EGOFOBIA

Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan

 

O livro de psicologia estava ali na prateleira, oferecendo-se. Andreas apenas esperava, folheando uma revista de computadores sem realmente ver suas páginas. A oferta continuava. Era como se o livro olhasse para ele, chamando-o. Mas Andreas precisava esperar. Não devia demorar muito ainda. Já eram quase nove horas.

Os minutos se arrastavam. O tempo não corria, apenas caminhava. A impaciência aumentava, o livro se oferecia e Andreas tinha que esperar. Nove horas. "Vão chegar atrasados."

Finalmente seus pais apareceram na sala para se despedir. Sua mãe lhe perguntou se ia sair, mas já sabia que a resposta era negativa. Acrescentou que não tinham muito horário para voltar, pois nesses jantares o pessoal sempre ficava além da comida. Mais duas ou três repetidas palavras de recomendações e deixaram-no sozinho.

Andreas ainda verificou se haviam deixado a porta da frente bem trancada. Foi à prateleira, e finalmente pegou a livro que tanto se oferecia.

No carro, seu pai dizia que ele deveria sair mais de casa, cultivar mais as amizades, enfim, ser mais sociável. Qual era o problema afinal? Sabiam que ele era um jovem retraído, mas percebiam que não gostava de ser tão introvertido, e que era querido pelos amigos. Qual seria o bloqueio, então? A mãe repetia o que a psicóloga tinha lhe dito, algo a ver com insegurança de adolescência. Bastava lhe dar algum tempo e ocasionais palavras de encorajamento que isso passaria. Continuaram a repetir essa conversa que já haviam tido até chegarem ao jantar, onde esqueceram do assunto.

Andreas já havia folheado o livro e procurado no índice por um tema que talvez pudesse ajudá-lo. Escolheu um entre dois ou três que encontrou, e pôs-se a ler.

Não foi depois de muito tempo de leitura que ele descobriu o significado da palavra ego, em termos de psique -- ego, o Eu. Juntamente veio alter-ego, o eu alternativo, a personalidade oposta. Era nisso que deveria se concentrar, decidiu. Se estava tentando modificar seu modo de ser, e assim sendo de agir, deveria se mirar numa personalidade oposta a sua.

Interrompeu a leitura e pensou em seus colegas, e nos amigos deles, conhecidos seus, mas não conseguiu encontrar ninguém que se aproximasse de seu alter-ego. Se fosse o seu oposto em um aspecto, era semelhante em outro; apesar de que se sentia diferente de todos eles.

Começou a pensar no modo como se relacionava com essas pessoas. Todos o amedrontavam, todos de alguma forma o intimidavam. Parecia que representavam alguma ameaça, apesar de lhe serem sempre muito gentis, pelo ao menos quando se dirigiam a ele. Mas sabia que era um engodo, sabia o que pensavam dele. Ele era diferente.

Mas por que tinha que ser assim? Levantou-se da cadeira de balanço onde estava e foi até o espelho da sala observar-se. Buscava uma resposta. Quem era ele afinal? Quem seria aquele do outro lado? Tinha uma expressão triste. Os óculos davam-lhe um ar intelectual, mas um tanto desajeitado. Melhor dizer então intelectualóide, combinava mais com ele. Era inteligente, sem dúvida -- uma olhada apenas para aquele rosto já dizia isso --, mas ainda assim era ingênuo. Aquele olhar era um olhar ingênuo -- um olhar simples, perdido. Era também um olhar humilde. Devia ser possível ser humilde sem ser ingênuo, mas naquele caso era os dois. Havia mais alguma coisa. Aquele olhar tinha sensibilidade. Ele era uma pessoa sensível. Era ainda um olhar amedrontado, até mesmo covarde. Não podia ser usado para se ver diretamente nos olhos das pessoas, pois sempre se esquivava. Um olhar simples, mas cheio de significações. Seu rosto não era especialmente feio, mas não era do tipo que chamava a atenção, e os óculos contribuíam para isso, o penteado contribuía para isso, as expressões contribuíam para isso, e o olhar... o olhar também contribuía para isso. Não podia esperar que gostassem de alguém assim, cujo próprio rosto não se impunha. Voltou à cadeira de balanço.

Pensou novamente em seus colegas e conhecidos. Gostaria de estar entre eles sem medo, sabendo se defender se fosse preciso, mesmo que de simples palavras. Gostaria de beber com eles, se divertir. Gostaria de saber conversar com eles sem temer sem chato. Gostaria de sair com garotas, como eles. O que será que diziam para conquistá-las? Gostaria de muitas coisas, mas não se imaginava fazendo nada disso. Queria não ser tão diferente dos outros.

