GEMINI

Vem Felipe se contorcendo, mantendo a lisa musculatura da bexiga contraída, guardando o líquido para que não lhe vaze nas roupas. Acha um lugar adequado: pobre moita! Pouco antes da musculatura se soltar, todavia, Felipe vê jogada no chão uma garrafa vazia. Apelo ecológico: urine na garrafa! Foi o que fez. "Foi uma boa ação.", pensou. Teria sido se tivesse sumido com a garrafa. Não foi o que fez. Simplesmente foi-se embora deixando-a ali mesmo.

O tempo passou: minutos, talvez horas. Chega Romão à moita. Não tinha intenção de urinar, nem de defecar. Simplesmente chegou, nem nada para fazer. Também não sentia nada: nem frio nem calor, nem fome nem sede, nem sono nem nada. Simplesmente chegou. E assim que chegou, deparou-se com uma misteriosa garrafa cheia de um misterioso líquido. Sem nada para fazer, sem nada para sentir, nem nada a perder, bebeu seu conteúdo. Sentiu sono e dormiu.

O tempo passou novamente. Romão acordou. Acordou com as mesmas roupas, mas com o corpo diferente. Acordou com o corpo daquele a quem pertenciam os direitos autorais do misterioso líquido. Havia agora dois Felipes, um deles com alma de Romão.

E Romão saiu a caminhar, sem saber aonde ir ou o que encontrar. Caminhou durante algum tempo e encontrou com alguém. Para ele era apenas mais um desconhecido; mas para Felipe, Romão era uma réplica de si. Olhou perplexo para ele, sem entender o que ocorria. Romão, por sua vez, olhava naturalmente para Felipe, sem saber que tinha a face transformada naquela face que via, sem entender porque o outro estava tão perplexo. Permaneceram alguns instantes a se olhar até que Felipe virou-se e foi embora. Romão deu de ombros, continuou a caminhar.

E o tempo passou, e Romão estava a caminhar, ainda sem destino, quando começou a sentir necessidade de soltar a musculatura da bexiga. Procurou por uma moita e urinou. Ao fechar o zíper de sua calça, estava de volta ao seu corpo. Era novamente Romão, em todos os sentidos.

Santa Rita do Passa Quatro, Outubro de 1988

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