Os curtas de Agnes Varda: feminismo, poesia, cotidiano, prazer, mem�ria |

Poesia, mem�ria e fotografia em Ulysse (1983)
| O 12� Festival Internacional de Curtas Metragens de S�o Paulo
apresentou uma homenagem ao olhar feminino no cinema, exibindo curtas de cineastas
consagradas, sejam brasileiras ou estrangeiras. Na vers�o carioca do evento, bastante
reduzida, os imperd�veis curtas de Maya Deren se perderam. No entanto, os raros
cin�filos cariocas mais exigentes enfrentaram o final de semana e o salgado pre�o do
Espa�o Leblon de Cinema (n�o houve pre�o especial para as mostras, como de costume)
para conferir, ao longo de tr�s sess�es em dias consecutivos, 13 curtas da cineasta
francesa Agnes Varda. De 1957 a 1986, foi um panorama quase completo da produ��o em
curta-metragem da realizadora. Dos mais importantes, apenas Tio Yanco (1967) ficou de
fora.
Em primeiro lugar, os curtas podem ser uma esp�cie de li��o para a nov�ssima gera��o de aspirantes a cineastas brasileiros (embora estes estivessem, como sempre, longe das salas de proje��o e mais perto das badala��es). Varda realizou seu primeiro curta-metragem [Oh esta��es, oh castelos (1957)] apenas ap�s realizar seu primeiro longa, La pointe courte (1954), que muitos consideram um dos precursores de um novo cinema franc�s (ou da nouvelle vague) com sua liberdade est�tica e no modo de produ��o, sua poesia particular e saindo do est�dio (estando mais pr�ximo na verdade do neo-realismo italiano). Portanto, nessa mostra que cobre quatro d�cadas de realiza��o no formato, Varda mostra a especificidade est�tica do curta-metragem, fugindo do lugar-comum que os curtas devem ser necessariamente caminho de prepara��o e aprendizado em dire��o a um longa-metragem. A escolha por Varda nessa homenagem ao olhar feminino � na verdade extremamente pertinente, j� que ao longo de seus filmes - e tamb�m no formato do curta-metragem - a quest�o feminina sempre se manteve em destaque, seja diretamente abordada na tem�tica de filmes como Resposta das Mulheres, ou mais sutilmente na est�tica de filmes delicados e singelos como Elsa, a Rosa. Esse conjunto de curtas s�o extremamente oportunos ao resgatar uma vis�o do document�rio que foge ao tradicional, mas que incorpora um misto de processos ficcionais e diretamente documentais. Seu primeiro curta, Oh esta��es!,oh castelos! parece um document�rio tradicional sobre um conjunto de castelos no vale do Loire. No entanto, Varda, em contraste com um conjunto de informa��es sobre a regi�o expostas na voz em off, percorre a t�nue fronteira que separa a constru��o desses castelos no s�culo XVI e o impacto que sua contempla��o pode causar nos tempos atuais. � atrav�s do prazer dessa contempla��o, cujo sentido est� intimamente relacionado ao pr�prio prazer visual cinematogr�fico, que surge a possibilidade do di�logo. O sentimento desse imagin�rio � trilhado, al�m dos belos movimentos de c�mera, com a presen�a do som, com poesias e palavras dos pr�prios jardineiros do local. No entanto, mais que um retrato objetivo, Varda busca acima de tudo sua impress�o pessoal. Por isso, de fato, capta-se o efeito dessas constru��es no imagin�rio da pr�pria realizadora. Atrav�s da nostalgia dos amplos ambientes meio abandonados, da irreversibilidade do passado e dos lentos travellings que seguem os ambientes desabitados, o curta dialoga com o cinema de Resnais, mais propriamente com Noite e Nevoeiro. Especialmente porque, assim como v�rios trabalhos posteriores de Varda, trabalha-se tamb�m com o tema da mem�ria. Esse prazer visual a que nos refer�amos est� intimamente associado a uma possibilidade de encontrar prazer na vida, ainda que a princ�pio tais fontes nos passem despercebidas. � essa busca quase ing�nua mas profundamente apaixonada que une a vida e o cinema a partir de uma reavalia��o do cotidiano ou da mat�ria bruta que aproxima o cinema de Varda com os filmes de Jacques Demy, com quem Varda foi casada at� a morte deste. Por um lado, � um tipo de cinema que v�rias vezes buscou um di�logo com as artes pl�sticas como forma de recupera��o dessa contempla��o do prazer em produzir e examinar. Al�m de seu primeiro curta j� citado, h� o bel�ssimo Prazer de Amor no Ir� (1977) em que as ovaladas e c�nicas formas dos pal�cios iranianos s�o comparadas �s formas do corpo feminino, aproximando um casal de namorados. Em As Tais Cari�tides (1982), Varda mostra as nuas est�tuas do per�odo neocl�ssico em Paris que sustentam pilastras de pr�dios imponentes, sugerindo a for�a dessas mulheres que se exibem de forma sutil e despercebida. Dessa forma, une feminismo, artes pl�sticas e a poesia de sua vis�o de vida e cinema num contexto bastante org�nico e sutil. Mas o �pice dessa vertente se encontra no extraordin�rio Do Lado da Riviera (1958). A princ�pio, o curta parece apenas um daqueles longos e tur�sticos cart�es-postais da regi�o da famosa Riviera Francesa, especialmente em Cannes. Mas dentro dessa estrutura insossa e desse contexto pouco inspirador, Varda consegue extrair um lirismo praticamente insuport�vel numa verdadeira aula do que pode ser o cinema. S�o planos em sua grande maioria plenamente descritivos e com um excesso de voz em off pontuando as imagens geralmente da forma mais did�tica poss�vel (aqui � a praia tal, onde os turistas se banham, etc etc.) Mas � atrav�s do fasc�nio pela descoberta de um lugar quase m�gico, pelo esfuziante uso das cores, e especialmente pelo car�ter c�clico da arrebatadora alegria da alta temporada e do sentimento de vazio que cerca a inc�moda e problem�tica posi��o dos moradores locais que Varda consegue extrair sua filosofia de vida e de cinema. Os guarda-s�is que se abrem e se fecham s�o sutilmente associados a extravagantes flores que desabrocham. Os restos da folia de Carnaval mostram o outro lado da euforia da alta temporada, lembrando o tom rococ� que permeia os filmes de Demy. A alegria multicolorida de Do Lado da Riviera � terr�vel, melanc�lica, porque sabemos que ela n�o conseguir� se manter para sempre, apesar dos esfor�os de Varda. Ela tem a consci�ncia desse fato, e o reproduz atrav�s do car�ter c�clico da alta temporada, que acaba. No entanto, ainda que tenha um fim, a tentativa de seu cinema � olhar com a mais profunda ternura para aqueles momentos os mais insignificantes, ou melhor, os mais comuns, como se fossem os �ltimos. A aprecia��o criativa dos elementos do cotidiano possui um toque de registro, numa tentativa de que essa brevidade se eternize. Da� n�o � por acaso que a forma��o de Varda tenha se iniciado pela fotografia. O document�rio passa ent�o a ter uma no��o profundamente �ntima, associado a uma nostalgia, para tentar evitar que aquela magia perene se perca, e na luta desesperada para resgatar algo que est� fadado a se perder. Por isso, a no��o de mem�ria e de fragmento seja t�o crucial para a realizadora. Nos document�rios cl�ssicos, o que melhor registra essa quest�o � o sublime Salve os cubanos (1963). Realizado a partir de um conjunto de mais de mil fotos tiradas pela realizadora em viagem pelo pa�s, o curta n�o procura ser um retrato objetivo da realidade cubana, mas percorrer o imagin�rio do fasc�nio que o contato com a cultura cubana causou a uma estrangeira. Com isso, mesmo em plena d�cada de 60, Varda foge do panorama pol�tico entediante, pomposo e descritivo. O filme � composto quase que exclusivamente (ap�s o mote que estabelece o tema em si do document�rio) por fotografias est�ticas, que foram tiradas, como o pr�prio filme anuncia, pela pr�pria Varda. Com isso, o tom de mem�ria se estabelece completamente. Atrav�s das fotos, a tentativa de Varda � reconstruir aqueles instantes, eternizando seu admir�vel sentimento de contato com os cubanos. A voz em off, ao mesmo tempo que costura para o espectador a presen�a das fotografias, percorre em alta velocidade o pr�prio imagin�rio da realizadora a trilhar tal caminho de volta. No entanto, o filme que melhor trabalha a import�ncia da mem�ria e a reconstru��o de um sentimento atrav�s de fragmentos, percorrendo, dessa forma, uma trajet�ria particularmente �ntima �, sem d�vida, o marcante Ulysse (1983). A partir de uma fotografia tirada pela pr�pria Varda, a diretora busca reconstruir o imagin�rio em torno da realiza��o dessa foto. Ao encontrar as duas pessoas que aparecem na foto, Varda reconstr�i, a partir de fragmentos esparsos e algumas vezes propositalmente contradit�rios, um passado incerto, nebuloso e especialmente irrevog�vel. A partir do elemento material e concreto da fotografia, a tentativa de Varda � perseguir o imagin�rio atrav�s do sinuoso desafio de recorrer � mem�ria. Os curtas de Varda exibidos na mostraMarcelo Ikeda. (11/09/2001)
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