O FILHO DE SIRIUS

Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan

 

Acabo de acordar de um sonho repetido e perturbador, e creio ter chegado a uma conclusão quanto a sua natureza. Refere-se a uma singular experiência, que nesse caso garanto ser verdadeira. Agora eu acredito ter sido ela muito mais significativa do que a princípio pensei.

Tudo começou numa noite em que eu e meu amigo William estávamos acampando em sua fazenda. Fomos por minha insistência, pois aquele era o primeiro final de semana das férias, e havia muito o que se fazer na cidade. Sempre fui uma pessoa gregária, mas estranhamente queria me isolar por uns dias, e como eu e William sempre fazemos tudo juntos, ele me acompanhou. Na ocasião, interpretei essa minha indisposição para a sociedade como algo natural e passageiro, mas agora creio ter sido determinada por forças externas a mim.

Era nossa primeira noite, e tínhamos ido dormir tarde. Não sei porque, mas sempre que acampamos o sono demora a vir, e ainda assim, acordamos cedo no dia seguinte. Passamos grande parte da noite fora da barraca diante de uma fogueira preparada durante o dia, conversando sobre nossos amigos e nós mesmos. William parecia desejar muito estar na cidade ao invés de no campo, apesar de gostar também de apreciar as estrelas enquanto conversamos sobre pessoas e o relacionamento humano. Mas não expressou o que preferia estar fazendo. Nem precisava. Entendemo-nos tão bem que um olhar basta para saber o que o outro pensa. Quando o sono finalmente veio, apagamos a fogueira e entramos na barraca. Não demorou muito para que dormíssemos.

Era uma noite clara, bastante estrelada. Acordei com um clarão, como se a aurora tivesse chegado rápida, mas não tão intensamente. Não posso dizer com precisão, mas deve ter durado cerca de um minuto, então desfez-se. Poderia ter sido um raio, se não tivesse sido tão longo. Mesmo assim, não veio nenhum trovão. Havia apenas um leve zumbido, quase imperceptível, que desapareceu com a luminosidade.

Fiquei apreensivo. Na verdade, fiquei apavorado. Não temos mais medo de uma situação nitidamente perigosa do que do desconhecido. Temos medo da escuridão porque não sabemos o que pode surgir dela. Temos medo da morte porque não sabemos o que ela significa, e sua antecipação é em verdade mais tenebrosa do que ela própria. Aquele clarão era um mistério, e conduziu minha mente aos pensamentos mais assustadores. Se algum ser humano, mesmo um amigo meu tivesse chegado naquele momento, teria me feito desmaiar de pavor antes mesmo de poder se identificar. Olhei para o relógio, ainda eram duas horas; tínhamos ido dormir a pouco e demoraria ainda para amanhecer. Resolvi tentar dormir; apesar de frágil, a barraca dava uma curiosa sensação de segurança.

Mas quando fechei os olhos, minha audição se aguçou e pude perceber ruídos estranhos, muito baixos, vindo de trás da barraca, mas não poderia dizer a que distância, nem mesmo se eram reais. Surgiu em mim, então, a nítida impressão de que havia algo ali. Isso foi suficiente para deixar-me mais perturbado. Levantei-me, ajoelhando-me sobre minhas cobertas, virado para trás, para onde vinham os estranhos sons. Acho que foi uma ação impensada, pois não sei onde teria encontrado coragem em minha racionalidade para fazer isso. Mas a partir daí, fiquei apenas intrigado; uma sensação de paz passou a tomar conta de mim, como se de repente eu soubesse que o que quer que estivesse lá fora não fosse perigoso. E eu realmente sabia que não era, embora não pudesse dizer como poderia estar tão certo. Era como se todo medo tivesse sido extirpado de mim; o que é estranho, pois via luzes e sombras se movendo contra o fundo da barraca, e agora tinha certeza quanto a existência dos sons. Eram reais, e muito estranhos. Alguns pareciam ser artificiais, embora diferentes do som de qualquer instrumento ou aparelho que conheço. A que distância estavam, não sei dizer. Foi então que resolvi sair para olhar. Pensei muitas vezes em porque nem lembrei de acordar William para me acompanhar. Hoje, por causa do sonho, acho que fui induzido a agir assim.

