O que ocorre após uma Lesão Medular?
 
Introdução
 
O termo Lesão Medular é utilizado para se referir a qualquer tipo de lesão que ocorre nos elementos neurais (que pertencem aos nervos) localizados dentro do canal da espinha dorsal, o canal medular. A maior parte das lesões medulares acontecem devido a um traumatismo da coluna vertebral. Os traumas podem causar uma fratura do osso vertebral e acarretar uma compressão medular ou a uma rutura dos ligamentos vertebrais com deslocamento dos ossos da coluna e pinçamento da medula. O traumatismo também pode causar uma contusão da medula, acompanhada de edema, com hemorragia ou não, ou então provocar uma rututa da medula e/ ou suas raízes nervosas.

Danos na medula afetam, abaixo do nível de onde ocorreu a lesão, o envio e o recebimento das messagens que caminham entre o cérebro e os sistemas que controlam a sensibilidade, a função motora e involuntária do corpo. As messagens que vem do corpo, abaixo do nível da lesão, não podem chegar ao cérebro e o cérebro não pode enviar messagens para o corpo, abaixo da lesão.

É importante distinguir entre as lesões que ocorrem na medula propriamente dita daquelas que ocorrem no cone medular ou na cauda equina.

A lesão com preservação de segmentos da medula abaixo do nível da lesão geralmente produz uma lesão do tipo Neurônio Motor Superior (NMS) ou paralisia espástica. Os reflexos intrínsecos não poderão ser inibidos por causa da lesão e se tornarão hiperreflexos levando ao aumento do tonus muscular, espasmo e espasticidade.

A lesão do cone medular, sem preservação de segmentos medulares abaixo do nível da lesão, ou uma lesão da cauda equina, produz uma lesão do tipo Neurônio Motor Inferior (NMI) ou paralisia flácida. Neste tipo de lesão o estímulo não pode atingir a medula e os reflexos e tonus muscular permanecem diminuídos ou ausentes (flácidos).

 
Anatomia
 
A espinha ou coluna vertebral, funciona como a principal sustentadora da medula e também como o caminho para os nervos que trazem informações dos braços, pernas e do resto do corpo e levam sinais do cérebro para o corpo.

A parte posterior do seu tórax, suas costas, é composta por 33 ossos chamados vértebras, 31 pares de nervos, 40 músculos e numerosos tendões que vão da base do seu cérebro até o seu cóccix. Entre as suas vértebras existem discos fibrosos de cartilagem elástica chamados discos. Eles são "absorventes de choque", mantendo o acolchoamento entre as vértebras e a flexibilidade da sua coluna durante o movimento do seu corpo.

Coluna Cervical

Existem sete ossos cervicais ou vértebras. Os ossos cervicais são desenhados para permitir flexão, extensão, lateralização e torção da sua cabeça. Eles são menores do que os outros ossos da vértebra o que permite uma amplitude maior de movimentos.
Cada vértebra consiste de duas partes, um corpo e uma arco protetor da medula chamado arco neural. Fraturas ou lesões podem ocorrer no corpo da vértebra, pedículos ou processos espinhosos. Cada vértebra se articula com outra acima e abaixo dela.

Coluna Torácica

Na região do tórax a espinha articula-se com as costelas. Existem 12 vértebras na região torácica. O canal medular na região torácica é ralativamente menor do que nas áreas cervical e lombar. Isto faz com que a medula torácica sofra maior risco de ser atingida em caso de haver uma fratura nesta região. O tipo de movimento mais apresentado pela coluna torácica é o de rotação. As costelas impedem o tórax de dobrar para o lado e um pequeno movimento ocorre para frente e para trás.

Coluna Lombo-Sacra

As vértebras lombares são maiores, mais largas e mais grossas. Existem cinco vértebras na coluna lombar. A última vértebra lombar, L5, se articula com o osso sacro.

Cada vértebra consiste de duas partes, um corpo e uma arco protetor da medula chamado arco neural. Fraturas ou lesões podem ocorrer no corpo da vértebra, pedículos ou processos espinhosos. Cada vértebra se articula com outra acima e abaixo dela.

Coluna Torácica

Na região do tórax a espinha articula-se com as costelas. Existem 12 vértebras na região torácica. O canal medular na região torácica é ralativamente menor do que nas áreas cervical e lombar. Isto faz com que a medula torácica sofra maior risco de ser atingida em caso de haver uma fratura nesta região. O tipo de movimento mais apresentado pela coluna torácica é o de rotação. As costelas impedem o tórax de dobrar para o lado e um pequeno movimento ocorre para frente e para trás.

