Prof. Dr. Maurício Knobel
 


 

ADOLESCÊNCIA: PSICOPATOLOGIA
(INTRODUÇÃO)

 A realidade cotidiana e o conhecimento mais adequado da psicologia do adolescente, implicam em estudos mais sérios e mais discriminativos entre o “normal” e o “patológico”, falando desde o ponto de vista das perturbações psicológicas.
 Considerando a enorme importância que os fatores sócio-político-econômicos possuem no determinismo de condutas “inadequadas” (segundo o vértice desde onde são observadas), ou relativamente “adaptativas” (segundo as circunstâncias em que acontecem), o problema da psicopatologia na adolescência deve ser sempre considerado com uma boa margem de relatividade.
 Todas as patologias da nosologia conhecida podem dar-se durante este período da vida. Não é possível ignorar a esquizofrenia hebefrênica, a debilidade mental, certos tipos de depressões e quadros maníacos, delírios e até quadros demenciais.
 Logicamente todas as neuroses, carateropatias, psicopatias, “boderlines”, personalidade “como se”, quadros tóxicos, toxicomania, perversões, alcoolismo, quadros psicóticos orgânicos ou não e outros quadros de etiologia não muito bem definida ainda, podem acontecer durante a adolescência.
 O importante é não pecar por um “organicismo” limitante e meramente nosográfico, ou por um “sociologismo” esterilizante e as vezes demagógico, e sim procurar pesquisar mais, estudar melhor e aperfeiçoar o estudo da psicopatologia neste processo evolutivo que é a adolescência.
 A chamada “Síndrome da Adolescência Normal”, está cheia de características, de personalidade e/ou conduta, que aos olhos dos adultos, podem parecer como anormalidade. Sua análise permite, às vezes, com dificuldade, reconhecer o que é próprio desta idade evolutiva (o normal) e o que evidentemente transpõe os limites dessa evolução para entrar no campo da psicopatologia, da real e verdadeira doença, que vai desde uma perturbação emocional, até uma severa e bem estruturada psicopatologia.
 Sob um enfoque transcultural da adolescência, observa-se coincidências baseadas no psicobiológico e no social que muitas vezes, molda a estrutura ao mesmo tempo em que é configurada e mudada pelo interjogo indivíduo/sociedade. Na adolescência tais mutações adquirem conotações dramáticas devido a sua intensidade e rapidez de ação.
 Uma observação que fizemos, é como são intensos e às vezes, como são fugazes os quadros clínicos da psicopatologia adolescente.
 Os problemas do adolescente são basicamente os mesmos. É importante assinalar que, atualmente, em muitos países, o indivíduo tem a oportunidade de enfrentar-se com suas aspirações, desejos e apetites. As situações sócio-econômicas nas quais vive o/a adolescente, estimulado e exigido por um lado, e privado e restringido por outro, fazem com que quando a situação conflitiva torna-se intolerável, o/a adolescente, recorre ao delito, a violência, a agressão franca, para obter através do que tecnicamente poderia se chamar, de um “acting-out” psicopático, a satisfação de seus impulsos imediatos, agora já fora de controle.
 Aqui já assinalo a patologia que significa a “psicopatia” e que não é um simples e normal mecanismo de defesa.
 É conveniente lembrar que a violência de nossa sociedade, representa uma forma de psicopatologia - individual e social - resultante de uma falta de possibilidades de intercâmbio de critérios e ações, aparentemente lógica e inevitável em certas ocasiões. Este fato acaba numa atividade não-adaptativa e auto-destrutiva.
 Existem séries de ações sociais violentas que geram reações de violência masoquistas, produzindo desestruturações  da personalidade na infância e na adolescência. Caberia até perguntar-se, se não é isto mesmo o que certos setores sociais desejam, e que não há dúvida que alguns setores doentios, da sociedade, procuram nos adolescentes seu alvo para adoecê-los e submetê-los a uma “patologia” específica, ligada a realidade ou a possibilidade de uma guerra, um vazamento ou estouro radioativo, ao uso irresponsável de material nuclear, a restrição ou privação alimentícia e/ou habitacional, e uma aprendizagem e estímulo da violência na televisão, na fábrica, no campo, na rua, na escola e no lar...
 Cabe destacar que a ação contra os outros é um estímulo permanente. A idéia de que a gente tem “que defender-se”, pressupõe a eminência inevitável do ataque o que mobiliza atitudes paranóides, freqüentes na adolescência.
 Sob o ponto de vista psicodinâmico, no processo da adolescência, a psicopatia está sempre presente como estrutura ou mecanismo de defesa que facilita a elaboração dos lutos normais do desenvolvimento adolescente, precisamente para poder conviver com a atitude paranóide já mencionada.
 Esta atitude - e estas defesas patológicas - é determinada por uma sociedade ameaçadora e injusta, que perturba e confunde com mensagens contraditórias, que chegam a ser esquizofrenizantes. Fala de respeito, amor, paz e direitos humanos, ao mesmo tempo que prepara para a “luta” a “defesa armada”, dificultando, enormemente a convivência e a conduta adaptativa.
 É conveniente esclarecer que o termo “conduta adaptativa” não implica submissão ou passividade. O adaptativo é o crítico estruturante, o questionamento espontâneo para produzir as modificações sócio-econômico-culturais, cobradas pela humanidade toda, e da qual o/a adolescente pode ser o porta-voz. Porém, sem discriminar vira um “rebelde” masoquista, fanático e auto-destrutivamente violento.
