ADOLESCÊNCIA: PSICOPATOLOGIA
(INTRODUÇÃO)
A realidade cotidiana
e o conhecimento mais adequado da psicologia do adolescente, implicam em
estudos mais sérios e mais discriminativos entre o “normal” e o
“patológico”, falando desde o ponto de vista das perturbações
psicológicas.
Considerando a enorme
importância que os fatores sócio-político-econômicos
possuem no determinismo de condutas “inadequadas” (segundo o vértice
desde onde são observadas), ou relativamente “adaptativas” (segundo
as circunstâncias em que acontecem), o problema da psicopatologia
na adolescência deve ser sempre considerado com uma boa margem de
relatividade.
Todas as patologias
da nosologia conhecida podem dar-se durante este período da vida.
Não é possível ignorar a esquizofrenia hebefrênica,
a debilidade mental, certos tipos de depressões e quadros maníacos,
delírios e até quadros demenciais.
Logicamente todas
as neuroses, carateropatias, psicopatias, “boderlines”, personalidade “como
se”, quadros tóxicos, toxicomania, perversões, alcoolismo,
quadros psicóticos orgânicos ou não e outros quadros
de etiologia não muito bem definida ainda, podem acontecer durante
a adolescência.
O importante é
não pecar por um “organicismo” limitante e meramente nosográfico,
ou por um “sociologismo” esterilizante e as vezes demagógico, e
sim procurar pesquisar mais, estudar melhor e aperfeiçoar o estudo
da psicopatologia neste processo evolutivo que é a adolescência.
A chamada “Síndrome
da Adolescência Normal”, está cheia de características,
de personalidade e/ou conduta, que aos olhos dos adultos, podem parecer
como anormalidade. Sua análise permite, às vezes, com dificuldade,
reconhecer o que é próprio desta idade evolutiva (o normal)
e o que evidentemente transpõe os limites dessa evolução
para entrar no campo da psicopatologia, da real e verdadeira doença,
que vai desde uma perturbação emocional, até uma severa
e bem estruturada psicopatologia.
Sob um enfoque transcultural
da adolescência, observa-se coincidências baseadas no psicobiológico
e no social que muitas vezes, molda a estrutura ao mesmo tempo em que é
configurada e mudada pelo interjogo indivíduo/sociedade. Na adolescência
tais mutações adquirem conotações dramáticas
devido a sua intensidade e rapidez de ação.
Uma observação
que fizemos, é como são intensos e às vezes, como
são fugazes os quadros clínicos da psicopatologia adolescente.
Os problemas do adolescente
são basicamente os mesmos. É importante assinalar que, atualmente,
em muitos países, o indivíduo tem a oportunidade de enfrentar-se
com suas aspirações, desejos e apetites. As situações
sócio-econômicas nas quais vive o/a adolescente, estimulado
e exigido por um lado, e privado e restringido por outro, fazem com que
quando a situação conflitiva torna-se intolerável,
o/a adolescente, recorre ao delito, a violência, a agressão
franca, para obter através do que tecnicamente poderia se chamar,
de um “acting-out” psicopático, a satisfação de seus
impulsos imediatos, agora já fora de controle.
Aqui já assinalo
a patologia que significa a “psicopatia” e que não é um simples
e normal mecanismo de defesa.
É conveniente
lembrar que a violência de nossa sociedade, representa uma forma
de psicopatologia - individual e social - resultante de uma falta de possibilidades
de intercâmbio de critérios e ações, aparentemente
lógica e inevitável em certas ocasiões. Este fato
acaba numa atividade não-adaptativa e auto-destrutiva.
Existem séries
de ações sociais violentas que geram reações
de violência masoquistas, produzindo desestruturações
da personalidade na infância e na adolescência. Caberia até
perguntar-se, se não é isto mesmo o que certos setores sociais
desejam, e que não há dúvida que alguns setores doentios,
da sociedade, procuram nos adolescentes seu alvo para adoecê-los
e submetê-los a uma “patologia” específica, ligada a realidade
ou a possibilidade de uma guerra, um vazamento ou estouro radioativo, ao
uso irresponsável de material nuclear, a restrição
ou privação alimentícia e/ou habitacional, e uma aprendizagem
e estímulo da violência na televisão, na fábrica,
no campo, na rua, na escola e no lar...
Cabe destacar que
a ação contra os outros é um estímulo permanente.
A idéia de que a gente tem “que defender-se”, pressupõe a
eminência inevitável do ataque o que mobiliza atitudes paranóides,
freqüentes na adolescência.
Sob o ponto de vista
psicodinâmico, no processo da adolescência, a psicopatia está
sempre presente como estrutura ou mecanismo de defesa que facilita a elaboração
dos lutos normais do desenvolvimento adolescente, precisamente para poder
conviver com a atitude paranóide já mencionada.
Esta atitude - e estas
defesas patológicas - é determinada por uma sociedade ameaçadora
e injusta, que perturba e confunde com mensagens contraditórias,
que chegam a ser esquizofrenizantes. Fala de respeito, amor, paz e direitos
humanos, ao mesmo tempo que prepara para a “luta” a “defesa armada”, dificultando,
enormemente a convivência e a conduta adaptativa.
É conveniente
esclarecer que o termo “conduta adaptativa” não implica submissão
ou passividade. O adaptativo é o crítico estruturante, o
questionamento espontâneo para produzir as modificações
sócio-econômico-culturais, cobradas pela humanidade toda,
e da qual o/a adolescente pode ser o porta-voz. Porém, sem discriminar
vira um “rebelde” masoquista, fanático e auto-destrutivamente violento.
