O REFLEXO
A noite estava clara - o céu límpido e estrelado. Boris olhou pela janela e viu o vasto parque diante de sua casa. Uma brisa suave de verão refrescou-lhe o rosto. Que bela noite para um passeio!
Não havia muitas pessoas andando por aquelas alamedas. O parque estava praticamente vazio - o que era difícil de entender naquele quente noite. Boris apenas caminhava, despreocupado, pensando em sutilezas.
Até que encontrou, em um banco do parque, um corpo aparentemente sem vida. E estava, por incrível que pareça, vestido exatamente da mesma forma que Boris. Aproximou-se. O rosto estava caído para o outro lado, e num impulso impensado, encostou sua mão e o virou. Era ele próprio!
Boris caminhava pelo parque despreocupado, pensando em sutilezas. Imaginava como era possível que houvesse tão poucas pessoas ali em tão bela e quente noite de verão.
Até que, olhando distraidamente para o chão, deparou-se com uma nota perdida de dez dólares. Fitou-a por alguns instantes, e por fim abaixou-se e a pegou.
Ali perto havia um banco. Retirando a carteira do bolso de trás da calça, sentou-se para guardar o seu achado e descansar um pouco.
Na espreita, alguém retirava uma corrente do bolso. Aproximou-se por trás do banco silenciosamente, e jogando a corrente ao redor do pescoço de Boris, enforcou-o. Pegou a carteira, e fugiu. O corpo ficou ali, inerte, com o rosto caído para o lado.
Boris olhava atônito para aquele corpo. Talvez estivesse ficando louco. Não podia estar vendo a si próprio.
Saiu dali rapidamente, sem olhar para trás. Precisava reconstituir-se. Voltou para casa e foi direto lavar o rosto, na expectativa de que isso fizesse com que recobrasse a sanidade. Antes que pudesse fazer isso, porém, ficou estático diante do espelho, à procura do seu próprio reflexo, que não estava ali.
Boris sabia agora quem era o morto do parque. Não haviam assassinado uma pessoa, mas metade dela - a metade que ficava do outro lado do espelho.
Escrito a 21 de agosto de 1991, São Paulo
Baseado no filme "The Reflex" de fevereiro de 1989