Abri a entrada da barraca e rapidamente calcei meus tênis. Estava extremamente curioso, e, embora sem medo, achei sensato manter distância e observar tudo agachado, sem chamar atenção. O que vi me deixou pasmado. Sempre ouvi relatos sobre discos voadores e seres extraterrenos, e apesar de não ser de todo cético em relação ao assunto, nunca esperei realmente ter uma experiência desse tipo. Mas ali estava. A uns cinqüenta metros de mim, dois humanóides vestidos de branco utilizavam estranhos aparelhos, aparentemente fazendo análises do solo. Procurei ao redor deles, sem sucesso, por sua nave. Então, ergui os olhos e me deparei com um imponente objeto, a uns vinte metros do chão. Tinha forma de um disco de cerca de cem metros de diâmetro. Não sei dizer qual era sua altura, pois uma pequena porção dele estava sobre mim. Não havia luzes, motivo pelo qual não notei sua presença assim que sai da barraca. Fiquei a fitá-lo por alguns instantes, como se tentando convencer a mim mesmo de sua existência. Estava pasmado.

Baixei os olhos novamente, e um calafrio percorreu minha espinha. Os dois extraterrenos estavam agora a uns dez metros de mim apenas, e fitavam-me. Devem ter estabelecido algum tipo de contato telepático comigo, pois novamente uma sensação de paz voltou a mim, dissipando o calafrio. Eu agora sabia que não eram perigosos, de alguma forma me haviam dito isso. Também pareceu que fiquei sabendo que estavam pesquisando nosso planeta. A partir daí minhas lembranças começam a se tornar confusas. Lembro-me vagamente que uma cortina de neblina se formou, e os dois humanóides perderam-se nela, voltando provavelmente para onde os vira primeiramente. Tenho a vaga lembrança, como um sonho, de ter ido atrás deles. Acho que me dominaram telepaticamente, induzindo-me a fazer o que queriam sem que lembrasse disso, como uma sugestão hipnótica.

O fato é que não me lembro do que aconteceu em seguida. Lembro-me apenas de ter saído da neblina e encontrado William olhando o disco que partia. Foi quando fiquei sabendo, estarrecido, que já era a noite seguinte, e não consegui me recordar de nada desde a noite anterior em que entrei no nevoeiro até aquele momento. Foi William que me contou o que aconteceu.

Ele acordou com um clarão e um zumbido. Olhou para o lado e não me viu. Ficou apreensivo e com medo, como eu havia ficado quando notei o mesmo clarão. Demorou até que tivesse coragem para sair dali à minha procura, que não precisou ser muito intensa, pois eu estava mais ou menos onde os extraterrenos estiveram, a uns cinqüenta metros da barraca. Olhava as estrelas. William me perguntou o que eu fazia ali e que clarão havia sido aquele. Contei-lhe o que havia acontecido, acrescentando que o disco tinha acabado de partir -- produzindo o clarão que acordara William --, e eu ficara ali, observando-o partir até se transformar em apenas um ponto e sumir. A princípio, ele não acreditou muito, mas quando se lembrou do que o acordara, aceitou o fato de que algo realmente estava acontecendo, e não era algo muito normal.

Eram quatro e vinte então, e William me disse que fiquei muito intrigado quando soube do horário. Naquele dia, todas as minhas memórias estavam bem claras, e não me lembrava de nenhum intervalo de duas horas. Lembrava de ter entrado no nevoeiro, vê-lo se dissipar e assistido ao disco partir, até que William fosse ali me encontrar -- memórias contínuas, sem lapsos. Mas eram quatro e vinte, e meu próprio relógio me afirmava isso. Aceitamos o fato, então, de que havia o consultado mal quando acordei; afinal, estava apavorado naquele instante.

