A AMPULHETA
Escrito por Pedro Luís Bello Daldegan
Eram nove e quarenta da noite de sábado quando os pais de Felipe encontraram seu corpo sem vida em seu quarto. Estava sentado diante de uma escrivaninha, caído sobre ela, com um revólver em uma das mãos. Aparentemente tinha sido cometido suicídio. O choque, é claro, foi enorme.
Felipe não aparentava ter nenhum problema. Ao contrário, estava se saindo muito bem em tudo o que vinha fazendo. Era um adolescente bem sucedido, apesar de ter envelhecido rapidamente nos últimos anos, algo que nenhum médico conseguira diagnosticar. Mas ele próprio não parecia se preocupar com isso. Não havia, portanto, razão aparente para que pusesse fim a sua vida, até que sua carta de despedida foi lida, revelando grandes surpresas.
"Desisto de viver... e faço isso por causa de um maldito objeto mágico encontrado por acaso. Graças a ele, eu trouxe a desgraça para mim e todas as outras pessoas nesse mundo.
Um dia, andando na rua, percebi que César vinha em minha direção. Se não me escondesse, ele iria me ver, e todos sabem que além de se tratar de um mau caráter, ele tem ódio de mim. Se me visse, iria me matar. Entrei às pressas na casa de Caligari -- o velho misterioso. Isso foi a três dias antes de descobrirem que ele havia morrido. Creio ter sido eu o primeiro a vê-lo morto, mas nada disse, pois achei em sua sala o tal objeto, do qual me apoderei.
Aquela ampulheta, nos primeiros instantes, era como um novo brinquedo, me encantou. Depois, como a atmosfera ao meu redor se alterava cada vez que sua areia escorria, me intrigou. E logo que descobri seu poder de congelar o tempo, me fascinou. Ela paralisava o tempo para todos, menos para mim, acredito que porque era eu quem a manipulava. Enquanto havia areia por cair, o tempo não andava.
É claro que passei a usá-la a meu favor. Guardei-a como um verdadeiro tesouro. Eu tinha mais tempo a meu dispor que as outras pessoas, e ninguém nunca saberia disso. Eu podia levar horas para fazer uma prova de cinqüenta minutos, e consultar qualquer livro.
Eu podia desaparecer e reaparecer em outro lugar. Naturalmente, eu me movia numa velocidade normal, mas com o tempo congelado, afinal um instante para os outros podia ser uma eternidade para mim; e como resultado, meus movimentos poderiam parecer instantâneos.
Mas houve efeitos indesejados: enquanto todos envelheciam meses, eu envelhecia anos. Tinha mais tempo que os outros, envelhecia mais. Sou dez anos mais velho que os da minha própria idade. Tudo bem, tive vantagens sobre eles, tinha que pagar por isso de alguma forma. Nunca consegui parar de usar aquela estranha máquina do tempo, a tentação era sempre maior. E é claro, envelhecendo mais rápido que o próprio tempo, pagava por essa minha fraqueza também.
Mas essa não foi a real tragédia em que me afundei, levando toda a humanidade comigo. Quebrei a ampulheta com o tempo paralisado. Nada se move. Faz dias que é sábado. Ou semanas, não sei ao certo. Não posso mais viver solitário, cercado de semelhantes que não se movem, cada um deles como que a me acusar.
Não posso viver com esse peso. Por isso, desisto de viver. Se algum dia a vida voltar ao normal, então essa carta revelará ao mundo o tempo perdido."
Encontraram uma ampulheta quebrada no quarto de Felipe. Se a carta dizia realmente a verdade, e é o que parece, então talvez tenha sido sua morte que fez com que o tempo voltasse ao normal. De qualquer forma voltou, e é isso que importa.
Escrito a 18 de fevereiro de 1992
e 2,3 de junho de 1992