VLAD
Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan
O fogo ardia no centro da roda de amigos. Além de aliviar um pouco a intensa escuridão daquela noite sem lua, servia também para amenizar o frio cortante de inverno. Os assuntos banais que estavam sendo tratados desligaram Otto da conversa, que agora permanecia absorto em seus pensamentos, enquanto fitava profundamente as chamas a sua frente. Que belo era o fogo! Enquanto destruía uma porção de matéria, alimentava suas vidas, cedendo-lhes calor. Por instantes, havia desvendado o mistério da vida - a força vital latente no Universo não era perdida com a morte de um ser vivo, mas simplesmente transferida a outro por um maravilhoso, porém natural, processo. Existiriam, no entanto, outros meios não executados pela natureza, para se retirar essa força vital de um animal ou vegetal e passá-la a outro? O fogo, por exemplo, retirava energia da madeira - que outrora fora viva - e transferia essa, por assim dizer, força vital para os humanos ao seu redor. O simples ato de se alimentar era um processo de absorver força vital de um ser já morto. O Homem criara tanto, transformara tanto a natureza a seu favor; não poderia ele criar novos processos? Otto já tinha lido sobre vampirismo, e agora começava a associar as duas idéias. Existira, na Idade Média, nobres que banhavam-se em sangue humano - e muitas vezes bebiam-no - com o intuito de se revitalizarem. Preferiam o sangue de jovens - e de jovens virgens acima de tudo - por terem mais energia de revitalização. Parecia-lhe claro agora que a prática desse vampirismo medieval nada mais era do que um processo artificial de transferência de força vital.
"Você está certo no que está pensando, Otto!", ouviu Vladimir dizer-lhe, e percebeu que saia de uma espécie de transe. Esquecera-se completamente de que tinha companhia, e perdera-se completamente da conversa, pois sua concentração nos pensamentos o impedira de ouvir. Fitando o fogo, chegou à conclusão de que ele o havia hipnotizado. Que método excelente de filosofia!
"O que foi que me disse, Vladimir?", perguntou Otto.
"Eu!? Não falei nada."
Talvez não tivesse dito mesmo, Otto estava acordando de seus pensamentos para as outras pessoas e não tinha muita certeza do que tinha acontecido ao seu redor. Melhor não discutir. Lembrou-se de suas necessidades fisiológicas e levantou-se para urinar, deixando seus amigos e amigas conversando e bebendo vinho.
Inconscientemente, Otto afastou-se um pouco mais do grupo do que o necessário, perdendo-os de vista devido à vegetação. Quando olhou ao redor para voltar à fogueira, notou que havia se formado rapidamente uma espessa cortina de neblina. Tinha certeza, porém, de que conhecia o caminho, e pôs-se a andar. Não tardou para perceber que estava perdido. Mas não podia estar muito longe. Gritou pelo grupo, mas não obteve resposta. Continuou, então, a andar.
Aos poucos, a neblina foi tornando-se menos intensa, e Otto pôde observar melhor ao redor, apesar da escuridão noturna. Foi quando viu um vulto a sua frente. Aproximou-se. Era definitivamente uma pessoa. Um súbito medo apoderou-se dele então. Receou avançar, mas suas pernas continuaram mesmo assim. Sentiu um estranho pressentimento de perigo, mas não pensou em parar. Talvez estivesse mais curioso do que amedrontado. Na verdade, pensava bem pouco, apenas conjecturava quem seria aquela pessoa. Estranhamente não pensou em nada para dizer, nem em dizer algo. O vulto começou a se definir. Era um homem preso por cordas entre duas árvores. Seus braços estavam abertos. Parecia que o corpo todo estava sustentado pelas cordas amarradas em seus pulsos. Suas pernas estavam ligeiramente flexionadas, com seus pés tocando o chão. Se não estivesse morto, estava num estado que beirava a morte. Otto aproximou-se mais um pouco, e encheu-se de um sentimento misto de surpresa, medo e incompreensão. O preso levantou tristemente o olhar para Otto. Era ele próprio, uma réplica de si. Ele via a si próprio, mas não compreendia como. Só pensou em se afastar, e foi o que fez.
