A ESTÉTICA DO ESTRANHAMENTO EM O VENTO NOS LEVARÁ : UM FILME DE TRANSIÇÃO?


 

Finalmente, após um certo atraso, é lançado nos cinemas do Rio de Janeiro o tão esperado novo filme de Abbas Kiarostami, O Vento Nos Levará. A princípio, um certo sentimento de injustiça ainda contribui para o aumento da expectativa, já que o filme perdeu o prêmio em Cannes para o desastroso Nenhum a Menos.

É uma pena que um filme desse quilate seja exibido apenas na sala 2 do Estação Botafogo, mas pelo menos ele foi exibido. É, por outro lado, um ponto a favor, já que o filme é distribuído pela Mais Filmes que, por uma série de fatores, rivaliza com o Grupo Estação.

É difícil falar sobre O Vento Nos Levará porque, por mais incrível que pareça, sinto que ele pode ser uma obra de transição. É um filme que recupera e utiliza vários e vários recursos já presentes na obra de Kiarostami, mas por outro lado, procura fazê-los com uma nova perspectiva. E essa nova perspectiva deve ser pensada sempre como uma continuidade mais do que uma ruptura. Expliquemos.

Em O Vento Nos Levará persistem vários temas já explorados por outros filmes de Kiarostami. O caminho do garoto estudante no meio do vilarejo iraniano lembra Onde fica a casa de meu amigo? O início, que mostra um carro no meio da areia e do sol tentando achar um caminho, lembra Vida e Nada Mais. O filme sobre um cineasta que quer fazer um filme lembra Close up e Através das oliveiras. As inúmeras repetições quando toca o telefone celular também lembram Através das Oliveiras. O tema da espera pelo destino e a sugestão da morte vêm de O gosto da cereja.

Se pensarmos na história em si, O Vento nos levará nos fala de muito pouco. É um cineasta que vai para um vilarejo no interior do Irã acompanhar a morte de uma mulher. No entanto, nem mesmo esse plot fica claro durante o filme. Não vemos nenhuma vez a câmera de filmagem ou qualquer evidência de que a pessoa é um cineasta. Em hora alguma vemos a mulher doente. Por isso, pode-se muito bem dizer que o filme é sobre coisa alguma. É um filme de meio-termos, e por isso o estilo, a estética do filme se apresentam como tão importantes quanto o filme em si.

Mas isso é no fundo enganador, porque ainda assim, O Vento Nos Levará é um típico filme iraniano. Acima de tudo, Kiarostami é um humanista, como vemos no simbólico e típico final quando o homem joga o osso ao mar. No entanto, é um cinema humanista de outra natureza. O cinema de Kiarostami nunca foi ingênuo, mesmo nos filmes mais tipicamente "neo-realistas" quanto Onde Fica a Casa de Meu Amigo? Mas agora, claramente Kiarostami parece querer apontar um outro horizonte para o filme iraniano, que por ora parece difícil de se definir com mais precisão. De fato, são a partir das ambiguidades desse modelo de cinema digamos "humanista" a que me referi que surge a tentativa de se pensar uma nova proposta. Mas sem claro negar o que Kiarostami vinha fazendo. Como disse, é mais claramente uma continuidade que uma ruptura.

Decerto que num Vida e Nada Mais, Kiarostami já tinha revirado pelo avesso a proposta simplista do cinema iraniano. Os meandros da estrada, o longo e interminável engarrafamento já denunciavam isso. O meio do caminho para Kiarostami sempre foi mais importante que seu objetivo. O tédio, a repetição e a busca já faziam parte desse processo desde Onde Fica a Casa? Mas claramente havia um sentido e uma busca. Em Onde Fica a Casa, era um caderno, achado no final. Em Vida e Nada Mais, a busca, mais complexa, era por um resgate, por uma equipe de filmagens que existia. Em Através das Oliveiras era, em última instância, por um filme.

Isso começa a ficar mais indefinido a partir exatamente de O Gosto da Cereja. Abusca, paradoxalmente, era pela morte. O "plot" do filme era bem mais indefinido, vago. No filme, não há claramente a metalinguística dos outros filmes. Vemos o Kiarostami humanista, em que o relacionamento humano ainda é o ponto chave do filme. Mas há um desencanto, uma inércia e uma melancolia que não existiam nos filmes anteriores. Em Onde Fica a Casa há um retrato da injustiça e das desigualdades. Em Close up, há a "novidade" da estética metalinguística e a busca pela verdade e pela justiça. Em Vida e Nada Mais, há uma busca por um resgate. Em Através das Oliveiras, o amor pelo processo (ainda que repetitivo) de se fazer cinema. Mas em O Gosto da Cereja há a amargura, o vazio e a morte.

