CONTATO (SPY STORY)
Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan
Murdock chega ao ponto de encontro com cinco minutos de antecedência, como sempre. A noite está escura. Chega vagarosamente, fazendo suspense para uma platéia inexistente. Controla seus passos e pára. Na penumbra, dá uma tragada em seu cigarro. Joga-o no chão e pisa para apagá-lo. Está usando seu tradicional sobretudo, as golas levantadas contra o frio, e seu tradicional chapéu. Sob seu braço, um jornal. Está prestes a receber um microfilme de seu contato, que deve encontrá-lo ali dentro de alguns minutos.
Encosta no muro e abre o jornal. Sua intenção é mais de disfarce do que de leitura, mas o texto também serve para passar o tempo. Ele sabe que seu contato pode chegar na hora marcada, como também pode atrasar alguns minutos, talvez mais. Apesar dos horários, muitas vezes os agentes não os respeitam. Sempre surgem imprevistos.
Durante alguns minutos, Murdock fica com sua atenção concentrada na leitura. Depois de um minuto do horário marcado, percebe alguém se aproximando, provavelmente seu contato. Mira o relógio, e deixa que se aproxime. São dois homens. Passam por ele e sentam-se em um banco próximo. Definitivamente não é seu contato. Na verdade, parecem agentes do serviço contra-espionagem. "Maldição!", pensa. "Descobriram nossa entrega de novo! Se não descobrirmos logo quem é o maldito informante, nossa rede inteira vai acabar ruindo." Não tem escolha porém. Não compensa ir ao ponto de encontro de emergência nesse caso, pois já foi visto e com certeza seria seguido, a menos que não sejam espiões realmente. Se não forem, não haverá problema em ficar ali. Mas Murdock está convencido de que são. Têm todos os traços. Olha-os discretamente por sobre o jornal, e os vê conversando. Parecem não dar importância a sua presença, mas ele sabe que é apenas fingimento.
O tempo vai passando e Murdock vai ficando nervoso com a espera. Se ao menos aqueles dois inoportunos fossem embora, então ele poderia esperar horas sossegado. Agora ele tem certeza de que são contra-espiões. O correto mesmo seria ir ao ponto de encontro secundário. Se fosse seguido, iria embora, cancelando a entrega. Seria mais seguro. Mas resolve ignorar as regras. Tem um forte pressentimento de que deve ficar onde está e aguardar. No fundo, porém, sabe o que vai acontecer: seu contato vai chegar e não vai completar a entrega, como da última vez; novo encontro será marcado e mais a missão se atrasará. E quem garante que da próxima vez a contra-espionagem não vai ser tão eficiente como vem sendo? Ainda não sabem quem é o informante. Não têm nem uma pista.
Se ao menos o contato tivesse chegado no horário... Os contra-espiões se atrasaram. Teria dado tempo de completarem a entrega. "Maldito contato! Não sabe para que servem os horários?", pensa ele.
O relógio marca quarenta minutos de atraso quando percebe novamente que alguém se aproxima. "Deve ser ele.", pensa. Deixa que se aproxime, veja os dois agentes e se afaste. De repente Murdock teme pelo que pode acontecer. Arrepende-se de ter quebrado as regras. "Foi muita burrice!" Lembra-se do que aconteceu a Kiefer, numa situação similar. O pressentimento para ficar havia sido tão forte... Mas agora já se dissipara, e só resta a razão, e ela lhe diz que o que ele fizera havia sido uma grande estupidez.
O contato se aproxima, mas não se afasta, como Murdock esperava que fizesse. Pára próximo a ele para dar continuidade a entrega. Murdock fica tenso, mas tenta agir normalmente. Sabe que os agentes os observam. Volta-se para seu contato. É uma mulher. "Devia ter desconfiado. Primeiro, quarenta minutos de atraso. Depois, não percebe os agentes e continua com a entrega."
Ela aproxima-se ainda mais dele, com um sorriso amigável no rosto. Toca-lhe a face e aproxima-se para beijá-lo. Beijam-se. Murdock fica impressionado.
Depois de beijarem-se por algum tempo, trocam algumas palavras desconexas, sem relação com a missão, como se fossem realmente conhecidos. Ela discretamente retira um pequeno cartucho do seu bolso e o coloca no bolso do sobretudo dele.
Ele sabe que estão sendo observados.
Os contra-espiões aproximam-se, armados de pistolas. Murdock e sua contato permanecem parados. Ele sabe que além do microfilme, vão querer levar os dois para arrancar-lhes informações sobre sua rede. Terá sorte se, como Kiefer, conseguir se suicidar antes de começar a ser torturado.
Um dos agentes enfia a mão no bolso do sobretudo de Murdock, e tira-lhe o pequeno cartucho que sua contato ali colocara momentos antes. Guarda-o em seu próprio bolso.
De repente, ouvem um tiro. Um dos contra-espiões sucumbe. O outro joga-se no chão para se defender. O atirador oculto continua com os disparos, dando cobertura para que Murdock e sua contato, na confusão, consigam fugir.
Ele entra no metrô cansado, mas aliviado. Falta um pouco ainda para que a missão esteja completa. Essa etapa, no entanto, finalmente foi cumprida. Murdock está impressionado com o curso que as coisas tomaram. De dentro da boca, tira um pequeno cartucho, semelhante àquele que os contra-espiões confiscaram. Olha para ele satisfeito.
"Acho que nunca um beijo foi tão útil!", pensa ele guardando o cartucho no bolso. "O contato está feito."
Santa Rita do Passa Quatro, 8 de junho de 1989
(reescrito a 18 de dezembro de 1995)