Conversamos mais um pouco sobre o que eu tinha visto e fomos dormir. William não se conformava de eu não tê-lo acordado para verificarmos juntos os estranhos ruídos. Como disse, também não soube antes porque agi dessa maneira. Hoje, acredito ter sido induzido pelos alienígenas, para que tudo saísse de acordo com seus planos.

Conforme narrou-me William, acordamos no dia seguinte e examinamos as marcas deixadas pelos humanóides na noite anterior. Isso deu maior veracidade a minha estória. De resto, nosso dia foi normal, sem muito o que fazer. William me consultou sobre a possibilidade de irmos para a cidade, mas quis ficar mais uma noite, na esperança de novo contato. Ele concordou comigo, pelo mesmo motivo provavelmente.

A noite veio e ficamos a conversar ao lado de uma nova fogueira. A maior parte do tempo falamos sobre a insólita visita da madrugada anterior. Olhamos as estrelas e conversamos sobre elas, dessa vez não tão poeticamente; agora as olhávamos como outros sóis que aqueciam outros mundos e, pelo que pudemos constatar, outras vidas. Falamos sobre a infinitude do vasto Universo e a finitude Humana, lançando mão de nossa vã, porém honesta, filosofia.

Estava tão frio quanto a noite anterior e o céu igualmente claro e estrelado. Nada de muito anormal tinha acontecido até então -- segundo me contou William --, apenas uma atração especial que uma determinada estrela parecia exercer sobre mim. Constantemente tecia algum comentário sobre ela; fosse sobre seu brilho, posição no mapa celeste ou qualquer outra coisa. Mas não sabia explicar porque esse fascínio em particular. Nenhum de nós conhecia seu nome nem a que constelação pertencia. Como já disse, não me lembro disso, mas desde então tenho sido atraído por essa estrela de forma especial. Há algumas semanas atrás, um conhecido, cuja formação lhe permite conhecer melhor o firmamento do que eu, informou-me se tratar, na verdade, de uma estrela dupla chamada Sirius. Hoje, acredito saber de que modo estou ligado a ela.

Eram duas horas, e depois de realimentada várias vezes, a fogueira ainda ardia. Ambos estavam cansados quando um clarão conhecido iluminou ao nosso redor. Erguemos nossos olhos e vimos a já esperada nave. William deve ter ficado muito mais impressionado do que eu, pois ainda não a havia visto.

Ficamos algum tempo contemplando o aparelho, e novamente formou-se uma cortina de neblina. Parece que me afastei de William, sem que ele se desse conta disso. Só percebeu minha ausência quando o disco finalmente resolveu partir. Foi quando me aproximei dele, saindo da neblina. Ele continuou então a olhar para o céu.

A partir daí eu me recordo. É uma sensação estranha alguém lhe dizer que você fez coisas das quais não se lembra. É uma experiência insólita sair das nuvens e descobrir que muita coisa se passou desde que você entrou ali, quando a impressão que se tem é de que nada mais do que minutos se passaram. Já ouvi pessoas que tiveram amnésia dizerem que tinham vagas lembranças do que tinham feito quando alguém lhes contava, como se fossem reminiscências de um sonho quase todo esquecido. Mas nem vagas lembranças eu tive. Um dia inteiro de minha vida tinha sido completamente apagado de minhas memórias.

É claro que a princípio não acreditei no que William me dizia sobre o tempo, achando que era uma grande piada dele, da qual eu era o protagonista; mas os calendários dos relógios desmentiam essa hipótese, e quando voltamos à cidade no dia seguinte, tive então certeza de que perdera realmente a memória -- o tempo era realmente aquele que William me dizia ser, e não aquele que eu imaginava.

