Discurso
E
aqui estou, cantando.
Um poeta
é sempre irmão do vento e da água:
deixe seu ritmo onde passa.
Venho de
longo e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.
Também
procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Pois
aqui estou, cantando.
Se eu
nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute ?
Ah! se
eu nem sei quem sou,
como posso esperar que algum ouvido me escute ?
Ah! se
eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim ?
Explicação
O
pensamento é triste; o amor insuficiente;
e eu quero sempre mais do quem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.
Deus não fala comigo- e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.
( navego
pela memória
sem margens.
alguém
conta a minha história
e alguém mata os personagens. )
Apresentação
Aqui está
a minha vida- esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui em
minha voz- esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está
a minha dor- este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está
a minha herança- este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.
Despedida
Por mim, e
por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Metamorfose
Súbito pássaro
dentro dos muros
caido,
pálido barco
na onda serena
chegado.
Noite sem braços!
Cálido sangue
corrido.
E imensamente
o navegante
mudado.
Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.
Seu labio leva
um outro nome
mandado.
súbito pássaro
por altas nuvens
bebido.
Pálido barco
nas flores quietas
quebrado.
Nunca, jamais
e para sempre
perdido
o eco do corpo
no próprio vento
pregado.
Noturno
Brumoso navio
o que me carrega
por um mar abstrato.
Que insigne alvedrio
prende à idéia cega
teu vago retrato?
A distante viagem
adormece a espuma
breve da palavra:
- máquina de aragem
que percorre a bruma
e o deserto lavra.
Cêras de mistério
selam cada poro
de vida entregada.
Em teu mar, no império
de exílio onde moro,
tudo é igual a nada.
Capitão que conte
quem és, porque existes,
deve ter havido.
Eu? - bebo o horizonte...
Estrelas mais tristes.
Coração perdido.
Sonolentes velas
hoje dobraremos:
- e a nossa cabeça.
Talvez dentro delas
ou nos duros remos
teu NOME apareça.
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