TUDO SOBRE MINHA MÃE

 

Almodovar talvez seja o autor mais representativo da nova geração de cineastas europeus. No marasmo dos anos 80, os filmes de Almodovar possuíam um traço criativo e inusitado, sempre disposto a romper fronteiras e preconceitos. Um estilo raivoso, que fundia o brega e o kitsch, o novo e o antigo, o moderno e o pós-moderno. Ele soube interpretar como ninguém as características e os dilemas de sua geração, sempre com um humor corrosivo, histriônico e muitas vezes exagerado e de mau gosto. Mas esse era o charme de seus filmes.

Mas o verdadeiro artista sempre está disposto a questionar os limites de sua própria obra. Almodovar amadureceu, e agora suas obras adquirem um ritmo todo particular. Ao invés de se concentrar em situações específicas ou no impacto de certas cenas, Almodovar agora está interessado basicamente em seus personagens. A partir de A Flor do Meu Segredo, Almodovar deixou de ser o menino mal comportado que ferozmente criticava as instituições que impediam a liberdade do indivíduo. Agora, Almodovar é o poeta da vida, com tudo de bom e ruim que ela pode nos proporcionar. Com Tudo Sobre Minha Mãe, Almodovar deixou de ser o herdeiro espanhol de Buñuel para se tornar irmão de Douglas Sirk.

Mas o que há de mais fantástico nessa trnsformação é que Almodovar em nenhum momento deixou de ser Almodovar, ou mesmo negou seu estilo raivoso anterior. As duas tendências são complementares, e mostram um processo autoral, um caminho das pedras que o diretor percorre com muita humildade e serenidade. Em entrevista ao Sunday Times, Almodovar confessa estar mais contente com os rumos de sua filmografia: "Sinto que agora finalmente sou compreendido pelo público". Seus filmes estão mais equilibrados, profundamente poéticos e bastante reflexivos sobre a natureza da vida e dos homens.

Acima de tudo, Tudo Sobre Minha Mãe é uma grande homenagem às mulheres. O próprio título é curioso. Não se trata de um filme autobiográfico, como poderia se sugerir pela veiculação na imprensa, mas de uma obra claramente ficcional. "Tudo Sobre Minh Mãe" era o título de um livro que um garoto de 17 anos começava a escrever sobre sua mãe, embora ele não soubesse de alguns segredos que tornavam sua vida excepcional. Mesmo assim, o garoto achava a vida de sua mãe tão formidável, embora simples, que se anunciava o futuro vencedor do Pulitzer. Os primeiros 20 minutos do filme são excepcionais, um capítulo a parte no cinema dos anos 90. Almodovar sugere, lentamente e caprichosamente, o tenro envolvimento entre mãe e filho, a mútua dependência e um equilíbrio que parece inabalado. Daí para frente, o filme sofre uma série de reviravoltas narrativas, que pouco a pouco nos mostram a verdadeira natureza daquela mulher: uma mulher lutadora, que nunca precisou abandonar seus princípios éticos para sobreviver, e, por isso, no final, sentimos que ela é mais que uma sobrevivente, uma vencedora. A partir de um incidente, Manuela é indiretamente forçada a fazer um ajuste de contas com seu passado, voltando para Madrid e resgatando suas origens. Ela visita antigos amigos, conhece novos, encontra a pessoa que lhe causou todo o sofrimento de antes e de agora, mas não procura vingança, e sim a aproximação. É desse modo que Manuela consegue sobreviver com as agruras da vida, e fazer com que as pessoas que lhe causaram dor, mesmo que involuntariamente, extraiam uma lição para suas próprias vidas. O filme é composto basicamente de mulheres: há apenas um menino no início do filme e um velho esclerosado, portanto exceções. A mulher para Almodovar, é o símbolo da vida e, por isso, existem tantos homens que desejam desesperadamente se tornar mulheres. Se o filme não é sobre a mãe de Almodovar, é sobre o universo feminino que domina as idéias do diretor, e a essência do símbolo da mulher é definitivamente o desejo e a possibilidade de ser mãe, de gerar algo de novo e autêntico, fruto do amor.

Outra característica da nova fase do cinema do diretor é a referência clara aos clássicos do cinema. Em Carne Trêmula, uma televisão mostrava um filme de Buñuel. O próprio título de Tudo sobre Minha Mãe é uma referência ao filme de Mankiewicz, "All about Eve", traduzido no Brasil como A Malvada. O filme de Almodovar, em certo ponto da narrativa, faz um paralelismo com os próprios rumos da narrativa do filme americano. A atriz decadente (Mariza Paredes) em certo ponto diz que começou a fumar apenas para imitar o estilo de Bette Davis.

Se Tudo Sobre Minha Mãe é sem sombra de dúvidas o melhor melodrama feito nos últimos 30 anos, ainda assim possui todas as idiossincrasias típicas de Almodovar, com personagens e ambientes exóticos e seu senso de humor característico. Ao combinar dois estilos completamente opostos é que surge a maestria do diretor. Nas situações mais estapafúrdias, o filme não provoca riso no espectador, mas ao contrário, uma profunda comoção. Isto está levemente sugerido em filmes anteriores, como De Salto Alto, mas tudo era mostrado como uma grande farsa. Agora, as emoções são profundamente genuínas. O trabalho de direção é brilhante, exatamente porque existe um limite extremamente tênue entre o melodrama autêntico, que nos comove, e o dramalhão barato, mexicano, ou as novelas das oito da Globo. Almodovar, portanto, revisita o melodrama, explorando o dramático nas situações mais inusitadas. O resultado é um fruto único, o filme mais equilibrado do diretor, numa combinação única de humildade, honestidade e simplicidade, que é o úinco caminho para se atingir uma emoção genuinamente autêntica.

Marcelo Ikeda.

NOTA: 10

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