A essa altura, Andreas já havia recostado sua cabeça, fechado os olhos e se posto a divagar. Começou a se imaginar de outra maneira. Procurava por seu alter-ego. Acabou adormecendo e sonhando com ele.

Não usava óculos, e o corte de cabelo era diferente, algo mais moderno. Suas roupas também haviam mudado. Sua postura era outra, assim como suas expressões. Era um estilo mais atraente, algo mais agressivo. Seu comportamento era seguro, decidido.

Quando Andreas acordou, sabia o que queria ser. Talvez Natasha pudesse gostar dele se ele fosse daquele jeito. Tentou retornar à leitura, mas estava empolgado demais com a imagem que fizera de si mesmo. Ele ia se transformar em seu alter-ego. Ele queria isso. Sentiu que esse sopro de convicção, de espírito empreendedor já fazia parte do seu novo eu.

Interrompeu esses pensamentos apreensivo, pois ouvia passos na casa. Deveria estar sozinho. Pensou em se levantar para checar, mas estava imobilizado pelo medo. Prestou atenção apenas. Não escutou mais nenhum ruído.

Ainda era um covarde afinal. Ainda tinha medo de sons imaginários. Isso lhe entristeceu. Precisava mudar. Agora já sabia quem queria ser. Continuou a pensar fixamente em seu alter-ego.

Novamente ouviu passos, e alguns outros ruídos que indicavam que alguém estava lá -- um ladrão talvez. Andreas fez um esforço incomensurável, e se levantou da cadeira. Precisava checar. Não por uma questão de segurança, mas por ele mesmo.

Os passos continuavam. Andreas caminhou cauteloso até o hall de entrada que ligava a sala onde estava com o resto da casa, onde o intruso deveria estar.

Os passos se tornaram mais firmes e nítidos. Agora tinha certeza de que havia alguém ali. E parecia que vinha ao seu encontro, até o hall. Andreas apavorou-se. Quis fugir, mas quando tentou fazer isso, percebeu que a chave havia sido roubada. Não poderia abrir a porta; estava encurralado portando. Apenas esperou, apavorado. Mas não veio ninguém. Os passos tinham cessado.

Andreas deixou-se cair, sentando-se no chão, encostado na porta da frente. Devia estar ficando paranóico... Não! Havia alguém ali; apenas estava sem se mover. Talvez tivesse notado a sua presença e estivesse com medo também. Andreas tentou escutar algum ruído acusativo, mas nada chegou aos seus ouvidos. O silêncio era absoluto.

Aos poucos, o medo foi passando, junto com os minutos, mas ele continuava sentado ali. Olhou o livro em suas mãos, fechou os olhos e começou a se imaginar novamente como seu alter-ego -- aquele rapaz destemido e atraente --, até que finalmente se esqueceu do intruso imaginário. Estava mais preocupado agora em sonhar com o dia em que seria popular, carismático.

E novamente teve que abandonar suas divagações. Os passos vieram ao seu encontro, e pararam a alguns metros dele apenas. Havia alguém ali. Andreas teve medo de abrir os olhos. Duelou contra seu próprio pavor para fazer isso. E quando finalmente conseguiu, sua reação foi levantar-se surpreso. Diante de si estava seu alter-ego, exatamente como o tinha imaginado. Era ele próprio, se tivesse uma personalidade oposta a sua. Mas algo o incomodou profundamente. O olhar não era covarde, mas parecia insensível, uma tanto imoral até. E havia algo de cruel em seu sorriso.

Ego e alter-ego fitaram-se por alguns instantes, até que o segundo, com elegantes e habilidosos movimentos, sacou uma faca do bolso de trás da calça. Andreas conhecia esse tipo de arma apenas dos filmes de gangues de ruas.

"Você quer que eu tome o seu lugar... estou aqui pra isso.", disse finalmente o alter-ego em tom sarcástico e arrogante, aproximando-se ameaçadoramente.

Andreas compreendeu tudo imediatamente: assumir outra personalidade seria anular a si próprio, seria o equivalente a morrer e deixar seu corpo a outra pessoa. O livro caiu de suas mãos. Havia desistido de mudar, e o alter-ego desapareceu de sua frente.

Enquanto devolvia o livro à prateleira, decidiu que as pessoas teriam que aceitá-lo do jeito que era. Poderiam gostar dele assim mesmo, bastava um pouco de autoconfiança. Talvez até já gostassem, apenas ele não sabia.

Escrito a 25 de maio de 1992, São Paulo

e a 1 e 2 de junho de 1992, Santa Rita

baseado em esboços de agosto de 1988

filme de julho de 1990

novos esboços de novembro de 1991

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