Carlos Drummond de Andrade
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Federico Garcia Lorca Sobre teu corpo, que há dez anos se vem transformando em cravos de rubra cor espanhola, aqui estou para depositar vergonha e lágrimas. Vergonha de há tanto tempo viveres- se morte é vida - sob chão onde esporas tinem e calçam a mais fina grama e o pensamento mais fino de amor, de justiça e paz. Lágrimas de noturno orvalho, não de mágoa desiludida, lágrimas que tão-só destilam desejo e ânsia e certeza de que o dia amanhecerá. ( Amanhecerá. ) Esse claro dia espanhol, composto na treva de hoje sobre teu túmulo há de abrir-se, mostrando gloriosamente - ao canto multiplicando de guitarra, gitano e galo - que para sempre viverão os poetas martirizados. Novo Tempo Este tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó de rua. Os homens pedem carne. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te encontro. Onde te ocultas, precária síntese, penhor de meu sono, luz dormindo acesa da varanda ? Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me a cidade dos homens completos. Calo-me, espero, decifro. As coisas talvez melhorem. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas, enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir. José E agora, José? Boca |