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Numa primeira leitura, Viva São João parece ser um documentário indeciso. Sua estrutura se bifurca entre ser um retrato das tradições culturais nordestinas, o festejo de São João, a importância da música de Luiz Gonzaga, e as apresentações musicais de Gilberto Gil. Sem nunca conseguir um equilíbrio convincente entre suas várias tendências, Viva São João acaba tendo seu valor menos pelo seu valor estético e mais por como ele evidencia, de forma bastante cristalina, as potencialidades e os limites do projeto de cinema que circunda sua realização. O que torna Viva São João um filme curioso é exatamente o paradoxo que envolve sua realização, sua tentativa quase impossível de se equilibrar entre suas múltiplas tendências. Em alguns momentos, Viva São João é um videoclipe, com a apresentação dos shows de Gilberto Gil. Em outros, é um documentário pessoal, como uma influência do estilo Eduardo Coutinho. Como então situar Viva São João? O que torna Viva São João um pequeno inventário de sua posição no cenário do atual cinema brasileiro é a figura de Gilberto Gil dentro do filme. Assim como em Eu, Tu, Eles, o que interessa para Andrucha Waddington é a questão da leitura. Sua única leitura possível do Nordeste é através de uma distância, isto é, a partir da visão que o Sudeste constrói do Nordeste. Nesse sentido, a grande saída do filme é a figura de Gilberto Gil. Num abissal entremeio, entre a metrópole e o sertão, a posição de Gil é a síntese da distância e da proximidade que tanto refletem a posição do próprio realizador. Gil é o máximo que Andrucha pode chegar: é o nordestino que fez seu sucesso na cidade grande. Andrucha (na maioria das vezes) nos mostra o Nordeste através da visita de Gilberto Gil a lugares dos quais ele guarda uma certa distância. No contato com as pessoas, sentimos que Gil não é o entrevistado totalmente integrado ao universo de seus entrevistadores. A própria ênfase em Luiz Gonzaga evidencia a questão do contato entre o Sudeste e o Nordeste. Gonzaga é sempre enfatizado no filme como o nordestino responsável pela divulgação da música nordestina no Sudeste. É justamente em cima desse pilar que Andrucha procura desenvolver o tema música, que acima de tudo é um fio condutor para a própria ligação de Gilberto Gil com o tema em questão. Assim como em Eu, Tu, Eles, Viva São João é passado no mesmo Nordeste utilizado nos filmes do Cinema Novo, mas agora com outros objetivos. Para Andrucha, importa pouco a visão política ou até mesmo social da luta de classes. Mas então por que o diálogo? Qual a visão que se extrai do Nordeste? Como se justifica a fuga do centro urbano? Por uma questão pessoal? Este é o paradoxo que envolve o cinema de Andrucha. Daí a indefinição de caminhos de Viva São João. Quando se vê uma pobre mulher lutadora que cria seus porcos no interior do sertão, o filme dialoga com um típico documentário social. Outras vezes, aproxima-se de um videoclipe, nos inúmeros shows de Gilberto Gil. Viva São João é o reflexo de um cineasta que se vê encurralado. De um lado, segue o padrão Conspiração de um cinema ágil, voltado para o mercado. Por outro, os conflitos de sua visão pessoal de cinema. Sim, porque por todas as suas indefinições, pela aventura de ser um documentário de noventa minutos lançado nos cinemas com o selo da Columbia, é um filme que só foi feito pela força pessoal do nome de Andrucha e da Conspiração. Não deixa de ser uma aventura pessoal. Por isso, são muito significativas as imagens de um pequeno show feito numa espécie de caverna, sem nenhum público, numa luz de pôr-do-sol. É uma imagem-síntese. De um lado, o apuro formalista da encenação extremada, num local e num horário específico, escolhido apenas por questões estéticas. De outro, a ternura que une todos esses elementos; o bate-papo descontraído que surge a seguir. É muito característico que Viva São João seja bem menos formalista que Eu, Tu, Eles. Cenas no interior de um carro, com depoimentos da irmã de Luiz Gonzaga possuem um movimento abrupto, oscilação no diafragma, iluminação precária, corte impreciso. Para Andrucha, surpreendentemente todas essas falhas formais são superadas pelo depoimento livre da entrevistada. Um sinal de maturidade. E por que tudo isso contribui para que Viva São João seja um filme sintomático? Por que todos esses dilemas de Andrucha no fundo são o dilema da própria Conspiração. Qual o projeto do "novo cinema novo", nos termos (infelizes) que Jabor definiu a empresa carioca? Um documentário como Viva São João só pode ser feito com algum tipo de auxílio do Estado, porque nunca seria auto-sustentável. Sua realização só se justifica por ser um projeto barato, fruto dos esforços pessoais de Andrucha. Por isso, a cena que fecha o filme é muito sintomática. Gilberto Gil chorando no sertão, falando de saudade, resume sua posição problemática: sua intimidade com o espaço físico e seu distanciamento. Ao mesmo tempo em que fala que "só quem vive aqui sabe como é", ele diz "saudade". Ele não se sente bem no sertão mas também não deseja ficar longe. O incômodo no retorno, ou ainda a impossibilidade do retorno, é um tema bastante trabalhado no atual cinema brasileiro. A posição de Andrucha aqui não é tão diferente da de Walter Salles no final de Central do Brasil. Resta a Fernanda Montenegro voltar para a Cidade Grande, mas para encontrar o quê? Da mesma forma, ao fim do filme, Andrucha se despede, sem conhecer o Nordeste e tampouco com algum estímulo para continuar aqui. O grande desafio de Andrucha será buscar um equilíbrio num filme contemporâneo e urbano. Marcelo Ikeda (24/07/2001) |