ZONA DE CONFLITO |
| Tim Roth surpreende em sua estr�ia na dire��o pela maturidade com que conduz um filme de nuances psicol�gicos e especialmente por fugir da f�rmula de cinema que o consagrou como ator. Zona de Conflito definitivamente n�o tem o estilo cool, a viol�ncia urbana e o humor r�pido de seus trabalhos como ator em filmes como os de Tarantino. Este filme �, ao contr�rio, um drama familiar, cuja tens�o progressiva acontece no relacionamento dos integrantes da fam�lia. Um filme com in�meras sutilezas, e que poderia cair em armadilhas t�picas do cinema mainstream hollywoodiano quando trata o tema. Um rapaz se revolta quando descobre que a irm� faz sexo com o pai e n�o faz nada para impedir, e planeja vingan�a contra o pai. Pelo enredo, esse pareceria um filme t�pico de um Supercine. Mas o trunfo de Roth foi manter a ambig�idade de seus personagens. Seus sentimentos s�o sutis e revelados paulatinamente. O filme se calca em duas rela��es bastante amb�guas, entre o irm�o e a irm�, e entre a irm� e o pai. O elo entre as duas rela��es � o desabrochamento da sexualidade da irm�. A irm� � o elo, o ponto de conflito entre pai e filho. Embora querendo defender a irm� contra a atitude do pai, Roth sugere sutilmente que o irm�o teria um interesse sexual pela irm�. Ela mesma o sugere, dizendo que o irm�o n�o a deixa em paz porque � virgem. A postura da irm� nunca � de v�tima, mas tendo um controle moderado sobre a situa��o. A irm� est� come�ando a conhecer o sexo, e gosta, n�o importa com quem seja. Por outro lado, o irm�o � t�mido, cheio de espinhas, e sente dificuldades em ser iniciado. O filme sugere que o garoto tem algum tipo de defici�ncia mental, inclusive. A diferen�a entre os irm�os fica clara na cena em que a irm�, um namorado e o irm�o v�o � praia � noite, e a irm� se retira para fazer sexo com o rapaz, enquanto o irm�o permanece sozinho � luz da fogueira. Essa quest�o � fundamental, para sabermos at� que ponto o menino realmente critica a irm� por achar moralmente errado o incesto, ou porque tem ci�mes do pai. A ambig�idade aumenta quando pensamos na segunda rela��o a menina e o pai. Em princ�pio, percebemos que o pai n�o faz sexo com a filha � for�a, mas com a aprova��o t�cita dela. A menina, ent�o, gosta da atitude do pai, como uma forma de aflorar sua sexualidade. A partir de sua metade final, o filme perde um pouco o seu f�lego, exatamente por n�o manter a ambig�idade, revelando-se um pouco conservador. Quando digo conservador, obviamente n�o � porque se aprove ou se encare como normal a atra��o do pai ou do irm�o, mas porque Roth define mais claramente "os bons e ou maus" do seu filme. A irm� � vista como v�tima quando vemos a cena da rela��o sexual com o pai, em que a menina chora copiosamente. Vemos que a postura do irm�o � mais fazer justi�a que o interesse pr�prio pela irm�. Al�m disso, o pai � tratado como um ignorante, grosso e ego�sta. O final do filme abre um leque de possibilidades em termos da conclus�o do roteiro, quando o filho conta ao pai que contou � m�e sobre o epis�dio que ele presenciou. O pai poderia ter matado o filho e se suicidado; o filho poderia ter matado o pai e se suicidado; o pai poderia matar os filhos e fugir; o pai poderia ter fugido sem agredir ningu�m; o menino poderia ter ficado calado. Entretanto, Roth optou por uma solu��o, dentre as alternativas, mais moralista, com que o p�blico se identificaria mais facilmente: o menino faz justi�a com as pr�prias m�os, e mata o pai. Mas o que encanta em Zona de Conflito � o equil�brio e a sutileza com que Roth apresenta os dilemas psicol�gicos de seus personagens. O filme apresenta in�meras cenas muito bem dirigidas, com momentos dif�ceis ou constrangedores que s�o conduzidos com efici�ncia pelo diretor. A fam�lia acabara de se mudar da cidade grande, Londres, para o interior. O interior, portanto, espelha a pr�pria condi��o dos personagens, que se voltam para seus conflitos no interior da casa. A ilumina��o do filme, em tons escuros, refor�a a ambig�idade e a atmosfera sombria do filme. O filme at� possui momentos simb�licos, n�o usuais no cinema americano, como quando o garoto com um isqueiro queima os seios da irm�. O constrangimento do garoto no contato frustrado com uma prostituta arrumada pela irm�, a grava��o do "estupro", a reuni�o na praia s�o exemplos de canas em que a tens�o � tratada em um estilo propriamente cinematogr�fico. Uma prova da maturidade de Roth � o papel do beb� rec�m-nascido na hist�ria. Por um lado, ele � um coadjuvante desnacess�rio, j� que a hist�ria est� centrada nos tr�s personagens. No entanto, a crian�a insere uma s�rie de sutilezas extremamente significativas. A primeira justifica a aliena��o da m�e nos conflitos da fam�lia. Sua aten��o est� totalmente e naturalmente voltada para o beb�. A segunda � uma tentativa de justifica��o dos pais para os problemas do filho. Segundo eles, o filho teria problemas de aceita��o do beb�, o que � natural, especialmente, quando a diferen�a de idade � significativa. Com isso, os problemas do garoto s�o negligenciados. Mas o beb� lan�a uma perspectiva nebulosa sobre o futuro da pr�pria fam�lia. Quando vemos a desestrutura��o e os problemas que atingem seus componentes, nos perguntamos: qual ser� o futuro desta crian�a? A pr�pria cena que introduz o beb� no filme (e no mundo!) � de uma plasticidade impressionante. Num cen�rio quase expressionista, o beb� nasce em um acidente de carro, em meio a sangue e sofrimento. Ele quase foi cuspido do �tero da m�e para a vida, o que j� insere o beb� em uma atmosfera anormal e em desestrutura��o. Al�m disso, devemos lembrar o importante papel do beb� mesmo no plot. Numa cena monossil�bica e marcante, Roth sugere que o pai tamb�m violenta o beb�, mostrando o sangue em sua fralda. O di�logo com a m�e e o filho � econ�mico, embora clar�ssimo de suas inten��es, e a tens�o aumenta com a entrada e sa�da dos m�dicos da sala. Em suma, no ter�o final, Zona de Conflito n�o consegue manter o �timo n�vel da parte anterior do filme, j� que Roth opta por n�o manter a sua ambig�idade at� o final. Mas para um filme americano, um diretor estreante, e um tema que poderia resultar em um filme com estere�tipos completos, a dire��o de Roth surpreende, pela maturidade com que apresenta temas controversos, e pela sua habilidade na dire��o de atores e na composi��o do suspense na tela. Como estr�ia, � um filme memor�vel. Marcelo Ikeda. NOTA: 8 |