de somatização que a
psicopatologia mais sectorizada e singular.
Trata-se de fazer uma verdadeira
“Medicina da Pessoa” (Perestrello)
Considero acertada a denominação
de “Paciente Somatizador” já que muitos destes casos, por
força das classificações ganham diagnósticos
diversos, nos quais a somatização fica como um sintoma a
mais, mascarando assim a importância da mesma e errando no diagnóstico
psiquiátrico.
O somatizar é todo um processo,
e um processo sério demais para ser deixado de lado, ou simplesmente
mencioná-lo como sintoma de outras entidades nosológicas.
Não existe uma só
forma de somatizar, o que torna este processo altamente complexo e exige
conhecimentos tanto de nosologia em geral, como do desenvolvimento do ser
humano tanto psicodinâmico, como sócio-econômico, moral,
intelectual e físico. O desenvolvimento biológico pode ser
dependente da situação sócio-econômica, familiar
e/ou genética, fixando-se num nível primário (arcaico)
das funções do EGO.
Do ponto de vista psicodinâmico,
eu já descrevi três formas básicas de somatização
(como esquemas referenciais), o que não significa negar interações
dos esquemas apresentados.
Entendo que a forma de somatizar
pode ser basicamente Histérica, Hipocondríaca ou Psicótica.
A somatização histérica
se manifesta com sintomas somáticos que são relatados, ainda
os mais sérios, com superficialidade e até negligência.
Os sintomas existem, porém não parecem importantes. Até
a consulta é considerada desnecessária, ou uma preocupação
exagerada, dos familiares ou amigos. Isto pode chegar a confundir o clínico,
que influenciado pelo paciente pode chegar a minimizar um quadro que pode
exigir cuidados bem específicos.
A somatização hipocondríaca
se apresenta como um sofrer terrível numa pessoa permanentemente
queixosa, sem alívio nenhum na parte somática. Seu funcionar
psico-social no cotidiano é adequado e correto, e usa sua somatização
para ganhar compreensão e afeto em alguns momentos. Rejeita as indicações
médicas, porém as procura incansavelmente. É
o paciente que apresenta “efeitos secundários” ainda com placebos
ou até com psicoterapia: “Dr., desde que comecei este tratamento
estou me sentindo pior” (o que lamentavelmente as vezes é verdade).
A somatização psicótica
é a mais perigosa para o paciente, que usa os mecanismos típicos
da psicose: negação, renegação, onipotência,
recalque intenso e projeção maciça. Nega estar doente,
aparecem idéias paranóicas em relação a familiares
e médicos e uma forte rejeição a aceitar indicações
médicas e/ou cirúrgicas. Por outro lado continua nas suas
ocupações habituais sem preocupação, até
reprimindo sensações dolorosas que poderiam ser registradas
como intensas.
O comportamento de todos estes
pacientes - deixando de lado a somatização - é o de
muitas pessoas que apresentam queixas diversas e continuam com seus afazeres
(os que apresentam somatizações hipocondríacas podem
ser realmente hipocondríacos de difícil tratamento).
Porém é necessário
discriminar as patologias claramente emocionais (psiquiátricas no
sentido tradicional da palavra) destes pacientes que somatizam e
que exigem um tratamento bem mais diferenciado e específico, no
qual o processo de somatização seja adequadamente
considerado.
Existe uma fixação
no “complexo edípico” (Ammon), e nos níveis arcaicos
do desenvolvimento das estruturas e funções do EGO, que no
curso de um tratamento deve ser conscientizado, permitindo a evolução
normal egóica e a superação desse “complexo edípico”.
O tratamento psicoterapêutico
não exclui o psicofarmacológico quando o médico tratante
o considere conveniente e/ou necessário. Este é um ponto
que merece considerações a serem resolvidas em procedimentos
de interconsulta.
Um resumidíssimo exemplo
clínico:
Maria, 28 anos, solteira, se apresenta
em meu consultório recomendada por um colega gastroenterologista,
com queixas de “soltar o intestino com muita facilidade”. O médico
não conseguiu melhorar a sua sintomatologia, e apresentando concomitantemente
“episódios depressivos freqüentes”, optou por seu encaminhamento
para um tratamento dos “nervos” acentuando que provavelmente a sua sintomatologia
era de natureza emocional, com o que a paciente concordou.
Apresentou-se bem arrumada, sorridente,
forneceu os dados de identidade e familiares. Filha de pai bem sucedido
nas suas atividades profissionais e mãe que é “excessivamente
preocupada” e que controla a vida dos filhos. Tem uma irmã de 30
anos e um irmão de 25, que aparentemente não apresentam problemas.
Teve vários “namoros” e não consegue se fixar afetivamente
com ninguém. Muitas queixas contra os homens e seus medos de “soltar
o intestino” no momento menos oportuno.
Ao final da entrevista inicial,
manifesta que tem uma preocupação: estar em um apartamento
de um prédio, em andar de certa altura e ter aí vontade de
se jogar pela janela, como já aconteceu várias vezes. (Meu
consultório está no 16º andar). Aceitou fazer tratamento
psicoterápico duas vezes por semana, solicitando a não prescrição
de medicamentos, já que isso não tinha dado resultado.
No curso do tratamento foi possível
detectar uma forte dependência e submissão a mãe, aparente
desprezo pelo pai (figura muito fraca e submissa a esposa) e distanciamento
dos irmãos, que por sua vez, também se submetem a essa mãe.
Ela faz quadros de tipo hipocondríaco e o pai também, com
crises que as vezes levam a hospitalização por vários
dias por “ameaça” de enfarto. Nesses momentos a família se
une e toma conta do pai, sem ter a oposição da mãe,
como quando ele só apresenta queixas de “mal estar”.
A paciente assistiu a um suicídio
de uma mulher que se jogou pela janela de uma apartamento de um prédio
vizinho ao qual ela morava.
Já tenho experiência
com estes quadros que considero de “somatizações de configuração
histérica”.
Os diagnósticos diferenciais
que eu considero são com a Neurose Histérica, porém,
considerando que nesta paciente sua conduta freqüente e habitual é
a de uma pessoa “normal”; com a Neurose Fóbica, já que o
relato das suas fobias é de crises bem esporádicas (não
é uma personalidade fóbica); com um “Quadro Depressivo” que
não aparece no estado de animo permanente da paciente.
O tratamento foi como planejado
no início e de base psicanalítica. A transferência
foi positiva e por momentos idealizada (com tendência a criar - ou
recriar - um vínculo simbiótico com o terapeuta), o que consegui
melhorar ao conscientizar seu vínculo edípico com o pai -
preservado mediante o mecanismo de negar sua importância na constelação
familiar - que também a ajudou a superar a submissão a sua
mãe, que sempre queria e tentava “protegê-la” de acidentes
e doenças (morte). Ficou bem independente na sua constelação
familiar e a sintomatologia somática melhorou notavelmente. A fantasia
de se jogar pela janela, ás vezes reaparece quando lê essas
notícias nos jornais.
Resumo da Palestra ministrada no Curso sobre "Psicoterapia e Pesquisa" no Depto. de Psicologia Médica e Psiquiatria da FCM, UNICAMP. 01 de março de 1999, Campinas, S.P.
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