O
Assinalado
Tu és o
louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema,
A terra é sempre tua negra algema,
Prende-te nele a extrema desventura.
Mas essa
mesma algema de amargura,
Mas essa mesma desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o
poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, de pouco a pouco,
Na
natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
Cárcere
das Almas
Ah! Toda
alma num cárcere está presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades,
Do calabouço olhando as imensidades,
Mares, estrelas, natureza.
Tudo se
veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo espaço da pureza.
Ó almas
presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses
silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do mistério ?!
Perante
A Morte
Perante
a morte empalidece e treme,
treme perante a Morte, empalidece.
Coroa-te de lágrimas, esquece
o Mal cruel nos abismos geme.
Ah!
longe o inferno que flameja e freme,
longe a Paixão que só no horror floresce...
a alma precisa de silêncio e prece,
pois na prece e silêncio nada teme.
Silêncio
e prece no fatal segredo,
perante o pasmo do sombrio medo
da Morte e os seus aspectos reverentes...
Silêncio
para o desespero insano,
o furor gigantesco e sobre-humano...
a dor sinistra de ranger os dentes!Inexorável
Ó meu Amor,que já morreste,
Ó meu Amor,que morta estás!
Lá nessa cova a que desceste,
Ó meu Amor,que já morreste,
Ah! nunca mais florescerás?!
Ao teu esquálido esqueleto,
Que tinha outrora de uma flor
A graça e o encanto do amuleto;
Ao teu esquálido esqueleto
Não voltará novo esplendor?!
E ah!o teu crânio sem cabelos
Sinistro,seco,estéril,nu...
(Belas madeixas dos teus zelos!)
E ah! o teu crânio sem cabelos
Há de ficar como estás tu?!
O teu nariz de asa redonda,
De linhas límpidas,sutis
Oh!há de ser na lama hedionda
O teu nariz de asa redonda
Comido pelos vermes vis?!
Dos teus dois olhos-dois encantos-
De tudo,enfim,maravilhar,
Sacrário augsto dos teus prantos,
Os teus dois olhos-dois encantos
Em dois buracos vão ficar?!
A tua boca perfumosa,
O céu do néctar sensual,
Tão casta,fresca e luminosa,
A tua boca perfumosa
Vai ter o cancro sepulcral?!
As tuas mãos de nívea seda,
De veias cândidas e azuis
Vão se estinguir na noite treda
As tuas mãos de nívea seda,
Lá nesses lúgubres pauis?!
As tuas tentadoras pomas
Cheias de um magníficoelixir,
De quentes,cálidos aromas,
As tuas tentadoras pomas
Ah!nunca mais hão de florir?!
A essência virgem da beleza,
O gesto,o andar,o sol da voz
Que iluminava de pureza,
A essência virgem da beleza,
Tudo acabou no horror atroz?!
Na funda treva dessa cova,
Na inexorável podridão
Já te apagaste,Estrela nova,
Na funda treva dessa cova,
Na negra transfiguração!
Ironia De Lágrimas
Junto da morte é que floresce a vida!
Andamos rindo junto a sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
Da cova é como flor apodrecida.
A Morte lembra a estranha Margarida
Do nosso corpo, Fausto sem ventura...
Ela anda em torno a toda criatura
Numa dança macabra indefinida.
Vem revestida em suas negras sedas
E a marteladas lúgubres e tredas
Das Ilusões o eterno esquife prega.
E adeus caminhos vãos mundos risonhos!
Lá vem a loba que devora os sonhos,
Faminta, absconsa, imponderada cega!
A Morte
Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ansioso, aflito dos que morrem...
De que âncoras profundas se socorrem
Os que penetram nessa noite escura!
Da vida aos frios véus da sepultura
Vagos momentos trêmulos decorrem...
E dos olhos as lágrimas escorrem
Como faróis da humana Desventura.
Descem então aos golfos congelados
Os que na terra vagam suspirando,
Com os velhos corações tantalizados.
Tudo negro e sinistro vai rolando
Báratro a baixo, aos ecos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando...
Assim Seja
Fecha os olhos e morre calmamente!
Morre sereno do Dever cumprido!
Nem o mais leve, nem um só gemido
Traia, sequer, o teu Sentir latente.
Morre com a alma leal, clarividente,
Da Crença errando no Vergel florido
E o pensamento pelos céus brandido
Como um gládio soberbo e refulgente.
Vai abrindo sacrário por sacrário
Do teu Sonho no templo imaginário,
Na hora glacial da negra Morte imensa...
Morre com o teu Dever! Na alta confiança
De quem triunfou e sabe que descansa,
Desdenhando de toda a recompensa!
Consolo
Amargo
Mortos e mortos tudo vai passando,
Tudo pelos abismos se sumindo.
Enquanto sobre a Terra ficam rindo
Uns, e já outros pálidos chorando.
Todos vão trêmulos finalizando,
Para os gelados túmulos partindo,
Descendo ao tremedal eterno, infindo
Mortos e mortos num sinistro bando.
Tudo passa espetral e doloroso,
Pulverulentamente nebuloso
Como num sonho, num fatal letargo.
Mas a quem chora os mortos, entretanto,
O esquecimento vem e enxuga o pranto,
E é este apenas o consolo amargo.
|