O Homem de Preto

Esboço

Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan - São Paulo, Novembro de 1992

 

CENA#1

O fogo arde queimando a lenha. Nick está ao lado da fogueira, no campo, sozinho. Percebe algo a sua frente. É um par de olhos vermelhos brilhantes, no meio dos arbustos. Movimenta-se como que na espreita. De repente seu irmão está ao seu lado: "Ele voltou, Nick!" Nick aponta a luz da lanterna para o par de olhos e o homem de preto torna-se evidente, mas apenas por alguns instantes, pois ele derruba sua lanterna, assustado. Acorda.

(O som aqui deve sugerir uma atmosfera onírica, talvez com ventos e relâmpagos distantes).

CENA#2

Nick dá uma pausa em seu serviço no escritório e sai para o almoço. Está sobrecarregado.

CENA#3

Nick olha casualmente pela janela do restaurante onde está comendo e do outro lado da rua vê um homem vestido de preto, aparentemente olhando para ele. Assustado e surpreso, deixa cair de suas mãos o copo de bebida. Vem o garçon ajudá-lo a se limpar. Olha novamente para o outro lado da rua, mas não mais o vê.

CENA#4

Volta abalado ao escritório e seu chefe lhe pergunta o que aconteceu para deixá-lo tão pálido. Nick conta-lhe sobre um episódio da infância, quando brincava com seu irmão na fazenda, perto da mata, e ambos viram ("Você também viu, Nick?") um homem de preto e olhos vermelhos brilhantes do qual fugiram o mais rapidamente que puderam, sem olhar para trás, aterrorizados com o que poderiam ver novamente. (Flash-back?) Conta como ficou-lhe a impressão de que se tratava do próprio demônio. O chefe lhe pergunta então a razão pela qual lembrou-se daquela história naquele dia, e Nick lhe conta sobre o sonho que tivera aquela noite e que há muito tempo não tinha. Conta-lhe do episódio do restaurante. "Ele voltou... eu sei disso... sei que voltou... sei que está atrás de mim..." Desequilibra-se e seu chefe tenta convencê-lo de que tudo não passa de stress, dispensando-o por uma semana para repousar e se recuperar.

CENA#5

Nick chega em sua casa com algumas compras. Coloca-as na cozinha. Toma uma ducha. Deita-se. Começa a adormecer lembrando-se de um amigo (sua voz ou voz e rosto) dizendo-lhe que vive muito sozinho, que precisa procurar mais os amigos e até mesmo arranjar uma namorada.

Desperta com o barulho da porta da frente sendo aberta. Apreensivo, ouve passos. Levanta-se, pega algo na gaveta de seu criado-mudo e esconde-se. Em suas mãos está uma faca de gangue de rua e prepara-se para usá-la se for preciso. Continua a ouvir alguém em casa se aproximando, mas não consegue ver ninguém, no máximo a impressão de uma sombra ou vulto. Quando pensa estar o misterioso invasor já em seu quarto, aventura-se a tentar sair da casa.

CENA#6

Nick percebe estar sendo perseguido na rua até encurralar-se em um beco, onde finalmente vê o homem de preto, e o mata com sua faca. Foge do local enquanto o vemos se afastando do mendigo que matou.

São Paulo, 17 e 18 de novembro de 1992

Proposições Sobre o Uso da Linguagem Cinematográfica

Som: uso exaustivo de recursos sonoros para imposição de climas (onírico, de suspense, de loucura e paranóia,...); a idéia básica do desenvolvimento das cenas #5 e #6 foi de criação de suspense por sugestão sonora (nota-se aqui uma tendência na evolução no uso do som, dando continuidade ao trabalho iniciado em Chased e prosseguido em Spy Story e A Prisão, passando-se ainda pela experimentação com o filme pré-koboldiano O Espião Que Saiu Do Frio); a criação de um clima por som não se resume ao uso da trilha sonora e de seus acordes (a busca de novos acordes pode liberar a linguagem dos chavões sonoros já consagrados), mas também de efeitos sonoros que sugestionem uma situação não apenas aos espectadores mas também ao próprio personagem e dele, novamente e mais intensamente, aos espectadores; não é um uso novo no cinema, mas aqui propõe-se, experimentalmente, seu uso exaustivo até chegar a um personagem paranóico, de ouvidos traiçoeiros.

Imagem: acentuação de climas por: design e iluminação, angulação e composição, planificação; por exemplo, na cena #4, alterar a ambientação através de iluminação e até mesmo mudanças de cenário e sons, falseando-se a realidade, para criação de atmosfera propícia a narração da estória de infância sobre o Homem de Preto.

Proposição: propõe-se uma maior flexibilidade no uso das imagens e sons para que haja sua liberação da realidade concreta do personagem, possibiltando uma incursão em seu estado de espírito.

São Paulo, 20 de novembro de 1992

Hosted by www.Geocities.ws

1