Delusion

Conto

Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan - São Paulo, Agosto de 1991

O sol já havia se levantado há algum tempo, mas quando Sasha abriu o zíper da barraca, pôde perceber o orvalho da noite ainda no chão. O cheiro matinal do campo. A estranha, a etérea atmosfera da manhã. O repentino algo de insólito no ar.

Sasha abriu os olhos e lembrou o que o sonho recente já lhe dissera: estava no campo. Aquela era a primeira manhã daquele acampamento e até dormindo estava se adaptando ao novo ambiente. Olhando para cima, vendo o nylon de sua tenda, sentiu um dejà-vu.

A preguiça tomava conta de si, mas de repente não queria mais ficar deitado. Levantou-se como pôde. Moritz ainda dormia. Abriu o zíper e deparou com o que esperava: o orvalho no chão, o cheiro de campo. Outro dejà-vu. Colocou seus tênis e pôs-se de pé. Que estranha atmosfera tinha aquela manhã!

Um observador inexistente, alguns passos dali, teria dito a mesma coisa, vendo Sasha como parte do ambiente, ajudando a compor o insólito quadro.

Por alguns instantes ficou a observar ao redor, sem contudo conseguir dispersar a impressão que tinha. A atmosfera etérea continuava ali. Resolveu dar uma volta.

Parou próximo a uma construção isolada, perdida no meio da vegetação campestre. E foi ao lado dela que Sasha achou um corpo. Sangue escorrendo pela boca. Pele pálida. Um cadáver.

Moritz estava sentado, amarrando seus tênis. Sasha não se deu tempo de dizer nada. Apenas puxou-o pelo braço, levando-o à construção.

O orvalho ainda não havia desaparecido. Nem o aroma matinal do campo tampouco. Mas nisso eles não reparavam no momento.

Sasha chegou ligeiramente na frente, sabendo que o outro vinha logo atrás. Mas o corpo não estava mais lá, e ao virar para trás viu que Moritz também não.

Seguiu seus passos de volta, olhando para os lados, até que ao passar sob uma árvore, deparou-se com dois pés bem a sua frente, na altura dos olhos. E eram os pés de Moritz, pois tinham seus tênis. Sasha levantou o olhar e viu apavorado que ele estava enforcado.

Ficou completamente confuso, sem saber o pensar ou o que sentir. Havia algo de errado. O que estava acontecendo? O ar... o ar estava diferente desde o momento em que acordara. Apesar do pavor, não conseguia se preocupar com Moritz e isso o apavorava ainda mais. Por algum motivo sabia que ele estava bem; mas estava o vendo morto. Aquilo era de enlouquecer.

Resolveu procurar ajuda...

Próximo à barraca havia uma mesa que não estava ali antes. Alguém sentado atrás dela lia um jornal. Era um quadro mais surreal ainda. Sasha se aproximou, na esperança de aproximá-lo da realidade, apesar de saber já se tratar de algo real. A personagem misteriosa baixou o jornal para observar o recém-chegado.

E antes que Sasha pudesse se recompor do susto de ver o cadáver da construção, tão pálido quanto antes, atrás de um jornal observando-o com vivos olhos, alguém lhe tocou no ombro, pelas costas, chamando-o.

Era Moritz. E parecia muito bem.

De repente o cadáver não estava mais lá. Nem a mesa tampouco. Apenas a barraca. Sasha reparou que o orvalho e o aroma matinal haviam desaparecido, e haviam levado junto aquela estranha atmosfera.

Provavelmente não teria mais alucinações... ou pelo menos, não mais naquela manhã.

Escrito à 5 de agosto de 1991, São Paulo

Revisto à 6 de agosto de 1991

Baseado no filme homônimo de julho de 1988

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