Isso foi há cerca de seis meses, e desde então tenho vivido normalmente, exceto pela atração que tenho pela estrela binária de Sirius e pelo intrigante sonho que se repete com freqüência desde então.

Nele, estou de volta ao acampamento, diante de uma cortina de neblina, na qual eu entro, enquanto estou também saindo. É complicado e soa absurdo, mas parece que consigo enxergar de dois pontos de vista distintos, como se eu fosse duas pessoas simultaneamente. O que sai junta-se a William, e o outro entra na nave, que parte logo em seguida. Vejo, então, a nave se afastando ao mesmo tempo em que vejo o solo, eu e William ficando pra trás. Então, essas imagens se dissolvem, e eu acordo.

Agora esse sonho me parece muito claro, e custo a acreditar que levei tanto tempo para compreendê-lo. É claro que a conclusão à qual cheguei não passa de especulação, mas explica perfeitamente todas as anomalias do que aconteceu -- os lapsos temporais e minha amnésia profunda. Pode ser que do que direi agora, nada ou bem pouco seja verdade, mas eu particularmente acredito em tudo o que segue.

No lapso de duas horas da primeira noite, entrei na nave. O que lá ocorreu não posso precisar, mas os alienígenas devem ter tomado amostras genéticas minhas e uma cópia completa de minha memória, e isso em particular não sei como poderia ter sido feito, mas para uma civilização cientificamente mais avançada como a deles não deve ser difícil. Enfim, fui devolvido depois das duas horas, mas antes fui sugerido hipnoticamente a não me lembrar delas, e provavelmente a passar mais uma noite ali. Com meus genes eles construíram uma réplica exata de meu corpo, e nele implantaram as memórias que haviam copiado. Na noite seguinte, trocaram os corpos. Portanto, não sou Scott, mas uma réplica exata dele! Eis porque não lembro de um dia inteiro: não fui eu que o vivi, foi o original de mim e na troca não houve tempo para que essas novas memórias fossem acrescentadas às minhas.

Penso em quantas pessoas não estarão vivendo nesse mundo, sem saber que não são aquele que pensam ser. Pessoas nas quais o trabalho executado pelos extraterrestres, devido às circunstâncias, teria sido melhor, sem que se deixasse nenhuma pista. Pessoas sozinhas, por exemplo, por muito tempo em uma fazenda, e que hoje são réplicas de outras, assim como eu. Ou talvez eu seja o único.

Mas, e o original? Deve ter sido levado à Sirius, para estudos. Apesar de termos lembranças comuns, somos agora pessoas diferentes, pois estamos passando por experiências diferentes. Mas será que posso me considerar um ser humano, ou sou apenas um produto extraterrestre? Será que posso me chamar de Scott, ou de apenas uma réplica dele? Talvez possa dizer que somos a mesma pessoa vivendo, por assim dizer, realidades paralelas. Eu aqui passo por uma crise de identidade, mas ele deve estar passando por algo bem pior, afastado da Terra, de nossa família e amigos -- digo nossa porque temos o mesmo sentimento em relação a eles --, e ainda por cima sendo estudado como um cobaia. Não queria isso para mim, mas de certa forma sou eu que estou passando por isso. Quais serão nossos destinos? Talvez ele tenha sido levado temporariamente. Nesse caso, o que acontecerá comigo quando ele retornar? Talvez seja eliminado, como uma simples peça substituta que já não tem mais uso. Acho que se isso acontecer, nossas memórias serão fundidas, para que ele não se sinta perdido em seu planeta depois de uma longa viagem, com uma longa "amnésia", nem que suas experiências sejam perdidas. Eu continuaria então a existir, mas apenas em suas memórias. Ser a mesma coisa? Só o tempo poderá responder. Enquanto isso, olho as estrelas, aguardando um retorno incerto.

São Paulo, 7/8/9 de abril de 1992

adaptado a partir de estória de julho de 1987

e esboços de dezembro de 1989

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