O TEMPLO
Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan
Perseu não estava estudando mitologia, estava olhando figuras e copiando textos para um trabalho. Às vezes se impressionava com a perfeição de algumas pinturas e principalmente das esculturas. "Isto é que é arte!", pensava. "Não os rostos tortos nem os borrões que se fazem hoje."
Enquanto apreciava a fotografia de uma escultura, notou um zumbido. Não sabia dizer quando começara. Estava distraído e era quase imperceptível. Mas agora ele tinha notado. Foi até a porta da frente, de onde parecia ter origem.
Uma estranha luz penetrava pelas frestas da porta e agora o zumbido era mais alto. O medo era grande, mas a curiosidade foi maior. Perseu abriu a porta. O zumbido parou.
Na varanda havia um estranho vaso, e uma estranha luz emergia dele. Perseu ajoelhou-se a sua frente e meteu a mão dentro dele. A imagem de uma bela mulher formou-se em sua mente. Primeiro de corpo inteiro, estendendo-lhe a mão como se o chamasse. Em seguida apenas seu rosto. Tinha uma face angelical, mas expressão triste.
De dentro do vaso Perseu tirou uma chave. Olhou para ela. Parecia uma chave comum. Continuava ajoelhado diante do vaso, mas não mais em sua varanda. Parecia perdido no meio do mato. A sua frente havia uma construção. Não era grande. Poucos metros de altura, mais alta do que larga ou comprida. Parecia uma capela, ou um templo, não fosse pela arquitetura que não era nem sacra nem clássica. Havia uma porta, e uma fechadura nela.
Contemplou a construção por instantes, até que resolveu testar a chave que segurava. Dirigiu-se vagarosamente até lá. Enfiou-a na fechadura e lentamente a girou. A porta se destrancou. Perseu a abriu e entrou.
Havia muita fumaça, logo ficou alguns instantes sem nada enxergar. A porta continuava atrás dele, mas as paredes que deveriam cercá-lo não estavam lá, e a fumaça não era fumaça, era neblina. Atravessou a porta para um lugar fechado e chegou a um lugar aberto. Parecia um campo.
Andou alguns passos a frente. A sua esquerda havia um homem de toga deitado sobre uma espécie de banco, e uma mulher, também de toga, que dava uvas a ele, colocando-as sensualmente em sua boca. Olharam despreocupados para Perseu e voltaram a dar e comer uvas. Perseu seguiu seu caminho, sem saber para onde caminhava.
Sem ter que andar muito, chegou a uma mesa de pedra. Deitada sobre ela havia uma jovem mulher e ao lado, em pé, outro homem de toga. Perseu percebeu, sem compreender, que a mulher deitada sobre a mesa era a mesma que vira ao por sua mão no vaso.
O homem ergueu um punhal acima da mulher. Perseu compreendeu que seria sacrificada. Desesperado, soltou um grito, na tentativa de impedir tal ato. O homem virou-se para Perseu vagarosamente, baixando o punhal sem tocar na mulher. Sua face tinha uma expressão séria, repreensiva. Virou-se e saiu. Perseu não compreendeu tal atitude.
A bela mulher apenas viu seu carrasco partir. Depois levantou-se, ficando sentada sobre a mesa, olhando delicadamente para Perseu. Ele estava pasmado e ao mesmo tempo encantado com sua beleza. Estendeu-lhe a mão. Ela desceu da mesa e ficou diante dele. Segurou sua mão. Perseu levantou a outra e tocou-lhe o rosto.
Contemplava sua beleza quando percebeu que alguém se aproximava por onde o carrasco se afastara. Era o próprio, acompanhado pelo que Perseu supos ser um guerreiro. Carregava um escudo em um braço e uma espada no outro. O carrasco apontou para os dois e o guerreiro avançou. Perseu puxou a mulher e começaram a fugir. Procurava pela porta. Não tardou para que passassem pelo casal das uvas. O guerreiro continuava atrás deles. Chegaram à porta e atravessaram-na. Estavam eles diante daquele templo ou fosse lá o que fosse. Perseu trancou a porta afobado. Virou-se então para comtemplar a mulher e retomar o fôlego.
Notou que sua imagem se desfazia e ela pouco a pouco desaparecia. Tentou se aproximar para tocá-la novamente, mas quando chegou perto já tinha desaparecido completamente.
Tristemente olhou para o vaso. Foi até ele, ajoelhou-se e depositou a chave em seu interior. Levantou-se sem saber para onde ir quando notou que estava de volta à sua varanda. Olhou para o vaso. Não estava mais lá.
Sem saber o que pensar, voltou aos livros e em um deles encontrou a bela mulher numa pintura clássica. Continuou sem saber o que pensar.
Santa Rita do Passa Quatro, fevereiro de 1989