 Coluna Lombo-Sacra

As vértebras lombares são maiores, mais largas e mais grossas. Existem cinco vértebras na coluna lombar. A última vértebra lombar, L5, se articula com o osso sacro. Os maiores movimentos que a coluna lombar apresenta são o de dobrar para frente e para trás. Dobrar para os lados também ocorre, mas em menor grau.

 
Neuroanatomia
 
Assim como a coluna vertebral, a medula também é dividida em região cervical, torácica e lombar. Cada porção damedula é dividida em segmentos neurológicos específicos. A medula cervical é dividida em oito níveis. Cada nível contribue para diferentes funções do pescoço e braços. Sensações vindas do corpo são transportadas da pele e outras áreas do pescoço, ombros e braços para o cérebro. Na região torácica os nervos da medula inervam músculos do tórax que auxiliam a respiração e a tosse. Esta região também possue nervos do Sistema Nervoso Simpático. A medula lombo-sacra é resposavel pela inervação das pernas, pelvis, bexiga e intestinos. Sensações advindas dos pés, pernas, pelvis e parte inferior do abdómen são transmitidas através dos nervos lombo-sacros e da medula para segmentos superiores da medula e cérebro.

Transmissão Nervosa - São vários os caminhos pelos quais os sinais são transmitidos para cima e para baixo na medula. Existem caminhos que transmitem sensações vindas da pele e de outras porções do corpo, bem como de orgãos internos do abdómen, pelvis e outras áreas. Outros transmitem sinais do cérebro para o corpo e, ainda há alguns, que trabalham a nível da medula, e que agem como caminhos intermediários no processo de transmissão dos sinais.

Neurônio Motor - Chama-se Neurônio Motor Superior ao tipo de lesão que ocorrem acima do nível da célula do corno anterior e que produz paralisia espástica. A lesão chamada Neurônio Motor Inferior refere-se a lesões a nível ou abaixo da célula do corno anterior e que produz uma paralisia do tipo flácida. É encontrada geralmente em lesões de raízes nervosas ou na síndroma da cauda equina, citada anteriormente. O termo intestino ou bexiga neurogênica são usadas para descrever o funcionamento anormal do intestino e da bexiga e que pode ser classificados tanto como Neurônio Motor Superior quanto Neurônio Motor Inferior tipo de problema. De um modo geral, os pacientes que apresentarem paralisia do tipo neurônio motor superior terão um intestino e uma bexiga tipo neurônio motor superior, do mesmo modo acontecendo para os que apresentarem uma lesão neurônio motor inferior. O manuseio adequado do intestino e da bexiga são pontos críticos para a reintegração do paciente / cliente dentro de sua comunidade e do seu ambiente de trabalho.

Transmissão da Sensibilidade - Sensações como calor, frio, dor e toque são transmitidas a pele e outras partes do corpo e então enviadas para o cérebro, onde são interpretadas. Esses caminhos são conhecidos como Transmissão da Sensibilidade. Uma vez que esses sinais atingem a medula eles são enviados ao cérebro por diferentes caminhos situados na medula e chamados de "tratos". Diferentes tipos de sensações são enviados por diferentes "tratos". Os tratos que levam as sensações de dor e temperatura para o cérebro estão situados no meio da medula e são chamados de "espinotalâmicos". Outros tratos levam a sensação de posicionamento e de toque. Estes impulsos nervosos são levados ao longo da parte posterior da medula e são chamados "coluna dorsal' da medula.

Transmissão dos Nervos Autônomos - Outro tipo especial de nervos são os chamados Nervos Autônomos. Na lesão medular estes nervos são muito importantes. Os nervos autônomos são divididos em dois tipos: simpáticos e parassimpáticos.

O Sistema Nervoso Autônomo está ligado a atividade de músculos involuntários (também conhecido como musculatura lisa) como por exemplo o músculo cardíaco e certas glândulas produtoras de hormônios e também controlam os aparelhos digestivo, respiratório e cardiovascular. Estes sistemas trabalham de modo "involuntário" e a função principal do sistema nervoso autônomo é manter o equilíbrio interno dos orgãos dentro do corpo. Os vasos sanguíneos e o coração são controlados pelo sistema nervoso autônomo.

    Nervos Simpáticos - Os nervos simpáticos ajudam a controlar a pressão arterial de acordo com a necessidade física do corpo. Quando estimulados, provocam aumento dos batimentos cardíacos e também causam constrição dos vasos sanguíneos através do corpo. Quando isto acontece, a quantidade de sangue que retorna ao coração é diminuída. Este efeito irá provocar um aumento da pressão arterial. Outros efeitos incluem um aumento da sudorese e da irritabilidade ou da sensação de ansiedade.