 Assim não fica difícil entender que a soma do psicopatológico e o paranóide em um organismo em plena reestruturação como o do adolescente, o converte em um indivíduo altamente vulnerável à psicopatologia de qualquer tipo, dependendo só da sua predisposição psico-orgânica.
 Como decorrência surge uma psicopatologia com características muito específicas na adolescência.
 Já mencionou-se que toda a patologia conhecida pode aparecer nesta etapa da vida. Entretanto deve lembrar-se que seja qual for a que aparecer (por determinismos internos e/ou externos) sempre terá os componentes adolescentes da psicopatia - como defesa ou estrutura - e o particular, individual, processo de elaboração dos lutos deste momento evolutivo, o que se fará com maior ou menor sucesso. Em geral, se associam a estes quadros psicológicos um infantilismo ou personalidade que denunciam a péssima elaboração dos mencionados “lutos”.
 A reação do ou da adolescente, frente a identidade e suas perturbações conduzem a conhecida “Síndrome de Difusão de Identidade”, processo psicopatológico típico desta idade da vida. É um quadro tipo esquizofrenia aguda, porém fugaz ou de pouca duração.
 As freqüentes “depressões reativas”, e os especiais processos “maníacos-depressivos” da adolescência podem ser fixações do estado de ânimo descritos na “Síndrome da Adolescência Normal”. Os quadros clínicos, semelhantes aos dos adultos, levam consigo dependência infantil, queixas contra os adultos e negativismo a procuras terapêuticas.
 A “adição as drogas”, as “perversões sexuais” e a “delinqüência juvenil”, são patologias que, na adolescência, adquirem características muito específicas, plurideterminadas e precisas, não se justificando por tanto, a pretensão de super simplificá-las  tomando-as como “pseudo patologias expressivas de problemas só sociais”. Esta atitude, aparentemente reivindicatória “a favor” dos adolescentes, prejudica a compreensão dos problemas e a ajuda efetiva que pode ser oferecida aos adolescentes na resolução de seus problemas e conflitos que levam a estas severas psicopatologias.
 A atitude médico-psicológica de tolerância é terrivelmente iatrogênica.
 É interessante que na Classificação Internacional de Doenças, atualmente vigente (CID 10) e que vigora a partir de 1990, só existe um aporte sobre perturbações que se iniciam na infância, ou na adolescência, entre as quais, para a adolescência se menciona tão só especificamente: “Desordem de conduta confinado ao contexto familiar”, “Distúrbio de conduta não-socializada”, “Distúrbio de conduta socializada”, “Perturbação depressiva de conduta”, “Perturbações inespecíficas de funcionamento social” e “Distúrbios não específicos emocionais ou de conduta de começo na infância ou adolescência”.
 Surpreende a pobreza diagnóstica e o que considero um descaso a esta etapa da vida, sua real possibilidade de fixar graves perturbações psíquicas que só aparecem aparentemente, nos adultos.
 O abandono dos critérios diagnósticos e o estudo mais profundo da psicopatologia através de um critério dinâmico biopsicossocial, facilitará a capacidade clínica de discriminar o enfermo do adaptativo circunstancial, do que é parte do processo de desenvolvimento do/da adolescente, ou fixação ou regressão dentro desse mesmo processo, ou seja, ainda que “normal” pode necessitar ajuda, do que já é patológico e, com adequado diagnóstico precisa de TRATAMENTO.
 Ao se abandonar a limitação de uma abordagem nosotáxica obsoleta (o simples rotular), deve-se adotar uma verdadeira NOSOLOGIA compreensiva, que possa abranger e permita conhecer e reconhecer o conflito adolescente, sua expressão normal ou patológica, a relação com o mundo, seu encontro estruturante e sua solidão elaborativa.
 A fragilidade do adolescente, não é uma fantasia depreciativa, mas sim uma realidade que vulnera o indivíduo e a sociedade e que exige  desde um pessoal informado e compreensivo até um especialista altamente capacitado.
 Reconhecer a psicopatologia é uma forma adequada de elaborar projetos preventivos e métodos terapêuticos, ficando o profissional que lida com adolescentes capacitado realmente para ajudar nesta etapa evolutiva do ser humano.
 Negar a psicopatologia, deslocá-la só para o social ou familiar, é iatrogênico e até criminoso, já que pretende-se apagar com “teorias” o que a realidade clínica nos apresenta dia a dia, que exige estudo, pesquisa, conhecimento e disponibilidade terapêutica.
 Não é fácil lidar com a psicopatologia na adolescência, porém, reconhecendo os quadros clínicos, as condutas normais, os diversos processos, etiopatogênicos, é possível ajudar efetivamente ao ser humano numa de suas etapas vitais mais difíceis.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

1)  ABERASTURY, A e Cols. - “Adolescência” - Artes Médicas, Porto Alegre, 1980.
2)  GROISMAN, M. e KUSTNETZOFF, J.C. - “Adolescência e Saúde Mental”, Artes Médicas, Porto Alegre, 1984.
3)  KNOBEL, M.; PERESTRELLO, M. e UCHÔA, D. de M. - “A Adolescência e a Família Atual”, Livraria Atheneu, Rio de janeiro - RJ. 1981.
4)  World Health Organization. C.I.D.10. 1993. Artes Médicas, Porto Alegre.
 

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