Enquanto procurava a fogueira onde estavam seus amigos, entrou em um novo nevoeiro e foi cair numa trilha. Ao segui-la deu com uma muralha, e uma porta de ferro nela. Não foi difícil abri-la. A sua frente estava um corredor do que parecia ser um construção medieval. Havia alguns castiçais com velas acesas presos nas paredes, que forneciam uma certa iluminação. Otto ficou muito curioso, pois nunca ouvira falar de nenhuma construção desse tipo na redondeza. Resolveu entrar para ver aonde aquilo ia dar. À alguns passos de onde estava, o corredor fazia uma curva à direita, de onde vinha uma luz mais intensa. Otto seguiu em frente e fez a curva. A sua frente, uma escada dando para cima, e era de lá que vinha a luz. Seguiu em frente, subindo a escada. Otto pouco pensava no que poderia acontecer, apenas ia em frente, guiado pela curiosidade. Não que fosse uma pessoa corajosa, de espírito aventureiro, pois não era; apenas agia dessa forma na ocasião, como que instintivamente. Ao chegar ao topo da escada, estava em um salão intensamente iluminado por velas. Tudo parecia muito antigo. Nas paredes havia quadros de pessoas, que traziam no semblante um ar aristocrático. No chão, um enorme tapete conduzia a uma espécie de altar. Ali, via-se uma poltrona e acima dela um brasão. Na poltrona - que no caso mais parecia um trono - estava sentado um homem. Apesar de os objetos serem antigos, todos pareciam novos, como se Otto tivesse voltado no tempo. E parecia que o homem o esperava. Otto aproximou-se para poder observá-lo melhor. Ao ver seu rosto, recuou assustado. Aquele homem era um sósia de seu amigo Vladimir. Era como se ele estivesse assistindo de perto a um sonho seu, em que seus amigos e conhecidos, e ele próprio assumem papéis diversos. Ficaram alguns instantes travando uma espécie de duelo de olhares, até que o homem em seu trono desviou o olhar de Otto, fazendo um sinal com as mãos para alguém atrás dele. E foi nesse ponto, antes mesmo que Otto pudesse virar-se para olhar, que dois homens encapuzados chegaram por trás dele, e torcendo seus braços para trás, algemaram-no.
"Meu nome é Vlad.", disse finalmente o homem que estava sentado. "E apesar da invasão, seja bem-vindo ao meu castelo." Deu então um novo sinal, desta vez com a cabeça, e Otto foi levado.
Saíram por uma das portas do salão, e a série de corredores, salas e escadas pelas quais passaram causaram grande impacto sobre Otto. Realmente estava em um castelo. Não conseguia compreender mais nada. Não estava sonhando, e isso era certo. Mas como poderia ter visto duas pessoas conhecidas - uma delas sendo ele próprio - desempenhando papéis que sabia não lhes pertencerem? E de onde surgira aquele castelo? Não tinha ido tão longe assim, perdido no nevoeiro. Não tinha bons pressentimentos sobre isso. Sentia que algo terrível estava por acontecer. Devia haver um significado para tudo aquilo. Seria uma brincadeira de seus amigos? Não, onde teriam arranjado o castelo, e como vira a si próprio preso entre duas árvores? Talvez tivesse sido sugestionado enquanto olhava o fogo; a hipnose podia ser bem poderosa sob certas condições. Nesse caso, tudo era falso: o castelo, as pessoas que havia visto, o nevoeiro. Mas se tivesse sido realmente hipnotizado, não teria chegado a pensar que tudo não passava de uma simples sugestão. Ou teria?
Chegaram a um grande salão pouco iluminado. O ar dali estava carregado. Havia um forte cheiro de sangue coagulado e carne podre, que transmitiram-lhe uma terrível atmosfera. Era cheiro de morte. Aos poucos, seus olhos foram acostumando-se com a penumbra do local. Existiam vários aparelhos espalhados pelo cômodo. O pavor tomou conta de Otto: estava no calabouço do castelo, e aqueles aparelhos eram máquinas de tortura! Seus maus pressentimentos estavam para se concretizar. Numa tentativa desesperada, Otto forçou sua libertação, mas não teve sucesso. Não era fácil lutar com os braços algemados nas costas, e contra duas pessoas tão fortes quanto ele. Mas conseguiu empurrar um deles com a perna. Foi aí que Otto teve uma nova revelação. Com o empurrão, o torturador foi dar de costas com a parede, e seu capuz enroscou em um castiçal sem velas. Desequilibrado então, caiu no chão com a cabeça descoberta. Ele era outro sósia, desta vez de Adolf, outro de seus amigos da fogueira. Na sua surpresa, Otto foi facilmente dominado.