    Quando a lesão medular é acima de T6 os nervos simpáticos abaixo da lesão se tornam disconectados dos nervos acima da lesão. Eles continuam a operar automaticamente uma vez que o período inicial do choque espinhal termina. Qualquer estímulo dos nervos simpáticos podem torná-los hiperativos e a esta hiepratividade nós chamamos de Disrreflexia Autonômica.

    Nervos Parassimpáticos - Os nervos parassimpáticos agem de modo oposto aos nervos simpáticos. Estes nervos dilatam os vasos sanguíneos e diminuem os batimentos cardíacos. Um dos principais nervos que carrega fibras parassimpáticas é o Nervo Vago. Ele leva sinais parassimpáticos para o coração fazendo-o diminuir seus batimentos. Outros nervos suprem os vasos sanguíneos dos orgãos do abdomen e da pele.

    Os nervos parassimpáticos surgem de duas áreas. As fibras que suprem os orgãos do abdomen, coração, pulmões e pele acima da cintura começam ao nível do cérebro e parte superior da medula. Os nervos que suprem os orgãos de reprodução, pelvis e pernas começam ao nível do sacro e parte inferior da medula. Depois de uma lesão medular os nervos parassimpáticos que começam ao nível do cérebro continuam a trabalhar normalmente, mesmo durante a fase de choque espinhal. Quando ocorre uma disrreflexia, os nervos parassimpáticos tentam controlar o rápido aumento da pressão arteiral, diminuindo os batimentos cardíacos.

 
Classificação da Lesão
 
Um exame completo para determinar o nível neurológico da lesão implica em uma avaliação do níveis sensitivos e motores que foram afetados pela lesão medular. A avaliação neurológica recomendada segue a classificação publicada na "International Standards for Neurological and Functional Classification of Spinal Cord Injury", revisada em 1992 e endorsada pela "American Spinal Injury Association" e a "International Medical Society of Paraplegia".

O médico examina os 28 dermátomos (raízes nervosas que recebem informação sensitiva de uma determinada área da pele) para sensibilidade a agulhada e ao toque leve. O nível motor é testado através dos 10 pares de miótomos (grupos musculares).

O nível neurológico da lesão é definido como sendo: "o mais baixo segmento da medula que apresenta função sensitiva e motora normais, em ambos os lados do corpo".

Os níveis sensitivos e motores precisam ser avaliados em ambos os lados, direito e esquerdo, do corpo. Não é raro haver uma discrepância entre o nível motor mais baixo encontrado e o nível sensitivo mais baixo. Os médicos usam esta avaliação para classificar a lesão como completa ou incompleta e determinar o nível da lesão.

Outro modo de classificar uma lesão medular é dizer se ela é uma tetraplegia ou paraplegia. A tetraplegia, antigamente chamada quadriplegia, refere-se a uma lesão da medula na região cervical. A paraplegia refere-se a uma lesão da medula ocorrida na região torácica, lombar ou nos segmentos sacrais.

Quando a lesão medular é classificada como incompleta significa que a medula foi parcialmente lesada. Uma lesão incompleta tem preservação parcial da sensibilidade e da função motora abaixo do nível neurológico da lesão, incluindo o segmento sacral mais inferior. Uma lesão completa indica um bloqueio completo das messagens nervosas. Com a a lesão completa não existe sensação ou função motora no segmento sacral inferior.

Pequenas raízes nervosas deixam a medula e se agregam dentro das raízes nervosas existentes fora da medula. Em uma lesão medular apenas uma fração dessas raízes menores que vão para as raízes nervosas podem sofrer dano. Desta maneira, a raíz nervosa equivalente a um certo segmento medular, pode estar apenas parcialmente danificada.

Também está incluída na avaliação neurológica a classificação das Síndormes Clínicas. As síndromes incluem: Síndrome Central da Medula, Síndrome de Brown-Sequard, Síndrome Anterior da Medula, Síndrome do Cone Medular e Síndrome da Cauda Equina. Uma síndrome mista ou sem classificação específica pode estar presente.

Uma classificação chamada Medida de Independência Funcional (MIF) foi adicionada recentemente no processo de avaliação do paciente. Este método é usado para monitorizar e avaliar o progresso com o tratamento. Ele mede as atividades de vida diária nas áreas de cuidados pessoais, controle esfincteriano, mobilidade, locomoção e comunicação social. Atividades como o comer, higiene pessoal e o vestir são calculadas numa escala que mede o nível de dependência / independência.

Realizar um exame neurológico acurado e completo e determinar o nível neurológico da lesão ajuda a estabelecer metas reais para um programa de reabilitação que vise proporcionar maior independência ao paciente e promover melhor reintegração do mesmo dentro de sua comunidade.

Dra. Flavia Fernandes, M.D.


 

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