The Lord

Esboço

Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan - Novembro de 1990

 

A estória de um fidalgote alucinado

Pega flanela de dentro de uma gaveta. Mãos em primeiro plano.

Retira quadro da parede. Embrulha quadro na flanela, em cima da mesa.

Pêndulo do relógio de parede.

Lorde lendo TIME no sofá, de óculos e fumando cachimbo.

Batem na porta aberta. É um homem bem vestido. O Lorde desvia o olhar para ele. Levanta-se. O homem entra. Cumprimentam-se.

Quadro sendo desembrulhado. Mãos do Lorde. Homem olhando maravilhado para o quadro. Lorde olhando maldosamente para o homem.

Vinho sendo despejado em duas taças. Mãos do Lorde. Lorde lança um olhar furtivo sobre o outro homem. Ele está olhando o quadro. Tira um maço de notas do bolso e começa a contá-las. O Lorde abre um compartimento em seu anel, e despeja seu conteúdo - um pó branco - dentro de uma das taças.

O Lorde chega à mesa onde está o outro homem, trazendo as duas taças. Dá uma delas a ele, e este lhe dá o maço de notas. O Lorde levanta as taças brindando. O outro repete o gesto. Bebem (vários planos em suspense).

O homem termina de beber e coloca a taça sobre a mesa. Pára (close da mão próxima à taça). Mão solta-se da taça e cai. O homem cai (olhar do Lorde acompanhando a queda).

Lorde retirando o corpo do local.

O Lorde pega o quadro e leva à parede de origem (plano médio).

O Lorde, mal vestido, sendo levado pelos dois funcionários do sanatório (plano geral do barraco).

Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan

à 5 e 6 de novembro de 1990

a partir de idéias de

Pedro Luís Bello Daldegan e

Guilherme de Rossi

de junho de 1990 e esboços de 9 de outubro de 1990

 

Some Words About "The Lord"

The Lord é basicamente uma estória envolvendo loucura; mal do qual todos nós sofremos, uns em maior, e outros em menor grau, e sob as mais variadas formas. Aqui, há um caso extremo, onde uma pessoa - conveniente e satiricamente chamada de "o Lorde" - acredita encontrar-se num elevado status social, e ter ascendência nobre, quando na verdade é pobre e sem nenhuma genealogia em especial. Sua loucura extrema faz com que enxergue a realidade distorcida, vivendo num mundo imaginário, idealizado de acordo com seus sonhos.

A figura de linguagem que melhor se associa ao enredo é a hipérbole. O personagem central é tirado da vida real, tendo seus traços exagerados. De fato, existem pessoas que colocam-se acima de si mesmas, principalmente a nível social, como o Lorde, e dentro dessa loucura não hesitam em passar por cima dos outros para satisfazer seus pequenos caprichos. As disparidades entre a realidade e a imaginação, no entanto, não são tão grandes como na estória, nem a pequena loucura dessas pessoas pode fazer com que sejam classsificadas como insanas. Apenas se mostra, através desses exageros, como é absurda a postura delas em face a realidade, principalmente daquelas que, como o Lorde, acreditam ser nobres, supervalorizando seus nomes, sendo que na verdade são apenas descendentes de burgueses ricos.

No Brasil, é especialmente grande a incidência de casos assim. País de grandes diferenças sociais, a posição social elevada é motivo de orgulho, e o contrário, de vergonha; mesmo quando essas posições são simplesmente herdadas. Como um mau hábito, formou-se essa mentalidade. A classe média, por exemplo, identifica-se mais com a classe alta do que com a baixa; e no caso, mais importante do que ser "jet-set", é ter a aparência de que se é. É certo que, culturalmente, a classe média tende muito mais à classe alta do que à baixa, mas esse não é o único motivo para essa identificação. O orgulho de se pertencer a uma classe superior tem grande influência também. E isso cria a postura do Lorde nas pessoas.

No filme, é mostrada a trama a partir do ponto de vista do Lorde, e acreditamos dessa forma, como ele, tratar-se da realidade. Essa nos é revelada apenas no final, quando funcionários de um sanatório vêm capturá-lo. Passamos, então, a enxergar a partir do ponto de vista deles - tomamos consciência da realidade, o que não acontece com o Lorde, que acredita estar sendo levado pela polícia, depois de ter cometido um assassinato, o que na verdade não ocorreu. Ele deixa-se levar com classe, acreditando que seu crime imaginário foi um gesto aristocrático. Segundo sua concepção, ele, como parte da alta sociedade, deve participar também de seus escândalos.

São Paulo, 15 de outubro de 1990

 

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