"O que vocês querem, afinal?", berrou ele com raiva. "E você, quem é? Josef? Isaac?" Não houve resposta para nenhuma pergunta. Apenas agarraram-no com mais força e conduziram-no a uma parede, onde foi acorrentado. Depois disso, os dois se retiraram sem dizer coisa alguma.
Otto ficou olhando ao seu redor. Alguns dos aparelhos já tinha visto em livros ou filmes. Outros eram completamente novos para ele. Tinha pavor só em pensar para que serviam. Foi então que ouviu um gemido vindo de um canto próximo a ele. Desviou o olhar para lá e viu horrorizado um homem fincado em uma estaca vertical. Ao lado dela encontravam-se mais algumas. Otto apavorou-se ao pensar que aquele talvez também fosse o seu destino. O pobre coitado estava em estado terminal. Um pouco de sangue ainda escorria dele, e era coletado por uma bacia aos pés da estaca. Que morte lenta e dolorosa! Sentiu imensa pena dele e temeu que aquilo pudesse acontecer com ele.
Cada minuto de espera agora era agonizante. Ouvia ruídos imaginários de alguém se aproximando e enchia-se de pavor com isso. Cada gemido dado pelo pobre empalado vinha em cheio ao seu peito como uma afiada estaca. O tempo passava bem devagar, parecendo uma eternidade. Fazia poucos minutos que estava preso na parede, mas para ele horas haviam se passado. Imagens confusas de pensamentos tenebrosos povoavam sua mente. Aquela espera tinha se tornado uma tortura por si só.
Passos vieram em direção ao calabouço e um frio de antecipação percorreu a espinha de Otto. Um dos encapuzados entrou trazendo uma bandeja com alguma comida e deixou-a sobre uma mesa próxima às estacas. Devia ser para os dois condenados. Otto sentiu-se enjoado. Não conseguiria comer naquele lugar horrível cheirando a morte. O servo ficou ao lado da mesa, como se esperasse seu amo. Vlad entrou logo em seguida, caminhando como um nobre. Tinha um ar aristocrático, o que transmitia muita dignidade. Sua aparência não combinava de forma alguma com o crápula desumano que era. Vinha trajado com a mesma roupa preta semelhante a uma batina com a qual Otto o vira antes. Ao redor do pescoço trazia uma grossa corrente prateada. O corte de cabelo não era o mesmo de Vladimir - era muito antiquado - , mas o rosto definitivamente era. Apesar disso, era difícil associar as duas pessoas. Era como se Vladimir fosse um ator desempenhando muitíssimo bem seu papel - sua personalidade sendo integralmente substituída pela do personagem, apenas o corpo mantinha-se o mesmo. Vlad sentou-se a mesa e começou a comer. Otto ficou enojado: aquele tirano vinha jantar entre suas vítimas! Como podia alguém ser tão desumano?
"Sirva-me o vinho da vida.", ordenou Vlad a seu servo, entregando-lhe uma taça de prata. Este tomou-a, e encheu-a com o sangue que escorria do empalado para a bacia. Então Vlad praticava o vampirismo. Estaria ele buscando vida eterna com isso? Talvez tivesse conseguido. Quantos anos teria ele afinal? Apesar da curiosidade, Otto não se atreveu a perguntar nada. Apenas observou, cheio de asco, Vlad comendo. Seu ódio por ele aumentava cada vez mais.
Vinho da vida - dissera Vlad. Isso entrava em acordo com o que estivera pensando na fogueira sobre a força vital. Não havia sido Vladimir que dissera que ele estava certo em seus pensamentos, e depois negou que tivesse dito? E os dois nomes eram praticamente um só. Teria seu "amigo" Vladimir decidido demonstrar na prática aquilo que Otto teorizara? Mas como? Quem era Vladimir afinal? Que mistérios não tinham as pessoas que julgávamos conhecer!
Sem forças, Otto acabou adormecendo enquanto estava absorto nesses pensamentos. A próxima vez que recobrou consciência foi suficiente apenas para levantar o olhar para frente e ver a si próprio na floresta, assustado, observando-se. Viu-se afastar. Estava assistindo ao passado - foi seu último pensamento, antes de deixar a cabeça cair novamente e morrer, preso entre duas árvores.
Março de 1991
a partir de idéias e esboços de
Guilherme de Rossi e
Pedro Luís Bello Daldegan
de 5 de julho de 1989