Desse ponto de vista, podemos achar até que a transição se deu com O Gosto da Cereja. Mas, a meu ver, ainda há a possibilidade de transformações, o sentido humano na troca entre o homem e as várias pessoas com que cruza pelo caminho.

Em O Vento nos levará, Kiarostami vai ainda mais longe que O Gosto da Cereja nesse sentido. Dessa vez, o cineasta é completamente "alienado" do meio que ele vai retratar. Isso é um ponto importante na quebra dessa "ingenuidade". As pessoas da vila tratam o cineasta de uma forma especial, diferente (p ex, ele não paga o leite, recebe o pão em casa, não precisa ir para a colheita desde cedo, etc.), e ele, de uma certa forma, é indiferente, pouco sensível aos sentimentos daquela região. O que se sente é uma estranheza, um deslocamento, aproveitado de forma extremamente hábil na estética. É como se Kiarostami pela primeira vez se sentisse como um estrangeiro dentro de sua própria casa. A repetição, elemento bastante utilizado, assume outra natureza. Em Através das Oliveiras, uma mesma cena era repetida à exaustão. Take 1, 2, 3, 4 etc de uma simples cena, diálogo. No entanto, em cada take a mais nos dava a impressão que Kiarostami estava se aproximando de uma verdade, incorporando de forma mais autêntica a participação dos atores como pessoas no filme. Agora, a repetição se insere na lógica do estranhamento, do deslocamento, e não da aproximação. O telefone celular, que toca vezes e vezes é o maior exemplo disso, a ponto de quase irritar o espectador. Vemos claramente a diferença de perspectivas, a falta de sentido, a inércia, a repetição, e como a nossa natureza de ser humano é mesquinha e pouco dignificante.

Como dizia antes, agora o que existe em O Vento Nos levará é uma estética do estranhamento. É sobre isso o que fala o filme. Seu plot é sua estética, portanto, e a historinha do cineasta passando o seu tempo é mero artifício. Isso por si só já é um fato mais que relevante em se tratando dos filmes iranianos e dos filmes de Kiarostami. Porque acima de tudo os filmes iranianos nunca foram "formalistas" (nesse sentido de deixarem a temática em segundo plano, e valorizarem de tal forma a estética - embora isso seja uma falácia, apenas para fins didáticos). Mesmo se pensarmos nas complicadas relações metalinguísticas de vários filmes iranianos, era o tema o que os unia formalmente. Em última instância, podemos resumir a questão de outra forma. O Vento Nos Levará é o mais "chato" filme iraniano já feito. É longo, tem um sentido de inércia e lentidão inéditos nos demais filmes iranianos, e é acima de tudo calcado em seus pressupostos estéticos, sem um enredo apresentado de forma clara.

Esse estranhamento com o qual trabalha Kiarostami é trabalhado com um sentido de ausência. Isto é, em todo o filme o que não é visto assume maior importância em relação ao que é visto. Geralmente, isto está associado a uma visão limitadora/restritiva do cineasta personagem do filme. Em última instância, é uma investigação sobre os próprios limites do papel do cineasta em si em relação a uma realidade.

Em termos de uso da linguagem, isso é claramente incorporado no sempre criativo recurso do extracampo. Muitas vezes, uma informação importante fica em extracampo. Os demais integrantes da equipe de filmagem, a não ser o cineasta, nunca aparecem em campo. Suas vozes estão sempre em off. O rapaz que cava túmulos no cemitério está sempre em off. Etc. Etc. No momento mais marcante do uso do extracampo é quando o cineasta dá uma carona em seu carro para um habitante local. O filme não o mostra entrando no carro, e durante um bom tempo sua voz fica em off. No entanto, de repente, Kiarostami resolve mostrá-lo e o diálogo no carro se dá em campo-contracampo. Quando o morador salta do carro, percebemos que ele é manco, e está usando uma muleta. O sentido da carona (devido à dificuldade de transporte) passa a assumir outro sentido.

É certo que Kiarostmi já fala da inevitabilidade da morte desde pelo menos Vida e Nada Mais. Mas sempre nesses filmes, e até em O Gosto da Cereja, há a possibilidade de uma digamos "redenção". Em O Vento Nos Levará, o final é simbólico, belo legado humanista como um típico filme iraniano, mas o vazio das relações predomina em todo o filme. É de certa forma o filme mais "antonioni" de Kiarostami, explorando o problema da identidade e do estrangeiro (ver O Passageiro), longos silêncios, repetições e inércias, com um certo esteticismo. É um filme ambíguo que deve ser visto com atenção. O mais chato filme iraniano dos últimos tempos é uma mostra de que o estilo do grande mestre do cinema iraniano está apontando levemente, gradualmente para outra direção. Ainda parece cedo para se falar sobre O Vento Nos Levará.

Marcelo Ikeda.

(09/02/2001)

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