Assim não fica
difícil entender que a soma do psicopatológico e o paranóide
em um organismo em plena reestruturação como o do adolescente,
o converte em um indivíduo altamente vulnerável à
psicopatologia de qualquer tipo, dependendo só da sua predisposição
psico-orgânica.
Como decorrência
surge uma psicopatologia com características muito específicas
na adolescência.
Já mencionou-se
que toda a patologia conhecida pode aparecer nesta etapa da vida. Entretanto
deve lembrar-se que seja qual for a que aparecer (por determinismos internos
e/ou externos) sempre terá os componentes adolescentes da psicopatia
- como defesa ou estrutura - e o particular, individual, processo de elaboração
dos lutos deste momento evolutivo, o que se fará com maior ou menor
sucesso. Em geral, se associam a estes quadros psicológicos um infantilismo
ou personalidade que denunciam a péssima elaboração
dos mencionados “lutos”.
A reação
do ou da adolescente, frente a identidade e suas perturbações
conduzem a conhecida “Síndrome de Difusão de Identidade”,
processo psicopatológico típico desta idade da vida. É
um quadro tipo esquizofrenia aguda, porém fugaz ou de pouca duração.
As freqüentes
“depressões reativas”, e os especiais processos “maníacos-depressivos”
da adolescência podem ser fixações do estado de ânimo
descritos na “Síndrome da Adolescência Normal”. Os quadros
clínicos, semelhantes aos dos adultos, levam consigo dependência
infantil, queixas contra os adultos e negativismo a procuras terapêuticas.
A “adição
as drogas”, as “perversões sexuais” e a “delinqüência
juvenil”, são patologias que, na adolescência, adquirem características
muito específicas, plurideterminadas e precisas, não se justificando
por tanto, a pretensão de super simplificá-las tomando-as
como “pseudo patologias expressivas de problemas só sociais”. Esta
atitude, aparentemente reivindicatória “a favor” dos adolescentes,
prejudica a compreensão dos problemas e a ajuda efetiva que pode
ser oferecida aos adolescentes na resolução de seus problemas
e conflitos que levam a estas severas psicopatologias.
A atitude médico-psicológica
de tolerância é terrivelmente iatrogênica.
É interessante
que na Classificação Internacional de Doenças, atualmente
vigente (CID 10) e que vigora a partir de 1990, só existe um aporte
sobre perturbações que se iniciam na infância, ou na
adolescência, entre as quais, para a adolescência se menciona
tão só especificamente: “Desordem de conduta confinado ao
contexto familiar”, “Distúrbio de conduta não-socializada”,
“Distúrbio de conduta socializada”, “Perturbação depressiva
de conduta”, “Perturbações inespecíficas de funcionamento
social” e “Distúrbios não específicos emocionais ou
de conduta de começo na infância ou adolescência”.
Surpreende a pobreza
diagnóstica e o que considero um descaso a esta etapa da vida, sua
real possibilidade de fixar graves perturbações psíquicas
que só aparecem aparentemente, nos adultos.
O abandono dos critérios
diagnósticos e o estudo mais profundo da psicopatologia através
de um critério dinâmico biopsicossocial, facilitará
a capacidade clínica de discriminar o enfermo do adaptativo circunstancial,
do que é parte do processo de desenvolvimento do/da adolescente,
ou fixação ou regressão dentro desse mesmo processo,
ou seja, ainda que “normal” pode necessitar ajuda, do que já é
patológico e, com adequado diagnóstico precisa de TRATAMENTO.
Ao se abandonar a
limitação de uma abordagem nosotáxica obsoleta (o
simples rotular), deve-se adotar uma verdadeira NOSOLOGIA compreensiva,
que possa abranger e permita conhecer e reconhecer o conflito adolescente,
sua expressão normal ou patológica, a relação
com o mundo, seu encontro estruturante e sua solidão elaborativa.
A fragilidade do adolescente,
não é uma fantasia depreciativa, mas sim uma realidade que
vulnera o indivíduo e a sociedade e que exige desde um pessoal
informado e compreensivo até um especialista altamente capacitado.
Reconhecer a psicopatologia
é uma forma adequada de elaborar projetos preventivos e métodos
terapêuticos, ficando o profissional que lida com adolescentes capacitado
realmente para ajudar nesta etapa evolutiva do ser humano.
Negar a psicopatologia,
deslocá-la só para o social ou familiar, é iatrogênico
e até criminoso, já que pretende-se apagar com “teorias”
o que a realidade clínica nos apresenta dia a dia, que exige estudo,
pesquisa, conhecimento e disponibilidade terapêutica.
Não é
fácil lidar com a psicopatologia na adolescência, porém,
reconhecendo os quadros clínicos, as condutas normais, os diversos
processos, etiopatogênicos, é possível ajudar efetivamente
ao ser humano numa de suas etapas vitais mais difíceis.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
1) ABERASTURY, A e
Cols. - “Adolescência” - Artes Médicas, Porto Alegre, 1980.
2) GROISMAN, M. e
KUSTNETZOFF, J.C. - “Adolescência e Saúde Mental”, Artes Médicas,
Porto Alegre, 1984.
3) KNOBEL, M.; PERESTRELLO,
M. e UCHÔA, D. de M. - “A Adolescência e a Família Atual”,
Livraria Atheneu, Rio de janeiro - RJ. 1981.
4) World Health Organization.
C.I.D.10. 1993. Artes Médicas, Porto Alegre.
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